Caderno Submidiático #1 - Teoria, Cadê?
Colagem, reinterpretação, interferências e comentários em cima da transcrição do primeiro debate da Submidialogia #1, que aconteceu em Campinas, em 2005.
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A quem precisa de explicações
Cadernos submidialógicos 1 – Teoria, cadê?

Editado por ff, em grande parte durante o carnaval de 2007
Issaqui é ficção baseada em colagens e remisturas não-lineares das transcrições do painel sobre apropriação tecnológica na primeira edição da Submidialogia. Não tem por objetivo ser um relato ou retrato da discussão, sendo meramente **baseado** em discussões que rolaram, gravadas por um alemão, transcritas por 2 brasileirxs, reconfiguradas por um desocupado, totalmente dissecadas e remisturadas sem linha editorial específica. Espero não ter torcido muito as opiniões dxs participantes. Se quiserem, considerem tudo delírio da minha cachola e os nomes como coincidência ou calúnia. Ocasionais elogios velados ao editor devem ser esperados entre entrelinhas linhas. Reclamações serão analisadas por um robô de inteligência artificial e enviadas à lata de lixo. Quer copiar? Daquele jeito, é copyleft – publica aí, mas conta que veio do DesCentro.
No programa:
14h07 Sala do Ciclo Básico CB01
teoria, cadê?
Aonde vai a teoria que perpassa as idéias e ações, qual o papel das idéias no período tecnofóbico e de especialismos ? Trata-se, com efeito, de uma questão premente, visto que existe, de fato, uma aparente dissociação entre prática e teoria, como se a "gente que faz" não tivesse tempo, interesse ou inclinação para pensar e a "gente que pensa" simplesmente não conhecesse a realidade prática daquilo sobre o que pensa. Mas seria mesmo o caso de opor os dois grupos de pessoas, como se o Submidialogia fosse colocar a prática de uns em contato com a teoria dos outros? Será que não existe, na própria teoria, uma prática ainda pouco percebida, e na prática, uma teoria que merece mais atenção?
Tati Wells - IP:/ / moderadora
Paulo José Lara - Submídia moderador
Pedro Ferreira - Subrádio - CTeMe
Dalton Martins - Metarecicagem
Renato Ortiz - UNICAMP
André Parente - UFRJ
Giselle Beighelman - PUC/SP
Mauro Almeida - UNICAMP
10 minutos para cada um expor seus pontos. 30 minutos de perguntas e respostas
Atualizando
A edição compilada já está disponível para download em anexo. Veja abaixo a lista dos arquivos originais abertos, também disponíveis para download.
Momentos eloqüentes
Pajé
Ontem os momentos mais eloqüentes foram quando começamos a tomar cerveja, na balada, quando muitas coisas surgiram, nos instantes de festa, quando trocamos muitas idéias.
Apropriação
I. MetaReciclagem e apropriação
(Dalton)
A gente sentia um problema muito sério que era quando as
pessoas chegavam e falavam assim: nós vamos construir um
projeto de inclusão digital, ou vamos construir um laboratório
de informática, vamos dar cursos, abrir um telecentro, dar
acesso à informação. Mas e a apropriação
tecnológica? Como é que eu me aproprio dessas
ferramentas? Ou melhor, estou me apropriando dessas ferramentas ou
simplesmente ampliando o mercado de acesso à mídia de
massa?
Aí num dado momento chegamos na
idéia de trabalhar com a apropriação de
tecnologia dentro das máquinas: como se apropriar do hardware.
Por que não abrir o hardware, por que não reinventar
esse hardware, porque não adaptar, reinterpretar esse
hardware?
II. Contexto da apropriação
(Dalton) Quando você
começa a perceber a questão da apropriação
tecnológica como sendo um elemento que pode derivar para um
projeto ou uma circunstância de construção
cultural que leve a essa integração econômica,
financeira, e que isso pode levar para a sustentabilidade,
você também começa a pensar em como construir
políticas públicas, em como construir pesquisa e
desenvolvimento, em cima dessa idéia de apropriação
tecnológica. Então você passa a sair de um
modelo onde as pessoas que pesquisam e desenvolvem a tecnologia fazem
parte do time de desenvolvimento do fabricante, para reintegrar esse
produto e essa tecnologia numa nova escala. A gente começou a
perceber que esse processo também derivava de necessidade dos
usuários daquela tecnologia de extrapolarem seus limites
e muitas vezes essas necessidades também tinham um cunho
econômico, no sentido de que em uma série de
circunstâncias sociais e culturais não havia a condição
de financiar determinadas idéias e projetos.
