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As línguas menores da tecnologia: software livre, acesso e diversidade no mundo digital

As línguas menores da tecnologia:
software livre, acesso e diversidade no mundo digital

resumo:
Universalização do acesso associada a diversidade (cultural e linguística) na produção de conteúdos constituem os dois pilares de grande parte das demandas por Inclusão Digital atualmente. Se, por um lado, a existência de grande interesse e numerosos esforços e articulações visando a Inclusão Digital evidenciam o reconhecimento da centralidade da técnica na vida contemporânea, por outro, a falta de profundidade da maioria das porpostas deixa transparecer a falta de compreensão dos processos sociotécnicos em curso. O objetivo desse artigo é mapear as inconsistências dessa perspectiva que compreende a tecnologia somente a partir de suas relações de propriedade e utilidade, destacando a importância de algo praticamente inexistente nas discussões em questão: a diversidade de culturas técnicas que garantam multiplas explorações das potências em jogo na relação entr humanos e máquinas. O software livre, a partir de seu processo sociotécnico de produção e utilização, será tomado como elemento privilegiados para essa reflexão.

abertura:
Universalizar o acesso às tecnologias da informação e comunicação (TICs) garantindo uma produção de conteúdo adequada à diversidade cultural e linguística são dois pontos considerados, atualmente, como centrais e inquestionáveis em todas as discussões orientadas para a Inclusão Digital, que se preocupam com a evolução da Internet e da utilização de computadores tendo em vista seu papel preponderante na constituição e mediação dos processos sociais contemporaneos.

Acredita-se que a universalização do acesso, ou seja, a incorporação de setores atualmente excluídos da nova convivência global que as redes digitais de informação e comunicação proporcionam – através do provimento de acesso à internet em locais públicos ou através aquisição subsidiada de computadores pessoais1 – deve ser o ponto incial de uma ação que busca superar o gap que essas populações excluídas possuem em relação às novas formas de produção de valor, trabalho, comunicação, educação e cidadania que o século XXI impõe.

Garantir a diversidade linguística e cultural aparece como uma garantia para que não sejam difundidos junto com as máquinas os conteúdos, valores e comportamentos aos quais elas estão associadas nos contextos sociais de origem. Cuidando, assim, para que a introdução de computadores e conexão com internet não resulte no enfraquecimento dos processos culturais locais, mas em sua potencialização, servindo ao progresso e desenvolvimento humano desses contingentes populacionais, em sua maioria, localizados em países pobres e periféricos.

A justificativa para essa necessidade não consiste apenas na inexorabilidade do processo em curso, qual seja, o da inevitável presença e papel desempenhado por computadores na vida contemporanea. Antes de uma decorrência negativa, como que uma imposição, a motivação é positiva: as políticas de acesso visam difundir os benefícios possibilitados pelas TICs.

Neste artigo, gostaria de mostrar que, se por um lado é realmente pertinente a constatação da centralidade da técnica na vida contemporânea e esforços para discutir, compreender e influenciar o processo de desenvolvimento tecnocientífico a favor do interesse público e dos menos favorecidos; por outro, há uma grande inconsistência nas porpostas de acesso e diversidade de conteúdo que costumam ser as propostas efetivas dos projetos, políticas públicas e reivindicações sociais que podemos reunir sob o título de Inclusão Digital: a ausência de uma reflexão mais densa e profunda sobre o modo de existência dos objetos técnicos em questão, computadores, softwares e redes de informação, e dos processos sociais, políticos e econômicos a eles relacionados (invenção, patenteamento, desenvolvimento, lançamento, circulação, consumo, e exploração de potencialidades menores).

Não podemos pensar a internet ou os computadores como objetos acabados, que existem por si só, e a maneira como estão agenciados e são utilizados hoje em dia como a única possível. Desnaturalizar a existêncica dos objetos técnicos lançando o olhar para o processo de desenvolvimento técnocientífico, com suas disputas que são ao mesmo tempo técnicas, políticas, econômicas e culturais, é necessário para uma compreensão da tecnologia que vá além de suas relações de propriedade, funcionamento e utilização.

Compreender a natureza dos processos técnicos em questão, seus limites, possibilidades e potencialidades é fundamental para que elaboremos estratégias efetivas para assegurar a diversidade de apropriações dessas tecnologias, ou seja, de processos inventivos e criativos oriuundos das diferentes formas de se apropriar da tecnologia que cada contexto sóciocultural pode oferecer.

