Caderno Submidiático #1 - Teoria, Cadê?

Colagem, reinterpretação, interferências e comentários em cima da transcrição do primeiro debate da Submidialogia #1, que aconteceu em Campinas, em 2005.

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A quem precisa de explicações
Cadernos submidialógicos 1 – Teoria, cadê?

Editado por ff, em grande parte durante o carnaval de 2007

Issaqui é ficção baseada em colagens e remisturas não-lineares das transcrições do painel sobre apropriação tecnológica na primeira edição da Submidialogia. Não tem por objetivo ser um relato ou retrato da discussão, sendo meramente **baseado** em discussões que rolaram, gravadas por um alemão, transcritas por 2 brasileirxs, reconfiguradas por um desocupado, totalmente dissecadas e remisturadas sem linha editorial específica. Espero não ter torcido muito as opiniões dxs participantes. Se quiserem, considerem tudo delírio da minha cachola e os nomes como coincidência ou calúnia. Ocasionais elogios velados ao editor devem ser esperados entre entrelinhas linhas. Reclamações serão analisadas por um robô de inteligência artificial e enviadas à lata de lixo. Quer copiar? Daquele jeito, é copyleft – publica aí, mas conta que veio do DesCentro.

No programa:

14h07 Sala do Ciclo Básico CB01
teoria, cadê?
Aonde vai a teoria que perpassa as idéias e ações, qual o papel das idéias no período tecnofóbico e de especialismos ? Trata-se, com efeito, de uma questão premente, visto que existe, de fato, uma aparente dissociação entre prática e teoria, como se a "gente que faz" não tivesse tempo, interesse ou inclinação para pensar e a "gente que pensa" simplesmente não conhecesse a realidade prática daquilo sobre o que pensa. Mas seria mesmo o caso de opor os dois grupos de pessoas, como se o Submidialogia fosse colocar a prática de uns em contato com a teoria dos outros? Será que não existe, na própria teoria, uma prática ainda pouco percebida, e na prática, uma teoria que merece mais atenção?

Tati Wells - IP:/ / moderadora
Paulo José Lara - Submídia moderador
Pedro Ferreira - Subrádio - CTeMe
Dalton Martins - Metarecicagem
Renato Ortiz - UNICAMP
André Parente - UFRJ
Giselle Beighelman - PUC/SP
Mauro Almeida - UNICAMP
10 minutos para cada um expor seus pontos. 30 minutos de perguntas e respostas

Atualizando
A edição compilada já está disponível para download em anexo. Veja abaixo a lista dos arquivos originais abertos, também disponíveis para download.

Momentos eloqüentes

Pajé
Ontem os momentos mais eloqüentes foram quando começamos a tomar cerveja, na balada, quando muitas coisas surgiram, nos instantes de festa, quando trocamos muitas idéias.