III. A prática da apropriação
na MetaReciclagem
Por exemplo, se a gente vai montar o
que hoje pode ser conhecido como um telecentro, a primeira coisa que
vamos fazer é descontruir a tecnologia, é
desmontar essas máquinas, perceber que dentro delas há
uma série de tecnologias embarcadas que a gente dá
o macro-nome de computador, mas isso é apenas um conceito. e
que essas tecnologias embarcadas podem ser desconstruídas
isoladamente.
IV. Apropriação em
sentido mais amplo
Quer dizer, quando eu sento para usar
meu laptop, para ver o meu computador, será que a construção
espacial do local aonde estou pensando para a prática da minha
construção de conhecimento através da tecnologia
é um espaço do qual efetivamente eu estou me
apropriando? Então levar esse conceito da apropriação
um pouco mais a fundo, um pouco além dentro de nossas
práticas. Porque senão a gente senta naquelas baias de
computador que parecem cochos, a gente não vê as pessoas
estão ao lado, manda emails uns para outros, constrói
todo um processo colaborativo que se dá no espaço
online, e a gente não consegue se olhar um nos olhos do outro,
que estamos sentados um do lado do outro.
V. Apropriação no
cotidiano
Então faz parte do nosso
processo radicalizar a nossa prática em termos reflexivos de
como estamos nos apropriando da tecnologia, senão caímos
na situação de usar o debian e o firefox na nossa
máquina mas quando aparece um bug a gente dá cancel por
que dá trabalho reportar o bug no bugzilla, porque dá
trabalho entrar na comunidade e mostrar o ponto falho daquela
tecnologia que estamos usando. Pensar isso sobre a nossa prática.
qual é a nossa prática de apropriação
tecnológica? Efetiva, no dia a dia, no uso do hardware do
software, e da colaboração em rede, e como podemos
transferir isso no campo teórico para construir essa ligação
entre as pessoas e entre esses atores.
VI. Apropriação
metafórica
(Orlando Lopes) você falou
em outros níveis de reapropriação. Vocês
estão pensando a partir de uma base, a base do Hacker, o
primeiro momento, o primeiro experimento que vocês estão
fazendo de como ele funciona. Agora, a partir do momento que você
tem essa imagem da uma sensação, como você falou
de a partir dali você vai replicar a metareciclagem... vocês
estão trabalhando com o conceito de apropriação
metafórica junto com a idéia de reapropriacao?
(Dalton) Sim, eu diria que sim.
Na verdade, você só consegue fazer uma
reinterpretação da tecnologia como primeiro grau de
apropriação tecnológica se você invadir o
campo da metáfora. Se você entrar no campo da
metáfora você constrói toda uma simbologia. Eu me
identificar com aquilo de uma outra forma, então eu construo
um significado diferente para aquilo.
Pô, pega um computador, “ah um
computador eh como se fosse uma maquina de escrever”, ou o
notebook, porque tem esse nome notebook? O mouse... como eh que eu
dou novos nomes para aquilo, né? Como eu chamo, como eu
explico o que é um HD dentro de um computador sem ter que usar
a velha metáfora de um fichário de arquivos, que vem de
uma metáfora de desktop, de escritório e que muitas
vezes a pessoa nem conhece aquilo, nunca nem viu um fichário
de arquivo?
VII. O processo de desconstrução
(Dalton) o processo de
desconstrução surgiu de uma necessidade prática.
Para montar novos computadores era necessário canibalizar
outros, então a gente tinha que sacar muitas vezes um
transistor de placa para colocar em outra para que aquele transistor
pudesse suprir uma necessidade. Então ela começou de
uma prática, o fato de eu ter que pegar doações
das mais diversas possíveis e a partir destas doações,
que têm realidades técnicas das mais diversas, eu poder
construir novas máquinas, me levou a partir para a
desconstrução. Depois, a gente começou a
perceber que este processo de desconstrução estava na
pedagogia, está lá em Paulo Freire, e os caras
já estão falando isso há décadas e tem
tudo a ver com isso. Quer dizer, como é que eu trago esse
processo do Paulo Freire, como eh que eu trago as idéias do
Piaget, e por aí vai embora. Como é que eu entro com
isso dentro deste processo?
VIII. Colaboração
Marcio BlackSe o software
livre aparece como resistência ao estado e o Dalton falando da
metareciclagem, trabalhar com o estado e trabalhar com as corporações
não cria um ruído ai? Não cria um ruído
no software livre, no software livre ou na metareciclagem, seja qual
for essa ação comunitária, não cria um
ruído?