Para tanto, gostaria de exceder o escopo tradiconalmente discutido, que cuida da diversidade cultural e linguística, propondo que levemos em conta a necessidade do que, metaforicamente, chamarei de diversidade de linguagens tecnológicas, que engendram outras culturas técnicas, ou seja, outros métodos de utilizar, pensar, se apropriar e desenvolver tecnologia.

Para estruturar minha argumentação, dividirei o texto em em 3 partes. Na primeira parte, destacarei a importância da diversidade daquilo que chamarei de culturas tecnológicas como fundamento para permitir a plena existência de diversidade cultural e linguística. Para isso será necessário pensar sobre a relação entre cultura e técnica sob a luz dos processos contemporâneos.

Na segunda parte, apresentarei o Software Livre como uma língua menor da tecnologia, buscando expor certos aspectos que, a despeito de seu potencial, carecem de reflexão devido à perspectiva viciada nas relações de propriedade e utilização. Normalmente, o termo Software livre é automaticamente associado ao Linux, reduzindo grande parte da problemática que suscita a uma oposição política ou uma alternativa técnica ao Windows.

Por fim, concluirei com uma crítica às políticas de acesso, não tanto pelas respostas que oferecem, mas pelas perguntas que orientam suas ações. O acesso geralmente vem associado a um uso que se busca difundir. E, uma vez que, os objetos técnicos não comportam ou possuem um único uso, é preciso buscar a difusão de multiplas utilizações que resultem de multiplas formas de se interagir com as máquinas. Acredito que a pertinência dessa reflexão consiste na possibilidade de que mesmo com o intuito de prover igualdade de oportunidade aos menos favorecidos, acabemos por ajudar a difundir uma linguagem tecnológica hegemônica e excludente.

cultura, técnica e
culturas técnicas contemporâneas:

A cultura contemporânea mapeou e encontra-se diante de um problema: estamos cada vez mais dependentes de objetos técnicos para a realização das atividades cotidianas como, por exemplo, se comunicar, se locomover, trabalhar, aprender e pensar. A mediação técnica dessas atividades não é novidade, o que é novo é o grau de depêndencia que está associado e que acaba por reconfigurar essas atividades desde sempre consideradas como básicas.

Essa dependência resulta do avanço acelarado da capacidade dos objetos técnicos, que, ao longo do século vinte, principalmente em suas últimas décadas, passaram por uma evolução de ordem exponencial, naquilo que alguns autores definem como a aceleração da aceleração do progresso tecnocientífico2. Os computadores são os objetos técnicos que podemos tomar como ícones desse processo. Basta pensarmos que, em 1970, não havia nenhum computador pessoal (PC) e, atualmente, existem cerca de um bilhão de compudares e nódulos computacionais espalhados pelo planeta3.

O poder desses objetos ténicos é tão grande que a atividade humana mediada por eles potencializa-se de tal forma que a diferença entre os modos de vida daqueles que podem experimentar acoplamentos com eles, daqueles dos que não podem, atingiu patamares de disparidade nunca antes vistos.

Para solucionar essa diferença tão brutal entre modos de vida, em que certo contingente populacional, o menor, desfruta do avanço acelerado da tecnociência, e outro contingente, o maior, fica excluído dessa nova socialidade, diversos esforços são feitos com o intuito de difundir o acesso às novas tecnologias, notadamente, o acesso à computadores conectados à internet. Contudo, dessa forma, a problemática é reduzida à uma questão de propriedade: os que tem e os que não tem, e a solução passa por um esforço de expandir a posse ou, talvez com mais precisão, o acesso.

Eis que chegamos a uma condição paradoxal: potência do desenvolvimento, os objetos técnicos são reconhecidos como personagens centrais e decisivas, mas, ao mesmo tempo, participam dessa história como meros coadjuvantes: o que importa é ter acesso ou não.

A maior parte dos esforços orientados para Inclusão Digital simplesmente não se ocupam dos processos inerentes ao desenvolvimento e produção tecnocientífico. Consideram essa uma dimensão 'estritamente técnica' e que, restringida sob esse rótulo, fica sob a responsabilidade dos especialistas. Contentam-se em elaborar estratégias de difusão da tecnologia – encarando-a como objeto acabado – e de determinadas formas de intereção – como se os objetos técnicos possuíssem uma utilidade intrínseca.

