Caderno Submidiático #6 - Ciclo Gambiarra

O Ciclo Gambiarra é uma tentativa de aprofundar os conceitos de apropriação tecnológica, MetaReciclagem e assuntos relacionados nas nossas práticas cotidianas. Consiste em uma série de ações coordenadas, aí incluídos os diálogos na Casinha, debates realizados em São Paulo, documentados em áudio e vídeo e transmitidos ao vivo por stream.

Diálogos na Casinha - Marcus Bastos - 05/06/2007

Conversa com Marcus Bastos em 05/06/07.

Proposta original

A cultura digital torna-se cada vez mais complexa, conforme os dispositivos de conexão se diversificam. Aparelhos portáteis como celulares e GPS adicionam uma nova camada à Web, em processo que modifica a agenda de debates sobre os fazeres em rede. Neste contexto, é preciso contrapor o avanço das possibilidades de publicação de conteúdo sem intermediários (no que se convencionou chamar de Web 2.0) aos novos tipos de vigilância possíveis em aparelhos amigáveis que se tranformam facilmente em objeto de desejo de um grande número de consumidores. Além disso, em parte as formas de conexão atuais acontecem em aparelhos proprietários, que redesenham o jogo de protocolos e embaralham a distinção entre produção de contéudo e circulação de informação. Ao mesmo tempo em que videoblogues e sites como YouTube e MySpace tornam a publicação de vídeo cada vez mais simples, deslocando para o contexto do audiovisual debates antes localizados no relacionamento tenso entre a indústria fonográfica e os desenvolvedores de software para distribuição de mp3, os procedimentos de publicação online se modificam, tornando-se menos abertos, e a cultura do software livre amadurece, resultando em trabalhos de qualidade, como "The Duellists", de David Levine e "Net Monster", de Graham Harwood.

Aqui

Log do IRC em anexo, áudio quase completo publicado no Estúdio Livre

Casinha
Marcus Bastos
Daniela Castro
Milena Szafir
Maria_lu
Fernando
Jeff
Bianca Santana
Leo Germani
Liquuid
Vitão
Habib
Tiago Gualberto
Purê
Uirá
Fernão
Ariane

IRC
analyser
avena
andreasaraiva
cabelotaina
[celia]
dpadua
felipe_santos
fff
glerm
ruiz
t2ia
vqregati

Diálogos na Casinha - Novaes - 11/05/2007

Conversa com Thiago Novaes sobre Simondon, rádio livre e um monte de outros assuntos, com grande participação por IRC e a massa de 13 ouvintes simultâneos do stream.

Áudio na íntegra publicado em três partes no Estudio Livre:
* Primeira parte
* Segunda parte
* Terceira parte

Em anexo, logs do irc.

A conversa partiu da proposta de Thiago Novaes, de traduzir e trazer a público as idéias de Gilbert de Simondon. Ele publicou em seu blog em 17/04/2007 o texto abaixo:

SIMONDON, Gilbert

Nascido em Saint-Etienne em 1924, faleceu em 1989. Professor nas universidades de Poitiers e depois em Paris, filósofo do século XX, considerado importante muito antes por Gilles Deleuze, permaneceu por muito tempo desconhecido. Adquire hoje uma importância crescente. Os conceitos principais que expõe em sua tese de doutorado são individuação e transdução. Digno herdeiro de Jacques Lafitte que preconizava em 1932 o desenvolvimento de uma ciência das máquinas, a mecanologia.
http://fr.wikipedia.org/wiki/Gilbert_Simondon

A atualidade de Simondon reside nas novas problemáticas que apontam sua filosofia hoje para novas direções, além de rearticular a relação entre humanos e técnica, entre seres viventes e não viventes.
http://pascalnouvel.net/actualite-de-gilbert-simondon

Simondon escreveu artigos em cadernos de pedagogia e psicologia, e junto a sua obra Do Modo de Existência dos Objetos Técnicos, contribui para o estudo da técnica e de novos processos sociais de ensino e aprendizagem de cultura técnica.

No Brasil, experiências como metareciclagem* e mimoSa** sugerem a compreensão de processos pedagógicos de ensino técnico-estético, reaproximando a técnica da cultura, exemplos singulares de uma nova cultura técnica.