(Dalton) Vamos voltar um pouco.
Quando você coloca assim: o software livre como resistência
às corporações, eu discordo. Eu não
acho que o software livre é uma resistência à
corporação até porque o software livre só
existe como existe graças às corporações,
graças à Redhat, graças à IBM, graças
à Suse e por aí vai. Elas que deram possibilidades.
Corporações que emergiram da prática do software
livre que deram as possibilidades para que ele se constituísse
da forma que ele é. Então eu não vejo essa
“resistência” às corporações. Eu não
acho que é por aí a maneira de compreender isso, até
porque se você entra em uma comunidade de software livre, um
monte de gente trabalha em empresa e constrói o kernel do
Linux porque tem uma empresa que paga o salário do cara. Então
eu acho, pra ser mais ousado, que a gente não tem que ver
as corporações no sentido de resistência, no
sentido de embate. A gente tem que ver a forma como as corporações
se organizam como um campo fluídico onde a gente pode
penetrar e interagir lá dentro, e rearticular o sistema
produtivo, e não ver como um embate.
Marcio Black
Você acha que é possível
isso então? Fazer a empresa abrir mão de uma parte do
lucro dela pra poder incorporar essas soluções que a
metareciclagem dá ou traz? Ou ela não vai se apropriar
disso, capturar isso daí para, lógico, gerar lucro; eu
não conheço empresa que não queira lucro.
(Dalton) Dentro do que a gente
concebe como colaboração entra uma outra linha aqui.
Quando você pensa na dimensão econômica da
colaboração, esta dimensão se efetiva no
seguinte ponto: a colaboração se dá numa troca e
numa organização modular e elementar. Então,
por exemplo, quando eu produzo um pedaço de código eu
estou jogando granularidades na rede. Quando eu divido e
subdivido um trabalho, estou colocando modularidades à
disposição. Isso tem valor econômico mas não
financeiro porque eu estou contribuindo com a rede. O que tem
valor financeiro é o processo de integração das
modularidades. Chega uma empresa no site do metareciclagem, e fala
assim: “Pô esses caras têm um monte de idéia
legal!” Ela pega aquilo, integra de uma certa forma e chama aquilo
de um produto. E vende! E faz lucro! E eu não tô nem
aí pra isso! Isso é muito legal, no meu ponto de
vista. Ela conseguiu fazer uma leitura da elementaridade que está
dentro do wiki, e conseguiu dar um valor financeiro para aquela
elementariedade. Para mim beleza! Isso é o que fez o Debian
ser o que é, a Redhat ser o que é, a Suse ser o que é.
Eles integraram o software, as elementaridades do software numa
dimensão que deu uma cara financeira. Isso não abalou a
comunidade, isso não abalou a rede, isso fortaleceu a rede
porque, de uma certa forma esses caras deram subsídios pra que
a apropriação e a integração que a
empresa fez fosse o feedback, falando de concepção
sistêmica, no próprio sistema da rede. Então,
olha que coisa maluca, a gente coloca através da emergência
na rede uma corporação para colaborar com você. A
corporação se torna parte da rede.
Marcio Black
-Não é você que
está colocando a corporação para colaborar com
você. É ela que está se apropriando do seu
trabalho.
(Dalton) Não! É o
sistema da rede, ela não tem como se inserir neste sistema
se ela não for mais um nó!
IX. Xemeliza a MetaReciclagem aê!
Cara de óculos barbudo magro
braquelo em portunhol:
Eu sou um observador aqui e estou
achando na verdade que todas as coisas que vocês falam
extremamente interessantes, extremamente complexas, não? E tem
também uma coisa quase artistica, uma sensibilidade, uma coisa
muito graciosa, não? Mas também entra essa
complexidade, acho uma coisa muito difícil você
discutir, muito difícil entrar no discurso, no vosso
diálogo. Tem uma linguagem muito específica, eu acho
que é uma comunidade que é muito complexa, muito
excêntrica, uma coisa muito complicada para dedicar sua
vida não? Então, falando da teoria e da prática,
eu estou achando que tem uma prática muito sofisticada, mas na
teoria eu tenho uma pergunta que é muito simples mas acho que
não se falou ainda: eu não consegui entender no teu
discurso, como se faz, através dessas práticas muito
complexas, para inserir, quando se diz inserir na verdade dentro dos
problemas ou das saias da sociedade onde vocês se sentem
inconformados, sim? Eu acho que vocês poderiam criar uma
rede incrível, mundial e global de pessoas com conhecimentos
muito complexos que fazem reinvenção do que vocês
querem, mas onde está o elo que vai unir isso com uma
incidência real e necessária com as quais vocês
estão inconformados? As grandes corporações,
esse sistema global de neoliberalismo. Gostaria de entender isso
porque até agora não vi, mas pode ser que como o
discurso é muito técnico eu não... Assim, eu sou
sociólogo, então estou procurando esse elo que não
estou conseguindo perceber até agora. Para todos vocês
que estão neste meio... Eu gostaria de entender isso, porque
acho que também seria importante pra vocês, não
uma coisa de teoria mas é necessário pra uma prática
que esteja transcendendo, ou seja, além do discurso muito
complexo, muito fechado né?