Temas como as patentes de software ou o ritmo de lançamento de novos produtos pelo mercado são discutidos somente na medida em que dificultam ou não as políticas de acesso e a capacidade de colocar em prática essa ou aquela utilização. Assim, pensa-se a partir da lógica de uma cultura técnica hegemônica: baseada nas leis do mercado e orientada à produção de valor, pautada pelo lançamento das grandes corporações, acompanhando a velocidade do marketing e da valorização do capital. Dessa forma, fala-se do desenvolvimento tecnológico, como se esta perspectiva proporcionada por essa cultura técnica fosse natural e necessária, ou seja, intrínseca aos objetos técnicos que reconhecemos a potência e importância.

O meu argumento é que existem diversas maneiras de se pensar, utilizar, desenvolver e se apropriar da tecnologia. Os objetos técnicos não contém uma utilização intrinseca a seu funcionamento, não existem somente para serem utilziados dessa ou daquela maneira. Ao invés, contém uma tecnicidade que consiste em uma capacidade de funcionar, ou existir, de uma determinada maneira, a qual atribuímos esta ou aquela utilidade. Portanto, os usos existem enquanto virtualidades4.

Atualmente, podemos afirmar que existe um modelo de produção tecnocientífico – que engendra uma cultura técnica específica –, que se sobrepõe hegemonicamente aos outros. É o modelo cuja produção é orientada para o lucro, o trabalho é realizado por especialistas e as invenções protegidas por patentes. Nessa cultura técnica há uma divisão clara entre usuários e desenvolvedores e boa parte das escolhas (políticas, econômicas, sociais e ambientais) ocorrem isoladas do debate público.

Quando dedicamos nossos esforços e atenções somente às dimensões de uso e propriedade, como no caso da universalização com respeito a diversidade linguística e cultural de conteúdos, corremos o risco de deixar esses aspectos velados e difundir esse conjunto de relações de produção e uso.

Por outro lado, a produção de conhecimento sob o modelo do Software Livre estabelece um outro tipo de relação com o conhecimento e sua produção, fundamentada em uma apropriação do conhecimento como um bem público e orientado para o progresso intuitivo dos instrumentos, para o qual agenciam-se programadores dispersos no globo.

Uma vez que as patentes são substituídas por licenças que garantem a abertura, a produção já não fica restrita somente a um segmento da sociedade: os especialistas. Apesar de a manipulação de informação digital necessitar habilidades complexas, observamos que as relações de utilização e produção que se estabelecem proporcionam a confusão de categorias tradicionalmente distintas e isoladas: a dos produtores e usuários. Configura-se, assim, um outro modelo de pordução tecnocientífico, que engendra uma outra cultura técnica, que é mais aberto para múltiplas interações. Por não se constituir como um modelo contra-hegemônico, chama-lo-ei de um modelo menor, utilizando esse termo tal como Felix Guattari o utiliza, para designar devires minoritários.

software livre como língua menor:

O Software Livre não constitui um movimento político organizado, tampouco oferece uma proposta de contra-hegemonia. É, antes, uma maneira de produzir e se relacionar com o conhecimento tecnocientífico muito diferente daquela que acabei de descrever, baseada em patentes. Porém, afirmando que o Software Livre não consituti um movimento político, não quero diminuir sua potência ou ignorar suas inovações. Ao contrário, pretendo considerar um outro aspecto que considero seu campo realmente inovador e de potência: a abertura a múltiplas apropriações e invenções.

A maneira como os computadores e a internet são utilizados hegemonicamente hoje em dia não é a maneira como eles devem ser utilizados, mas uma forma de apropriação que é resultado de um processo de disputa social, política, cultural e econömica que, como tentei mostrar, constitui uma cultura técnica.

O Software Livre evplatform@waag.orgidencia que existem outras maneiras de utilizar, outros processos em jogo, que através de uma outra relação de produção e circulação de conhecimento estabelecem outras relações entre humanos e máquinas que se abrem para desdobramentos sociais de outras ordens.

O fundamento técnico do software livre é a abertura e publicação de seu código fonte. Isso possibilita que qualquer pessoa, desde que possua os conhecimentos e as habilidades básicas necessárias, possa ter acesso à estrutura de funcionamento dos programas desse tipo. Tal característica proporciona a leitura, o estudo, a correção de eventuais erros, a adição de eventuais melhorias ou, simplesmente, o conhecimento das operações que o programa executa. Isso é inovador, pois é uma grande diferença em relação aos softwares patenteados e fechados nos quais nada do que foi dito acima é permitido. Dessa forma, o softwares patenteados e fechados, não possibilitam nem que se estude nem que se conheça as atividades que o software está realizando em nossos computadores, com severas conseqüências no que diz respeito à privacidade e, principalmente, à capacidade das redes sociais de acompanharem o desenvolvimento técnico (DELACROIX,2004).