Apropriação

I. MetaReciclagem e apropriação
(Dalton) A gente sentia um problema muito sério que era quando as pessoas chegavam e falavam assim: nós vamos construir um projeto de inclusão digital, ou vamos construir um laboratório de informática, vamos dar cursos, abrir um telecentro, dar acesso à informação. Mas e a apropriação tecnológica? Como é que eu me aproprio dessas ferramentas? Ou melhor, estou me apropriando dessas ferramentas ou simplesmente ampliando o mercado de acesso à mídia de massa?
Aí num dado momento chegamos na idéia de trabalhar com a apropriação de tecnologia dentro das máquinas: como se apropriar do hardware. Por que não abrir o hardware, por que não reinventar esse hardware, porque não adaptar, reinterpretar esse hardware?
II. Contexto da apropriação
(Dalton) Quando você começa a perceber a questão da apropriação tecnológica como sendo um elemento que pode derivar para um projeto ou uma circunstância de construção cultural que leve a essa integração econômica, financeira, e que isso pode levar para a sustentabilidade, você também começa a pensar em como construir políticas públicas, em como construir pesquisa e desenvolvimento, em cima dessa idéia de apropriação tecnológica. Então você passa a sair de um modelo onde as pessoas que pesquisam e desenvolvem a tecnologia fazem parte do time de desenvolvimento do fabricante, para reintegrar esse produto e essa tecnologia numa nova escala. A gente começou a perceber que esse processo também derivava de necessidade dos usuários daquela tecnologia de extrapolarem seus limites e muitas vezes essas necessidades também tinham um cunho econômico, no sentido de que em uma série de circunstâncias sociais e culturais não havia a condição de financiar determinadas idéias e projetos.
III. A prática da apropriação na MetaReciclagem
Por exemplo, se a gente vai montar o que hoje pode ser conhecido como um telecentro, a primeira coisa que vamos fazer é descontruir a tecnologia, é desmontar essas máquinas, perceber que dentro delas há uma série de tecnologias embarcadas que a gente dá o macro-nome de computador, mas isso é apenas um conceito. e que essas tecnologias embarcadas podem ser desconstruídas isoladamente.
IV. Apropriação em sentido mais amplo
Quer dizer, quando eu sento para usar meu laptop, para ver o meu computador, será que a construção espacial do local aonde estou pensando para a prática da minha construção de conhecimento através da tecnologia é um espaço do qual efetivamente eu estou me apropriando? Então levar esse conceito da apropriação um pouco mais a fundo, um pouco além dentro de nossas práticas. Porque senão a gente senta naquelas baias de computador que parecem cochos, a gente não vê as pessoas estão ao lado, manda emails uns para outros, constrói todo um processo colaborativo que se dá no espaço online, e a gente não consegue se olhar um nos olhos do outro, que estamos sentados um do lado do outro.
V. Apropriação no cotidiano
Então faz parte do nosso processo radicalizar a nossa prática em termos reflexivos de como estamos nos apropriando da tecnologia, senão caímos na situação de usar o debian e o firefox na nossa máquina mas quando aparece um bug a gente dá cancel por que dá trabalho reportar o bug no bugzilla, porque dá trabalho entrar na comunidade e mostrar o ponto falho daquela tecnologia que estamos usando. Pensar isso sobre a nossa prática. qual é a nossa prática de apropriação tecnológica? Efetiva, no dia a dia, no uso do hardware do software, e da colaboração em rede, e como podemos transferir isso no campo teórico para construir essa ligação entre as pessoas e entre esses atores.
VI. Apropriação metafórica
(Orlando Lopes) você falou em outros níveis de reapropriação. Vocês estão pensando a partir de uma base, a base do Hacker, o primeiro momento, o primeiro experimento que vocês estão fazendo de como ele funciona. Agora, a partir do momento que você tem essa imagem da uma sensação, como você falou de a partir dali você vai replicar a metareciclagem... vocês estão trabalhando com o conceito de apropriação metafórica junto com a idéia de reapropriacao?