(Dalton) A
idéia de falar a respeito de apropriação
tecnológica foi trazer um discurso pra gente debater. Um
discurso teórico pra gente debater em cima de práticas
daquilo que a gente chama de MetaReciclagem, de um projeto de
desconstrução e apropriação
tecnológica. Isso foram conceitos que a gente vem
elaborando, vem interpretando, vem tentando traduzir dentro das
teorias que a gente vem circulando por aí que como você
viu vão pra áreas das mais variadas. A prática
disso, dentro dos campos sociais, se dá na dimensão
onde você consegue identificar diversas localidades que
produzem cultura, que têm todo um trabalho seja musical,
visual, seja dançando, seja fazendo, seja cantando, seja
organizando. Este trabalho se dá numa dinâmica de
rede mas pontual, geograficamente falando. Quando a gente chega
com esse processo de apropriação tecnológica em
rede dentro de uma comunidade, a gente está criando um
mecanismo de difusão, de interação, que sai da
localidade e começa articular esses pontos em rede. É
isso que a gente vem fazendo, criando espaços de ocupação,
entrando nesses espaços e construindo-os junto com as pessoas,
dentro daquilo que elas já fazem sem interferir no fazer, mas
criando condições para que elas se apropriem de novas
tecnologias, seja reinterpretando, seja adaptando, seja reinventando.
Mas pensando esse processo de apropriação numa lógica
em rede, onde a imersão disso crie estruturas sociais,
mecanismos sociais, para que elas possam romper ciclos aos quais
estão inseridos historicamente. É esse processo que a
gente vem fazendo.
Academia, a idéia por trás, a teoria da prática e vice-versa
ACADEMIA, A IDÉIA POR TRÁS,
A TEORIA DA PRÁTICA E
VICE-VERSA
(Estudante da PUC) Eu
pessoalmente não consigo associar essa coisa de teoria e
prática. Por Exemplo: Se você pega um livro, é
teoria ou é prática? Livro não é
fruto de uma prática? Eu não consigo fazer essa
associação, mas aí cada um pode...
(Pajé) ... acho que o
mais importante é o que está por trás disso, que
é muito louco na história. Não é nem
tanto a prática, não é nem tanto você
aprender a mexer, não é nem tanto a linha de comando, é
a idéia por trás disso, ai a gente conecta com o
que a gente propôs aqui nesta mesa. Quer dizer: o cristianismo,
Jesus e os doze amigos dele lá, eles tinham uma grande idéia
para publicizar. O capitalismo é uma grande idéia,
clube de futebol é uma grande idéia, quer dizer: onde é
que está esse embasamento que não é material,
que não pode ser mexido e remexido, mas ele é trocado,
ele é intercambiado, ele é editado e reeditado, etc.
(Antonio Albuquerque) Eu acho
que o desenvolvimento da sociedade está muito marcado pela
questão da acumulação capitalista, do dinheiro.
Todo processo desenvolvimento tecnológico tem na questão
do capital, no processo da mais-valia de produção
capitalista, a essência. Quer dizer, a fronteira
tecnológica, o caminho, a trajetória tecnológica
está sendo determinada hoje pelos grandes grupos econômicos,
que detêm 70% do comércio internacional. O que estamos
pensando com a questão do software livre é fazer o
processo de contra-revolução, no sentido de
colocar a ética em primeiro lugar, dizendo o seguinte:
olha, a tecnologia que está se produzindo não está
atendendo e não está resolvendo os graves problemas
sociais do nosso povo. Muito da tecnologia que é produzida, da
ciência que é produzida nos países de terceiro
mundo tem muito pouco a ver, se aproveita muito pouco socialmente dos
seus resultados.
(Ruiz) Realmente. Como pode
rolar uma aproximação, por exemplo, da academia com
questões sociais ou então de, sei lá, políticas
públicas com questões sociais?
(Pajé) Isso talvez seja o
ponto mais importante. Onde entra a academia nesta história?