O fundamento social do software livre é a cooperação entre redes de programadores vinculados por interesses comuns que trabalham de forma cooperativa e pública. Os produtos desse processo são disponibilizados para apropriação pública na mesma medida em que vão sendo produzidos, tornando todas as etapas do processo visível.

A propriedade intelectual de tipo exclusivista e protecionista, que reserva todos os direitos ao autor, permitindo que o proprietário dos direitos – não necessariamente o autor – explore-os comercialmente, é substituída por licenças públicas que garantem a referência e o respeito à autoria, mas que acabam com a cobrança de direito autoral ou royalties. Proporcionam, assim, a livre circulação, utilização e apropriação dos produtos desses processos cooperativos. Para proteger essa estrutura exigem que qualquer software ou solução ou adaptação que venham a ser desenvolvidos a partir de outro software ou fragmento de software protegido por essas licenças seja registrado e disponibilizado sob os mesmos termos, garantindo assim, através desse instrumento, a manutenção da abertura do código fonte e, sub-repticiamente, o aumento do número de programas compartilhados, re-alimentando e ampliando a rede de produção (DELANDA, 2001).

Se prestarmos atenção à diferença fundamental do software livre, a abertura e publicação do código fonte, veremos que tal operação proporciona o estabelecimento de outra relação de utilização em que é permitido e incentivado ao usuário alterar o software e participar de sua construção. Assim, há a possibilidade de que o usuário envolva-se na produção, pois o modelo de produção de software livre depende de uma rede de contribuições que confunde produtores e usuários, com isso, proporcionam uma integração das redes sociais ao desenvolvimento técnico, uma vez que este é aberto e acessível.

Sob o modelo do código fonte aberto, as falhas, indeterminações, erros ou deficiências de um software são divulgados no ato da publicação. Pois, a publicação de software é compreendida como o momento propício à solução das deficiências através de testes de suas capacidades, descobertas de falhas e exploração das indeterminações. Esse processo ocorre através da publicação desses produtos sob a forma de objetos inacabados e meta-estáveis. Dessa forma, os interessados podem ‘baixar’ esses softwares e testá-los, para depois reportar ou corrigir eventuais erros, ou incrementá-los. O que permite o envolvimento de usuários de todos os níveis de habilidade técnica: os com menos habilidade podem participar reportando os erros, os com mais habilidade corrigindo ou acrescentando incrementos. Mesmo quando se atinge uma certa estabilidade em um produto, o processo não se encerra, pois melhorias e inovações ainda podem ser feitas e diversas variações de um mesmo projeto podem ser produzidas a partir de intenções diferentes.

O substrato desse modelo é a cooperação entre os produtores e a participação dos usuários. Esse tipo de relação colaborativa é completamente diferente do tipo daquela estabelecida entre o provedor de um serviço que vende o acesso a um usuário, e que se consolida como modelo da new economy (RIFKIN,1997). Essa diferença de relação reflete uma diferença de postura diante dos meios, que envolve uma relação de aprendizado e produção. Afinal, uma vez que estamos falando de produtos inacabados e não de pacotes prontos com manual de instruções e suporte de uma empresa, o ato de instalar e configurar um programa para uma utilização simples exige que o usuário se envolva de uma maneira mais ativa: aprendendo e não só consumindo. Estabelecendo, então, uma relação de aprendizado e de troca recíproca – daí alguns autores falarem em gift economy (BARBROOK, 2001) – a rede de produção e utilização do software livre criaria espaços de existência que não se enquadram na tendência da transformação das relações sociais em relações mediadas pelo consumo (RIFKIN, 1997).

Há um outro aspecto em relação a publicação aberta que merece atenção: quando um objeto técnico é lançada como um produto fechado e acabado, o que de fato ocorre é o fechamento das possibilidades de desenvolvimento desse produto a um grupo restrito e a restrição de acesso é efetuada pelas leis de patente e de proteção à propriedade intelectual. Esse modelo, que Bruno Latour chama de caixa-preta, restringe o processo de evolução técnica à equipe técnica do grupo que detém sua propriedade, impondo barreiras legais à participação de um maior números de pessoas, impedindo experiências menores, tornando esse processo privado e isolado do debate público.