(Dalton) Sim, eu diria que sim. Na verdade, você só consegue fazer uma reinterpretação da tecnologia como primeiro grau de apropriação tecnológica se você invadir o campo da metáfora. Se você entrar no campo da metáfora você constrói toda uma simbologia. Eu me identificar com aquilo de uma outra forma, então eu construo um significado diferente para aquilo.
Pô, pega um computador, “ah um computador eh como se fosse uma maquina de escrever”, ou o notebook, porque tem esse nome notebook? O mouse... como eh que eu dou novos nomes para aquilo, né? Como eu chamo, como eu explico o que é um HD dentro de um computador sem ter que usar a velha metáfora de um fichário de arquivos, que vem de uma metáfora de desktop, de escritório e que muitas vezes a pessoa nem conhece aquilo, nunca nem viu um fichário de arquivo?
VII. O processo de desconstrução
(Dalton) o processo de desconstrução surgiu de uma necessidade prática. Para montar novos computadores era necessário canibalizar outros, então a gente tinha que sacar muitas vezes um transistor de placa para colocar em outra para que aquele transistor pudesse suprir uma necessidade. Então ela começou de uma prática, o fato de eu ter que pegar doações das mais diversas possíveis e a partir destas doações, que têm realidades técnicas das mais diversas, eu poder construir novas máquinas, me levou a partir para a desconstrução. Depois, a gente começou a perceber que este processo de desconstrução estava na pedagogia, está lá em Paulo Freire, e os caras já estão falando isso há décadas e tem tudo a ver com isso. Quer dizer, como é que eu trago esse processo do Paulo Freire, como eh que eu trago as idéias do Piaget, e por aí vai embora. Como é que eu entro com isso dentro deste processo?
VIII. Colaboração
Marcio BlackSe o software livre aparece como resistência ao estado e o Dalton falando da metareciclagem, trabalhar com o estado e trabalhar com as corporações não cria um ruído ai? Não cria um ruído no software livre, no software livre ou na metareciclagem, seja qual for essa ação comunitária, não cria um ruído?
(Dalton) Vamos voltar um pouco. Quando você coloca assim: o software livre como resistência às corporações, eu discordo. Eu não acho que o software livre é uma resistência à corporação até porque o software livre só existe como existe graças às corporações, graças à Redhat, graças à IBM, graças à Suse e por aí vai. Elas que deram possibilidades. Corporações que emergiram da prática do software livre que deram as possibilidades para que ele se constituísse da forma que ele é. Então eu não vejo essa “resistência” às corporações. Eu não acho que é por aí a maneira de compreender isso, até porque se você entra em uma comunidade de software livre, um monte de gente trabalha em empresa e constrói o kernel do Linux porque tem uma empresa que paga o salário do cara. Então eu acho, pra ser mais ousado, que a gente não tem que ver as corporações no sentido de resistência, no sentido de embate. A gente tem que ver a forma como as corporações se organizam como um campo fluídico onde a gente pode penetrar e interagir lá dentro, e rearticular o sistema produtivo, e não ver como um embate.
Marcio Black Você acha que é possível isso então? Fazer a empresa abrir mão de uma parte do lucro dela pra poder incorporar essas soluções que a metareciclagem dá ou traz? Ou ela não vai se apropriar disso, capturar isso daí para, lógico, gerar lucro; eu não conheço empresa que não queira lucro.
(Dalton) Dentro do que a gente concebe como colaboração entra uma outra linha aqui. Quando você pensa na dimensão econômica da colaboração, esta dimensão se efetiva no seguinte ponto: a colaboração se dá numa troca e numa organização modular e elementar. Então, por exemplo, quando eu produzo um pedaço de código eu estou jogando granularidades na rede. Quando eu divido e subdivido um trabalho, estou colocando modularidades à disposição. Isso tem valor econômico mas não financeiro porque eu estou contribuindo com a rede. O que tem valor financeiro é o processo de integração das modularidades. Chega uma empresa no site do metareciclagem, e fala assim: “Pô esses caras têm um monte de idéia legal!” Ela pega aquilo, integra de uma certa forma e chama aquilo de um produto. E vende! E faz lucro! E eu não tô nem aí pra isso! Isso é muito legal, no meu ponto de vista. Ela conseguiu fazer uma leitura da elementaridade que está dentro do wiki, e conseguiu dar um valor financeiro para