Há uma idéia como no Iluminismo, ou como A Indústria
Cultural, ou como... saca? Todos esses chavões e etc, são
idéias, o cara pegou e fez um trabalho de escrever um livro,
dois livros e isso passou a ser um idéia intercambiada por
todos ao mesmo tempo. E aí? Se a gente trabalhar com os
conceitos de distribuição e colaboração,
a gente está misturando de uma forma muito ambiciosa essa
relação entre prática e teoria. Essa separação
já é uma coisa que, na minha opinião, é
difícil de ser feita, mas se você pensar que o que está
por trás desta história é uma idéia muito
forte e de que é um aprendizado, uma cognição
muito forte ai eu acho que começa a ficar interessante.
(FF) Que idéia é
essa?
(Pajé) As idéias
são muito fortes por trás de uma coisa, se você
tem, por exemplo, a gente começou a falar de software livre.
Por que a gente começou a pensar “tive uma idéia, vou
dar uma mordida nesta maçã e passar aqui pra trás
em vez de comê-la inteira , se essa pessoa também pegar
a mesma idéia que eu assim vai e vai”. Quer dizer, eu estou
falando da importância que a idéia tem...
(FF) Como se explica essa idéia,
de colaboração, de conhecimento livre, o que é
essa idéia, o que passa por isso?
(Pajé) Então, eu
acho que isso é um dos pontos mais difíceis e espinhoso
para nós aqui. A gente meio que tem muita certeza do que a
gente faz, saca? Eu sei o que eu estou fazendo, eu sei que
isso que eu estou fazendo é bacana, eu sei que eu vou
conseguir atingir algumas outras pessoas. Mas eu não consegui
chegar numa conclusão com o Cris Scabello sobre mapeamento ou
não mapeamento, nem o conceito de mapeamento para ele é
o mesmo que pra mim, entendeu? Esse é o ponto mais espinhoso,
acho que eu gostaria muito de conhecer...
(CP) Pô, mas você
vai passar o resto da vida assim, eu garanto que depois do sessenta
você aprende que você não sabe mais porra nenhuma
mesmo, de verdade. Mas tudo bem, cara. Pra que que você precisa
desta resposta? Este é o problema da academia, precisa de
respostas, deixa rolar cara, manda ver...
(Pajé) Por isso que a
minha pergunta foi, o que a gente está fazendo aqui.
Então a gente nem precisava estar aqui, manda todo mundo ir
embora.
(CP) Tudo bem, mas é que
nós estamos enganchados em uma ratoeirazinha. Aliás,
eu acho que esta questão da academia passa muito por isso, de
estar presa dentro de uma ratoeira, de que tem que explicar as
coisas, tem que entender o que está acontecendo por um prisma
teórico. O que está acontecendo agora vai eventualmente
ser explicado, alguem vai ter a pachorra de escrever, de explicar
isso, de falar sobre, de fazer avaliação critica, etc.
Se a gente ficar muito preocupado com isso a gente pára de
fazer, eu acho que o que está acontecendo aqui é
efetivamente a apropriação de um momento, de uma
oportunidade extraordinária de avançar e foda-se se
está certo, se esta errado, se deveria ser assim ou assado. Eu
acho que tem uma coisa muita em cima disso.
(Dalton) Eu acho que, na
verdade, o que a gente está falando em termos de reapropriação
tem a ver com novas práticas e aí sim entra essa
história da teoria, novas práticas amparadas em uma
ética e novas práticas que vão interferir
em toda a minha relação com a sociedade, com aquele
grupo do qual eu faço parte, a minha colaboração,
a forma como eu colaboro, a forma como eu interfiro. E sem dúvida
nenhuma os limites do software já foram extrapolados e estão
sendo extrapolados cada vez mais em outras posições,
mas eu acho que interfere sim nas práticas do nosso dia a dia.
Quer dizer: como que eu me relaciono dentro da comunidade? Isso
resgata um espírito tribal.
(Thiago Novaes) Eu
queria primeiro retomar a pergunta do Pajé, sobre o que que
nós estamos fazendo, considerando que a gente está em
um momento que é esta passagem do digital, novas
possibilidades... Este momento, historicamente colocado, esta
passagem que o pessoal coloca aí como um atropelo da
prática, vindo e atropelando todo a questão do
pensamento. Queria colocar que tem que ter um pouco de cuidado ao
colocar nestes termos, especialmente dentro de uma Academia, dentro
da Unicamp, que é uma entidade em que as pessoas páram
para estudar, para pensar, que tem um papel fundamental dentro do que
a gente está fazendo, e que a prática em si muitas
vezes não resolve. É boa parte dos problemas que a
gente vai vivendo. A tomada de consciência sobre esse processo
é uma das propostas de a gente ter vindo aqui, estar reunido,
debatendo esses temas. Que o software livre é uma novidade,
que é uma coisa que está vindo com força, que é
legal fazer, eu acho que boa parte das pessoas aqui está
engajada nisso e já entendeu.