Além disso, o modelo de produção do software livre está baseado em uma outra noção de progresso técnico. Enquanto o da produção tecnocientífica voltada para a produção de valores de troca orienta-se pelo progresso abstrato, aquele sentido por cálculos matemáticos de eficiência e produtividade, a produção tecnocientífica do software livre segue e orienta-se por um progresso sentido intuitivamente, por aqueles que desenvolvem e utilizam o software enquanto instrumento (SIMONDON, 1969: 233). Essa diferença de perspectiva pode ser sentida na busca por outras utilizações ou no desenvolvimento de projetos que interessam ou grupos muito pequenos ou sem grande potencial comercial.

No Brasil, posso citar o exemplo da metodologia de metareciclagem5, que consiste no reaproveitamento de máquinas descartadas como obsoletas. Esse processo de reaproveitamento só é possível pelo desenvolvimento de distribuições do sistema operacional Gnu/Linux adaptadas para rodarem em máquinas com baixa capacidade de processamento, mas que são capazes de desempenhar diversas atividades que não demandam tanta capacidade de processamento.

A abertura para múltiplas interações, é o que permite que inumeros projetos de tradução para idiomas que não despertam interesse comercial, como o Guarani, realizada por ativistas de Santa Catarina, sejam levados adiante6. E, também, é o que possibilita que grupos de programadores de alto nível se agenciem para o desenvolvimento de um projeto de gerenciador de janelas cujo objetivo é a busca pelo máximo de coerência técnica: código bem escrito, processos inteleginetes, ágeis e eficientes. Mesmo que as versões demorem anos para serem lançadas7.

acesso e seus usos:

As políticas de acesso, como chamei os esforçoes governamentais e civis orientados para a difusão de acesso à internet são inconsistentes não levarem em conta a realidade dos objetos e processos técnicos. De forma que as discussões e reflexões que orientam tais esforços partem, na verdade, daquilo que é o fim do processo. Dito de outra forma, a discussão começa com os computadores já funcionando e as pessoas conversando e trocando emails, como se só importasse o que se passa da tela do computador para fora. A dimensão técnica, considerada 'estritamente técnica' – com os graves prejuízos que já vimos – fica completamente ausente da discussão. Então discute-se acesso e utilização (conteúdo).

Porém, é preciso perceber que mesmo a questão do acesso é colocada de maneira simplista e muito pouco problematizada. É como se o acesso ao ciberespaço fosse como entrar em uma sala, bastando que todos estejam dentro para que se encontrem em condição de igualdade. O acesso às tecnologias da informação não é encarado em sua dimensão mais importante: a fluidez, o movimento veloz de informação proporcionado através da instantaneidade da comunicação8 e a capacidade de criar e processar as informações. Não basta estar dentro, é preciso saber e poder se movimentar!
Quanto a questão da utilização, esta fica restrita a produção de conteúdo, reduzindo a relação com os objetos técnicos a mera manipulação. A dimensão da invenção ou de novas modalidades de individuação, as transformações na percepção ficam totalmente excluídas. Acontece que os computadores e a grande rede de informação que se pretende expandir, não são objetos e ambientes inertes, mas obejtos e ambientes que uma vez que entramos em contato ou, talvez com mais precisão, em relação9, algo em nós se transforma.

Então não podemos lidar com a questão da universalização do acesso e da diversidade linguística sem atentar para essas problematizações. Pois não é o suficiente introduzir computadores e conexão em comunidades tradicionais, por exemplo, preocupando-se somente em respeitar a língua local, mas reproduzindo uma determinada postura em relação aos objetos técnicos e uma determinada racionalidade de concebe-los e utiliza-los.

É preciso investir e garantir mecanismos de permitir a apropriação local dos objetos e práticas que são introduzidos, através de diferentes formas exploração. Não se trata de buscar que cada contexto apenas resignifique as máquinas, mas que envolvam-se em seu processo de criação, ou seja, que criem suas próprias máquinas.

A preocupação com a preservação da diversidade linguística fundamenta-se no reconhecimento da importância que cada lingua possui por tratar-se de um mecanismo ímpar na exploração de virtualidades humanas. O diferencial do Software Livre é justamente a abertura para que diferentes mecanismos de exploração de outras virtualidades humanas sejam exploradas e desenvolvidas em agenciamentos com virtualidades máquinicas. A centralidade de um único idioma no ciberespaço é realmente prejudicial e faço aqui o esforço de evidenciar que a centralidade de uma única racionalidade, uma cultura técnica é tão prejudicial quanto de forma que são temas que precisam caminhar juntos.

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