aquela elementariedade. Para mim beleza! Isso é o que fez o Debian ser o que é, a Redhat ser o que é, a Suse ser o que é. Eles integraram o software, as elementaridades do software numa dimensão que deu uma cara financeira. Isso não abalou a comunidade, isso não abalou a rede, isso fortaleceu a rede porque, de uma certa forma esses caras deram subsídios pra que a apropriação e a integração que a empresa fez fosse o feedback, falando de concepção sistêmica, no próprio sistema da rede. Então, olha que coisa maluca, a gente coloca através da emergência na rede uma corporação para colaborar com você. A corporação se torna parte da rede.
Marcio Black -Não é você que está colocando a corporação para colaborar com você. É ela que está se apropriando do seu trabalho.
(Dalton) Não! É o sistema da rede, ela não tem como se inserir neste sistema se ela não for mais um nó!
IX. Xemeliza a MetaReciclagem aê!
Cara de óculos barbudo magro braquelo em portunhol: Eu sou um observador aqui e estou achando na verdade que todas as coisas que vocês falam extremamente interessantes, extremamente complexas, não? E tem também uma coisa quase artistica, uma sensibilidade, uma coisa muito graciosa, não? Mas também entra essa complexidade, acho uma coisa muito difícil você discutir, muito difícil entrar no discurso, no vosso diálogo. Tem uma linguagem muito específica, eu acho que é uma comunidade que é muito complexa, muito excêntrica, uma coisa muito complicada para dedicar sua vida não? Então, falando da teoria e da prática, eu estou achando que tem uma prática muito sofisticada, mas na teoria eu tenho uma pergunta que é muito simples mas acho que não se falou ainda: eu não consegui entender no teu discurso, como se faz, através dessas práticas muito complexas, para inserir, quando se diz inserir na verdade dentro dos problemas ou das saias da sociedade onde vocês se sentem inconformados, sim? Eu acho que vocês poderiam criar uma rede incrível, mundial e global de pessoas com conhecimentos muito complexos que fazem reinvenção do que vocês querem, mas onde está o elo que vai unir isso com uma incidência real e necessária com as quais vocês estão inconformados? As grandes corporações, esse sistema global de neoliberalismo. Gostaria de entender isso porque até agora não vi, mas pode ser que como o discurso é muito técnico eu não... Assim, eu sou sociólogo, então estou procurando esse elo que não estou conseguindo perceber até agora. Para todos vocês que estão neste meio... Eu gostaria de entender isso, porque acho que também seria importante pra vocês, não uma coisa de teoria mas é necessário pra uma prática que esteja transcendendo, ou seja, além do discurso muito complexo, muito fechado né?
(Dalton) A idéia de falar a respeito de apropriação tecnológica foi trazer um discurso pra gente debater. Um discurso teórico pra gente debater em cima de práticas daquilo que a gente chama de MetaReciclagem, de um projeto de desconstrução e apropriação tecnológica. Isso foram conceitos que a gente vem elaborando, vem interpretando, vem tentando traduzir dentro das teorias que a gente vem circulando por aí que como você viu vão pra áreas das mais variadas. A prática disso, dentro dos campos sociais, se dá na dimensão onde você consegue identificar diversas localidades que produzem cultura, que têm todo um trabalho seja musical, visual, seja dançando, seja fazendo, seja cantando, seja organizando. Este trabalho se dá numa dinâmica de rede mas pontual, geograficamente falando. Quando a gente chega com esse processo de apropriação tecnológica em rede dentro de uma comunidade, a gente está criando um mecanismo de difusão, de interação, que sai da localidade e começa articular esses pontos em rede. É isso que a gente vem fazendo, criando espaços de ocupação, entrando nesses espaços e construindo-os junto com as pessoas, dentro daquilo que elas já fazem sem interferir no fazer, mas criando condições para que elas se apropriem de novas tecnologias, seja reinterpretando, seja adaptando, seja reinventando. Mas pensando esse processo de apropriação numa lógica em rede, onde a imersão disso crie estruturas sociais, mecanismos sociais, para que elas possam romper ciclos aos quais estão inseridos historicamente. É esse processo que a gente vem fazendo.