(Thiago Novaes)
O que está faltando é o que é
teoria... O que significa isso do ponto de vista prático
do comportamento? E do ponto de vista histórico até, em
que vivemos um momento super atropelado. A pergunta que a gente faz
enfim, lendo os textos que estão por aqui, é o quê
nós estamos ajudando a fazer em nós mesmos? Muitas
vezes a gente não pára pra pensar nisso justamente por
termos uma prática imposta e uma necessidade de se solidarizar
em vários movimentos. Tentar retomar o que talvez seja uma das
propostas desse debate que é a tomada de consciência
sobre esse processo, pra onde nós estamos indo, o que estamos
fazendo a respeito disso.
(Antônio Albuquerque) Eu
só queria completar o que o Thiago falou que não existe
devolução se a gente não tem a tomada da
consciência. É absolutamente necessário
porque senão a gente vai fazer idealizadores e seguidores,
seguidores que não têm também a consciência.
Cada seguidor tem que ser também um líder. Isso
mostra que a tomada de consciência é um fator
fundamental para o processo de revolução. E qual é
o processo de revolução? O processo de revolução
que a gente está querendo fazer é resgatar um pouco do
que existia antes da consolidação da era do grande
capitalismo no final do século XIX seguindo a revolução
industrial. O conhecimento é socialmente produzido. Que
conhecimento? Conhecimento que é muito mais apropriado para
resolver problemas locais do que certas soluções que
são feitas em grandes empresas nos Estados Unidos ou na
Europa.
Inversão da resistência?
INVERSÃO DA RESISTÊNCIA?
(Antonio Albuquerque) Os Estados
Unidos aparecem no cenário mundial a partir da segunda
revolução industrial e do processo de maturação
do processo do capitalismo. Para os Estados unidos é
canalizado todo o fluxo de capital do mundo. Esse processo de
capitalização de dinheiro dos Estados Unidos no século
XX se faz também com a grande apropriação do
conhecimento todo, se faz também com a propriedade
intelectual, com a lei de patentes, com a formação das
grandes empresas multinacionais, com seus ramos pela sociedade global
em outros países, capitalizando para os Estados Unidos
conhecimento e riqueza e dinheiro e bens de capital. O conhecimento
das partes é colocado na sociedade. O que nós estamos
querendo colocar é: qual é a resistência do
Brasil? Na verdade as grandes empresas é que vão
ter que resistir ao processo de restabelecimento de um processo
social de produção coletiva de conhecimento, que já
existia antes da formação do capitalismo. Esta é
a questão, a resistência é deles e não
nossa, o que nós estamos fazendo na verdade é
caminhar no processo do capital, é o processo mais fácil,
é o processo de colaboração, é resgatar
esse processo, que é o processo natural. Eles que vão
ter que resistir para manter esse processo, que é antiético,
que faz com que a população seja cada vez mais pobre,
três quintos da população mundial hoje já
vive na faixa de miséria, o globo terrestre não suporta
esse modelo, está destruindo as águas, destruindo as
florestas, destruindo o ar. É um modelo insustentável!
E o que está acontecendo? Com o software livre e com o
processo que vai além do software livre, essa tomada de
consciência resgata uma produção social e
coletiva do conhecimento que está espalhado por todas as
partes, por todos os pólos do mundo.
(FF) Os que existe de
revolucionário no software livre acontece de maneira
descentralizada. Quer dizer, não são pessoas que têm
o objetivo de fazer o melhor browser do mundo, o melhor software do
mundo, são pessoas resolvendo seus problemas locais, o
próprio objetivo da evolução do software livre é
um bando de pessoas que quer resolver pequenos problemas e isso de
uma maneira emergente acaba criando um contexto que é
revolucionário. É uma outra maneira, uma maneira
emergente de enfrentar as coisas que várias pessoas têm
em comum.
CHICO
(Chico) Eu
quero discordar de tudo o que o Pajé falou, porque o
Pajé tá insistindo em um lance que tem uma idéia
por trás, o que está por trás? Ele está
obcecado no que está por trás das coisas. Eu acho que a
gente vive justamente um momento que as idéias não
estão dando conta das coisas que estão acontecendo.