Academia, a idéia por trás, a teoria da prática e vice-versa

ACADEMIA, A IDÉIA POR TRÁS, A TEORIA DA PRÁTICA E VICE-VERSA
(Estudante da PUC) Eu pessoalmente não consigo associar essa coisa de teoria e prática. Por Exemplo: Se você pega um livro, é teoria ou é prática? Livro não é fruto de uma prática? Eu não consigo fazer essa associação, mas aí cada um pode...
(Pajé) ... acho que o mais importante é o que está por trás disso, que é muito louco na história. Não é nem tanto a prática, não é nem tanto você aprender a mexer, não é nem tanto a linha de comando, é a idéia por trás disso, ai a gente conecta com o que a gente propôs aqui nesta mesa. Quer dizer: o cristianismo, Jesus e os doze amigos dele lá, eles tinham uma grande idéia para publicizar. O capitalismo é uma grande idéia, clube de futebol é uma grande idéia, quer dizer: onde é que está esse embasamento que não é material, que não pode ser mexido e remexido, mas ele é trocado, ele é intercambiado, ele é editado e reeditado, etc.
(Antonio Albuquerque) Eu acho que o desenvolvimento da sociedade está muito marcado pela questão da acumulação capitalista, do dinheiro. Todo processo desenvolvimento tecnológico tem na questão do capital, no processo da mais-valia de produção capitalista, a essência. Quer dizer, a fronteira tecnológica, o caminho, a trajetória tecnológica está sendo determinada hoje pelos grandes grupos econômicos, que detêm 70% do comércio internacional. O que estamos pensando com a questão do software livre é fazer o processo de contra-revolução, no sentido de colocar a ética em primeiro lugar, dizendo o seguinte: olha, a tecnologia que está se produzindo não está atendendo e não está resolvendo os graves problemas sociais do nosso povo. Muito da tecnologia que é produzida, da ciência que é produzida nos países de terceiro mundo tem muito pouco a ver, se aproveita muito pouco socialmente dos seus resultados.
(Ruiz) Realmente. Como pode rolar uma aproximação, por exemplo, da academia com questões sociais ou então de, sei lá, políticas públicas com questões sociais?
(Pajé) Isso talvez seja o ponto mais importante. Onde entra a academia nesta história? Há uma idéia como no Iluminismo, ou como A Indústria Cultural, ou como... saca? Todos esses chavões e etc, são idéias, o cara pegou e fez um trabalho de escrever um livro, dois livros e isso passou a ser um idéia intercambiada por todos ao mesmo tempo. E aí? Se a gente trabalhar com os conceitos de distribuição e colaboração, a gente está misturando de uma forma muito ambiciosa essa relação entre prática e teoria. Essa separação já é uma coisa que, na minha opinião, é difícil de ser feita, mas se você pensar que o que está por trás desta história é uma idéia muito forte e de que é um aprendizado, uma cognição muito forte ai eu acho que começa a ficar interessante.
(FF) Que idéia é essa?
(Pajé) As idéias são muito fortes por trás de uma coisa, se você tem, por exemplo, a gente começou a falar de software livre. Por que a gente começou a pensar “tive uma idéia, vou dar uma mordida nesta maçã e passar aqui pra trás em vez de comê-la inteira , se essa pessoa também pegar a mesma idéia que eu assim vai e vai”. Quer dizer, eu estou falando da importância que a idéia tem...
(FF) Como se explica essa idéia, de colaboração, de conhecimento livre, o que é essa idéia, o que passa por isso?
(Pajé) Então, eu acho que isso é um dos pontos mais difíceis e espinhoso para nós aqui. A gente meio que tem muita certeza do que a gente faz, saca? Eu sei o que eu estou fazendo, eu sei que isso que eu estou fazendo é bacana, eu sei que eu vou conseguir atingir algumas outras pessoas. Mas eu não consegui chegar numa conclusão com o Cris Scabello sobre mapeamento ou não mapeamento, nem o conceito de mapeamento para ele é o mesmo que pra mim, entendeu? Esse é o ponto mais espinhoso, acho que eu gostaria muito de conhecer...
(CP) Pô, mas você vai passar o resto da vida assim, eu garanto que depois do sessenta você aprende que você não sabe mais porra nenhuma mesmo, de verdade. Mas tudo bem, cara. Pra que que você precisa desta resposta? Este é o problema da academia, precisa de respostas, deixa rolar cara, manda ver...