Outro dia eu estava conversando com o Rhatto, e ele estava falando
que na faculdade de meteorologia tem um cluster com sessenta
processadores e que não existe ninguém que consegue
programar pra esses computadores. O pessoal está ainda
tentando conseguir desenvolver programas pra esse cluster que
consigam explorar toda a potencialidade desse objeto técnico,
dessa configuração que os caras criaram. Então,
tem uma aceleração do desenvolvimento técnico
que é a aceleração da aceleração e
a gente está tentando entender e nem sempre tem uma idéia
que está por trás que consegue determinar pra quê
aquele objeto técnico vai servir, como ele vai ser utilizado,
quais vão ser as conseqüências, os desdobramentos
da inserção desse objeto técnico nas redes
sociais e tal. Eu gostaria de chamar a atenção pra
isso.
(Chico) Acho que eu consigo
responder a primeira questão do Pajé que ele, num tom
provocativo, falou: “Ah, e aí? Vocês estão
usando ai o processador Pentium e não sei o quê, e aí
como é que fica? E o software livre? Pra que que serve então?”
Que eu acho um discurso fácil e muito simples de tentar
esgotar as possibilidades criativas do software livre ou de qualquer
forma de resistência porque o fundamento do argumento do Pajé
é o fundamento da negação entendeu? Você
não está negando o Pentium usando software livre, então
você não está combatendo o Pentium.
(Chico) Eu quero discordar
também do Antônio, que estava com um referencial
marxista, querendo colocar o determinismo econômico. Mas não
basta a gente mudar os proprietários dos meios de produção
pra gente mudar a estrutura de produção. O caso da
União Soviética estava aí, esteve aí, pra
nos mostrar isso. Mudaram-se os patrões, as pessoas
continuaram trabalhando da mesma maneira e não mudou nada,
continuou tendo produção de mais-valia, as pessoas eram
exploradas e continuou a mesma coisa, e depois o negócio
acabou. A minha viagem é assim: o tipo de resistência.
E quando o Dalton fala: “ah se uma empresa pegar eu acho que eu não
tô nem ai, eu vou achar legal, se o Debian conseguiu se
estabelecer porque o pessoal foi usando” é mais uma
estratégia de contaminação, o pessoal
começa utilizar o software livre, começa utilizar o
Debian, a o camarada colocou: “É, mas aí está
se apropriando do seu trabalho!” Entendeu? Mas não, ele está
usando o Debian e daqui a pouco vai ter um mais monte de gente usando
o Debian e vai abrir espaço pra mais pessoas conhecerem e
utilizarem um software que é produzido dentro de uma outra
ecologia de produção de conhecimento, dentro de uma
outra ética, como algumas pessoas falaram. Então eu
quero citar aqui o acadêmico Bodinho,
porque a partir de suas leituras de Deleuze e Guattari ele me ensinou
uma outra maneira de utilizar o conceito de resistência. A
resistência, segundo Guatarri seria a negação,
então eu vou resistir. A resistência baseada na
negação está fundada em um paradigma da física
mecânica, da ação e reação. E o
outro tipo de resistência que ele propõe é a
re-existência que é a construção de
novos espaços de existência. Então, não
é que eu sou contra as coisas, que eu quero destruir o Pentium
e tal, não, eu quero construir novos espaços de
existência porque não dá simplesmente pra gente
fazer revolução e derrubar as coisa e tal, porque a
lógica é outra e o barato é outro.
(Chico)
A gente está falando de física quântica
mas pensando: existe uma empresa, existe o trabalhador, existe o
indivíduo, enfim, cada um é vários, não
existe um eu. E a gente tem que quebrar com essas coisas também
da maneira como a gente pensa e aí tem essa coisas da teoria e
da prática que a gente também tem que mudar como pensa.
Não adianta ver o novo, que são essas coisas que
estão acontecendo, com as categorias do velho, pensar o
novo a partir do velho que você não vai entender,
entendeu?
(Bodinho) Falaram da academia em
vários momentos e sempre se tem a imagem que a academia, essa
visão do cara sisudo, do cara com vários livros, com
roupas escuras e dialogando com o estabelecido. O Jubinha é um
acadêmico. Olha pro Jubinha, olha o perfil do Jubinha, ele faz
um novo uso da academia. E a academia como um espaço publico,
garantido pelo estado, possibilita uma produção
intelectual livre, e existem pessoas aqui dentro que conseguem talvez
traçar umas linhas mais marginais, umas linhas mais criativas,
que não passam por esse sistema quadrado e fechado. São
pessoas que tentam relançar, intervir de alguma maneira. O
Canário falou que a gente é acadêmico, a gente
aqui até faz uma brincadeira neste sentido que começou
no cineclube de exibição e foi virando várias
outras coisas, ou seja, eram os acadêmicos fazendo um
cineclube. Então, enquanto espaço público,
garantido pelo estado com uma relativa tecnologia, com um relativo
acesso à tecnologia, na academia cabe à gente achar
professores que orientem teses mais alternativas, o C. está
ai, eu também estou fazendo. O Novaes citou um texto que
estamos ajudando a fazer nós mesmos que é do professor
Luis Orlando? Aqui do Ifich. Ou seja a possibilidade, a “peneira”,
aqui tem buracos muito largos e aqui é um lugar onde a gente
pode emplacar uma coisa que a gente diz muito que é 171, dá
pra você fazer vários 171, uma gambiarra acadêmica.
Então talvez este seja o depoimento de um acadêmico, e
existem acadêmicos que não são uns sisudos,
não são uns chatos como esses acadêmicos que
estão desfrutando das benesses do Estado.
Novos paradigmas, colaboração, software livre
NOVOS PARADIGMAS, COLABORAÇÃO, SOFTWARE LIVRE
(Dalton) Quando a gente fala
desta questão da academia, quando a gente fala desta questão
das certezas, eu quero remeter a um momento da história da
ciência, mais ou menos no início do século
passado, quando brotou aquilo que a gente hoje chama de física
quântica. Se a gente pegar a fala de Niels Bohr, de Heisenberg,
Planck e por aí vai, esses caras tinham embates dentro de
laboratórios que duravam semanas. Eles chegavam a surtos
muito semelhantes aos quais nós chegamos em oficinas e
processos. Einstein dizia assim: “Perdemos o chão. Estamos
caminhando sobre o completo desconhecido”. Porque aquilo que
brotava no cenário para eles era completamente
desestruturante, com base naquilo que eles conheciam como o seu
arcabouço conceitual anterior, que era física
Newtoniana e o cartesianismo. Aí, de repente surge todo um
padrão comportamental da matéria dual, aí fudeu;
ora o eletron é matéria, ora o eletron é luz, é
onda, como é que isso pode acontecer? E o que é pior,
se você faz uma pergunta para um elétron do ponto de
vista óptico, ele te responde do ponto de vista óptico;
se você faz uma pergunta pro elétron do ponto de vista
da matéria, ele te responde como matéria. Então,
os caras tiveram que aprender uma coisa em 1920 com a qual eles têm
que conviver até hoje, que é conviver com a incerteza.
Então a gente parte de um momento em que as redes começam
a emergir... tá lá o Barabási quando escreveu
Linked, traçando esse perfil das redes emergentes em tudo, e a
gente começa a perceber que essas redes emergentes trazem
como conseqüência do processo de interconexão das
pessoas novas práticas. Essas novas práticas
começam a puxar atitudes ousadas de grupos que conseguem
assimilar esses conceitos no seu cotidiano mais facilmente, e aí
a gente se depara com esse ponto chave a que nós estamos
chegando hoje. São novos comportamentos sim, mas eu vou
além... são novos comportamentos porque vêm de
novas formas de relacionamento, vêm de novas formas que
estruturam o relacionamento e é isso que é importante
trazer para o dia-dia.
(Cláudio Prado) Quando a
Física Quântica começa a ser pensada, a
instituição acadêmica da época, os
físicos, presidentes das associações, o povo
sentado em cima das cátedras dizia: “Você não
precisa mais estudar física, a física já
praticamente resolveu o problema de todo mundo, tá tudo
pronto, faltam algumas leizinhas ai e a gente vai matar a charada da
humanidade”. Essa era a postura da academia. Física
quântica, até hoje professor de escola não tem
idéia do que seja. Ele ensina que o caminho mais curto
entre dois pontos é uma reta como fato absoluto e isso ai é
um absurdo, na verdade precisava começar a ensinar para as
crianças as abstrações e depois ensinar as
linearidades. Você precisa primeiro aprender que a terra é
chata para depois, na pós-graduação, aprender
que ela é redonda... é uma coisa meia maluca isso.
(Dalton) Você constrói
um conjunto de metáforas completamente caducas pra
pensar a sua vida. É um processo em que você está
construindo a sua relação com o mundo e você tem
essa relação baseada no cartesianismo, depois você,
se por acaso chegar a estudar alguma coisa que vai para o mundo das
exatas, vai perceber que o tempo não é linear, vai
perceber que o espaço é curvo e você começa
a perceber um monte de coisas ...