(Pajé) Por isso que a minha pergunta foi, o que a gente está fazendo aqui. Então a gente nem precisava estar aqui, manda todo mundo ir embora.
(CP) Tudo bem, mas é que nós estamos enganchados em uma ratoeirazinha. Aliás, eu acho que esta questão da academia passa muito por isso, de estar presa dentro de uma ratoeira, de que tem que explicar as coisas, tem que entender o que está acontecendo por um prisma teórico. O que está acontecendo agora vai eventualmente ser explicado, alguem vai ter a pachorra de escrever, de explicar isso, de falar sobre, de fazer avaliação critica, etc. Se a gente ficar muito preocupado com isso a gente pára de fazer, eu acho que o que está acontecendo aqui é efetivamente a apropriação de um momento, de uma oportunidade extraordinária de avançar e foda-se se está certo, se esta errado, se deveria ser assim ou assado. Eu acho que tem uma coisa muita em cima disso.
(Dalton) Eu acho que, na verdade, o que a gente está falando em termos de reapropriação tem a ver com novas práticas e aí sim entra essa história da teoria, novas práticas amparadas em uma ética e novas práticas que vão interferir em toda a minha relação com a sociedade, com aquele grupo do qual eu faço parte, a minha colaboração, a forma como eu colaboro, a forma como eu interfiro. E sem dúvida nenhuma os limites do software já foram extrapolados e estão sendo extrapolados cada vez mais em outras posições, mas eu acho que interfere sim nas práticas do nosso dia a dia. Quer dizer: como que eu me relaciono dentro da comunidade? Isso resgata um espírito tribal.
(Thiago Novaes) Eu queria primeiro retomar a pergunta do Pajé, sobre o que que nós estamos fazendo, considerando que a gente está em um momento que é esta passagem do digital, novas possibilidades... Este momento, historicamente colocado, esta passagem que o pessoal coloca aí como um atropelo da prática, vindo e atropelando todo a questão do pensamento. Queria colocar que tem que ter um pouco de cuidado ao colocar nestes termos, especialmente dentro de uma Academia, dentro da Unicamp, que é uma entidade em que as pessoas páram para estudar, para pensar, que tem um papel fundamental dentro do que a gente está fazendo, e que a prática em si muitas vezes não resolve. É boa parte dos problemas que a gente vai vivendo. A tomada de consciência sobre esse processo é uma das propostas de a gente ter vindo aqui, estar reunido, debatendo esses temas. Que o software livre é uma novidade, que é uma coisa que está vindo com força, que é legal fazer, eu acho que boa parte das pessoas aqui está engajada nisso e já entendeu.
(Thiago Novaes) O que está faltando é o que é teoria... O que significa isso do ponto de vista prático do comportamento? E do ponto de vista histórico até, em que vivemos um momento super atropelado. A pergunta que a gente faz enfim, lendo os textos que estão por aqui, é o quê nós estamos ajudando a fazer em nós mesmos? Muitas vezes a gente não pára pra pensar nisso justamente por termos uma prática imposta e uma necessidade de se solidarizar em vários movimentos. Tentar retomar o que talvez seja uma das propostas desse debate que é a tomada de consciência sobre esse processo, pra onde nós estamos indo, o que estamos fazendo a respeito disso.
(Antônio Albuquerque) Eu só queria completar o que o Thiago falou que não existe devolução se a gente não tem a tomada da consciência. É absolutamente necessário porque senão a gente vai fazer idealizadores e seguidores, seguidores que não têm também a consciência. Cada seguidor tem que ser também um líder. Isso mostra que a tomada de consciência é um fator fundamental para o processo de revolução. E qual é o processo de revolução? O processo de revolução que a gente está querendo fazer é resgatar um pouco do que existia antes da consolidação da era do grande capitalismo no final do século XIX seguindo a revolução industrial. O conhecimento é socialmente produzido. Que conhecimento? Conhecimento que é muito mais apropriado para resolver problemas locais do que certas soluções que são feitas em grandes empresas nos Estados Unidos ou na Europa.

Inversão da resistência?

INVERSÃO DA RESISTÊNCIA?
(Antonio Albuquerque) Os Estados Unidos aparecem no cenário mundial a partir da segunda revolução industrial e do processo de maturação do processo do capitalismo. Para os Estados unidos é canalizado todo o fluxo de capital do mundo. Esse processo de capitalização de dinheiro dos Estados Unidos no século XX se faz também com a grande apropriação do conhecimento todo, se faz também com a propriedade intelectual, com a lei de patentes, com a formação das grandes empresas multinacionais, com seus ramos pela sociedade global em outros países, capitalizando para os Estados Unidos conhecimento e riqueza e dinheiro e bens de capital. O conhecimento das partes é colocado na sociedade. O que nós estamos querendo colocar é: qual é a resistência do Brasil? Na verdade as grandes empresas é que vão ter que resistir ao processo de restabelecimento de um processo social de produção coletiva de conhecimento, que já existia antes da formação do capitalismo. Esta é a questão, a resistência é deles e não nossa, o que nós estamos fazendo na verdade é caminhar no processo do capital, é o processo mais fácil, é o processo de colaboração, é resgatar esse processo, que é o processo natural. Eles que vão ter que resistir para manter esse processo, que é antiético, que faz com que a população seja cada vez mais pobre, três quintos da população mundial hoje já vive na faixa de miséria, o globo terrestre não suporta esse modelo, está destruindo as águas, destruindo as florestas, destruindo o ar. É um modelo insustentável! E o que está acontecendo? Com o software livre e com o processo que vai além do software livre, essa tomada de consciência resgata uma produção social e coletiva do conhecimento que está espalhado por todas as partes, por todos os pólos do mundo.
(FF) Os que existe de revolucionário no software livre acontece de maneira descentralizada. Quer dizer, não são pessoas que têm o objetivo de fazer o melhor browser do mundo, o melhor software do mundo, são pessoas resolvendo seus problemas locais, o próprio objetivo da evolução do software livre é um bando de pessoas que quer resolver pequenos problemas e isso de uma maneira emergente acaba criando um contexto que é revolucionário. É uma outra maneira, uma maneira emergente de enfrentar as coisas que várias pessoas têm em comum.
CHICO (Chico) Eu quero discordar de tudo o que o Pajé falou, porque o Pajé tá insistindo em um lance que tem uma idéia por trás, o que está por trás? Ele está obcecado no que está por trás das coisas. Eu acho que a gente vive justamente um momento que as idéias não estão dando conta das coisas que estão acontecendo. Outro dia eu estava conversando com o Rhatto, e ele estava falando que na faculdade de meteorologia tem um cluster com sessenta processadores e que não existe ninguém que consegue programar pra esses computadores. O pessoal está ainda tentando conseguir desenvolver programas pra esse cluster que consigam explorar toda a potencialidade desse objeto técnico, dessa configuração que os caras criaram. Então, tem uma aceleração do desenvolvimento técnico que é a aceleração da aceleração e a gente está tentando entender e nem sempre tem uma idéia que está por trás que consegue determinar pra quê aquele objeto técnico vai servir, como ele vai ser utilizado, quais vão ser as conseqüências, os desdobramentos da inserção desse objeto técnico nas redes sociais e tal. Eu gostaria de chamar a atenção pra isso.
(Chico) Acho que eu consigo responder a primeira questão do Pajé que ele, num tom provocativo, falou: “Ah, e aí? Vocês estão usando ai o processador Pentium e não sei o quê, e aí como é que fica? E o software livre? Pra que que serve então?” Que eu acho um discurso fácil e muito simples de tentar esgotar as possibilidades criativas do software livre ou de qualquer forma de resistência porque o fundamento do argumento do Pajé é o fundamento da negação entendeu? Você não está negando o Pentium usando software livre, então você não está combatendo o Pentium.
(Chico) Eu quero discordar também do Antônio, que estava com um referencial marxista, querendo colocar o determinismo econômico. Mas não basta a gente mudar os proprietários dos meios de produção pra gente mudar a estrutura de produção. O caso da União Soviética estava aí, esteve aí, pra nos mostrar isso. Mudaram-se os patrões, as pessoas continuaram trabalhando da mesma maneira e não mudou nada, continuou tendo produção de mais-valia, as pessoas eram exploradas e continuou a mesma coisa, e depois o negócio acabou. A minha viagem é assim: o tipo de resistência. E quando o Dalton fala: “ah se uma empresa pegar eu acho que eu não tô nem ai, eu vou achar legal, se o Debian conseguiu se estabelecer porque o pessoal foi usando” é mais uma estratégia de contaminação, o pessoal começa utilizar o software livre, começa utilizar o Debian, a o camarada colocou: “É, mas aí está se apropriando do seu trabalho!” Entendeu? Mas não, ele está usando o Debian e daqui a pouco vai ter um mais monte de gente usando o Debian e vai abrir espaço pra mais pessoas conhecerem e utilizarem um software que é produzido dentro de uma outra ecologia de produção de conhecimento, dentro de uma outra ética, como algumas pessoas falaram. Então eu quero citar aqui o acadêmico Bodinho, porque a partir de suas leituras de Deleuze e Guattari ele me ensinou uma outra maneira de utilizar o conceito de resistência. A resistência, segundo Guatarri seria a negação, então eu vou resistir. A resistência baseada na negação está fundada em um paradigma da física mecânica, da ação e reação. E o outro tipo de resistência que ele propõe é a re-existência que é a construção de novos espaços de existência. Então, não é que eu sou contra as coisas, que eu quero destruir o Pentium e tal, não, eu quero construir novos espaços de existência porque não dá simplesmente pra gente fazer revolução e derrubar as coisa e tal, porque a lógica é outra e o barato é outro.
(Chico) A gente está falando de física quântica mas pensando: existe uma empresa, existe o trabalhador, existe o indivíduo, enfim, cada um é vários, não existe um eu. E a gente tem que quebrar com essas coisas também da maneira como a gente pensa e aí tem essa coisas da teoria e da prática que a gente também tem que mudar como pensa. Não adianta ver o novo, que são essas coisas que estão acontecendo, com as categorias do velho, pensar o novo a partir do velho que você não vai entender, entendeu?
(Bodinho) Falaram da academia em vários momentos e sempre se tem a imagem que a academia, essa visão do cara sisudo, do cara com vários livros, com roupas escuras e dialogando com o estabelecido. O Jubinha é um acadêmico. Olha pro Jubinha, olha o perfil do Jubinha, ele faz um novo uso da academia. E a academia como um espaço publico, garantido pelo estado, possibilita uma produção intelectual livre, e existem pessoas aqui dentro que conseguem talvez traçar umas linhas mais marginais, umas linhas mais criativas, que não passam por esse sistema quadrado e fechado. São pessoas que tentam relançar, intervir de alguma maneira. O Canário falou que a gente é acadêmico, a gente aqui até faz uma brincadeira neste sentido que começou no cineclube de exibição e foi virando várias outras coisas, ou seja, eram os acadêmicos fazendo um cineclube. Então, enquanto espaço público, garantido pelo estado com uma relativa tecnologia, com um relativo acesso à tecnologia, na academia cabe à gente achar professores que orientem teses mais alternativas, o C. está ai, eu também estou fazendo. O Novaes citou um texto que estamos ajudando a fazer nós mesmos que é do professor Luis Orlando? Aqui do Ifich. Ou seja a possibilidade, a “peneira”, aqui tem buracos muito largos e aqui é um lugar onde a gente pode emplacar uma coisa que a gente diz muito que é 171, dá pra você fazer vários 171, uma gambiarra acadêmica. Então talvez este seja o depoimento de um acadêmico, e existem acadêmicos que não são uns sisudos, não são uns chatos como esses acadêmicos que estão desfrutando das benesses do Estado.

Novos paradigmas, colaboração, software livre

NOVOS PARADIGMAS, COLABORAÇÃO, SOFTWARE LIVRE (Dalton) Quando a gente fala desta questão da academia, quando a gente fala desta questão das certezas, eu quero remeter a um momento da história da ciência, mais ou menos no início do século passado, quando brotou aquilo que a gente hoje chama de física quântica. Se a gente pegar a fala de Niels Bohr, de Heisenberg, Planck e por aí vai, esses caras tinham embates dentro de laboratórios que duravam semanas. Eles chegavam a surtos muito semelhantes aos quais nós chegamos em oficinas e processos. Einstein dizia assim: “Perdemos o chão. Estamos caminhando sobre o completo desconhecido”. Porque aquilo que brotava no cenário para eles era completamente desestruturante, com base naquilo que eles conheciam como o seu arcabouço conceitual anterior, que era física Newtoniana e o cartesianismo. Aí, de repente surge todo um padrão comportamental da matéria dual, aí fudeu; ora o eletron é matéria, ora o eletron é luz, é onda, como é que isso pode acontecer? E o que é pior, se você faz uma pergunta para um elétron do ponto de vista óptico, ele te responde do ponto de vista óptico; se você faz uma pergunta pro elétron do ponto de vista da matéria, ele te responde como matéria. Então, os caras tiveram que aprender uma coisa em 1920 com a qual eles têm que conviver até hoje, que é conviver com a incerteza. Então a gente parte de um momento em que as redes começam a emergir... tá lá o Barabási quando escreveu Linked, traçando esse perfil das redes emergentes em tudo, e a gente começa a perceber que essas redes emergentes trazem como conseqüência do processo de interconexão das pessoas novas práticas. Essas novas práticas começam a puxar atitudes ousadas de grupos que conseguem assimilar esses conceitos no seu cotidiano mais facilmente, e aí a gente se depara com esse ponto chave a que nós estamos chegando hoje. São novos comportamentos sim, mas eu vou além... são novos comportamentos porque vêm de novas formas de relacionamento, vêm de novas formas que estruturam o relacionamento e é isso que é importante trazer para o dia-dia.
(Cláudio Prado) Quando a Física Quântica começa a ser pensada, a instituição acadêmica da época, os físicos, presidentes das associações, o povo sentado em cima das cátedras dizia: “Você não precisa mais estudar física, a física já praticamente resolveu o problema de todo mundo, tá tudo pronto, faltam algumas leizinhas ai e a gente vai matar a charada da humanidade”. Essa era a postura da academia. Física quântica, até hoje professor de escola não tem idéia do que seja. Ele ensina que o caminho mais curto entre dois pontos é uma reta como fato absoluto e isso ai é um absurdo, na verdade precisava começar a ensinar para as crianças as abstrações e depois ensinar as linearidades. Você precisa primeiro aprender que a terra é chata para depois, na pós-graduação, aprender que ela é redonda... é uma coisa meia maluca isso.
(Dalton) Você constrói um conjunto de metáforas completamente caducas pra pensar a sua vida. É um processo em que você está construindo a sua relação com o mundo e você tem essa relação baseada no cartesianismo, depois você, se por acaso chegar a estudar alguma coisa que vai para o mundo das exatas, vai perceber que o tempo não é linear, vai perceber que o espaço é curvo e você começa a perceber um monte de coisas ...