“Podemos comparar a invenção do objeto técnico qualificado eventualmente de engenhosa, astuciosa, chamado corriqueiramente de “descoberta” com aquele objeto estético que será qualificado de criação. A obra artística será criação posto que ela admite culturalmente que o gênio criador transcenda a realidade onde não descobre uma realidade potencialmente existente, ela necessita de um criador particular “o artista”, insubstituível por natureza; de outro lado a obra técnica não será sena descoberta qualificada eventualmente de engenhosa, astuciosa, mas será uma descoberta, quer dizer, poderia aparecer mais dia menos dia. O problema aqui colocado, trata-se de um desequilíbrio injusto contra a técnica e a estética que não encontra nenhum fundamento rigoroso, a cultura está na causa pois é ela que está inscrita a apresentar todos os objetos do nosso meio.”

Trechos do diálogo

Transcrição (em processo)

Primeira parte

(disponível no Estúdio Livre

INTRODUÇÃO, lida por Alê.

9S:

Introdução ao Simondon. Primeiro momento. Simondon ainda vai ser mais estudado pra frente. Não tem muita tradução. Vai ser muito discutido ainda.

Traduzindo na lata.

Tem muito a ver com a MetaReciclagem, laptop de 100 dólares.

Questão ecológica, de lixo.

Mais tarde, se der tempo: Rádio analógico faz 100 anos; falar sobre a evolução das práticas e da legislação do rádio e pensar nesse momento atual, da digitalização.

SIMONDON

(Tradução direta do original)

Sobre o modo de existência dos objetos técnicos (introdução)

Esse estudo é animado pela intenção de suscitar uma tomada de consciência sobre o sentido dos objetos técnicos. A cultura é constituída como um sistema de defesa contra as técnicas. Ora, essa defesa se apresenta como uma defesa do homem, supondo que os objetos técnicos não contêm nenhuma realidade humana. Nós gostaríamos de mostrar que a cultura ignora na realidade técnica uma realidade humana e que, para ter o seu papel completo, a cultura deve incorporar os seres técnicos sob a forma de conhecimento, de sentido e de valores. A tomada de consciência dos modos de existência dos objetos técnicos deve ser efetuada por um pensamento filosófico, diz Simondon, que tem a preencher com essa obra um dever análogo àquele que teve a filosofia para a abolição da escravidão e a afirmação do valor da pessoa humana. A oposição endereçada entre a técnica e a cultura, entre o homem e a máquina, é falsa e sem fundamento. Ela não recobre senão ignorancia ou ressentimento. Ela mascara, por detrás de fácil humanismo, uma realidade rica em esforços humanos e em forças naturais, que constitui o mundo dos objetos técnicos, mediadores entre a natureza e o homem. A cultura se conduz para com o objeto técnico, como um homem no exterior, quando se deixa afetar pela xenofobia primitiva. O misXXXX orientado contra as máquinas não é tanto ódio ao novo, que recusa a realidade estrangeira. Ora, esse estrangeiro é ainda humano e a cultura completa é aquela que permite descobrir o estrangeiro enquanto humano. Da mesma forma, a máquina é um estrangeiro. É entrangeira naquilo que ela encerra de humano: desconhecido, materializado, subserviente, mas restando contudo do humano. A mais forte causa de alienação com relação ao mundo contemporâneo reside nesse desconhecimento da máquina, que não é uma alienação causada pela máquina, mas por um não conhecimento de sua natureza e de sua essência, pela ausência absoluta do mundo das significações (da máquina) e por sua omissão no quadro de valores e dos conceitos que fazem parte da cultura. A cultura está desequilibrada porque ela reconhece certos objetos como objeto estético, e dá a ele o direito de cidadania no mundo das significações; enquanto ela rejeita outros objetos, em particular os objetos técnicos, no mundo de sua estrutura, em que não possuem nenhuma significação, somente um uso, uma função útil. Diante dessa recusa defensiva pronunciada por uma cultura parcial, os homens que conhecem os objetos técnicos e sentem sua significação procuram justificar seu julgamento dando ao objeto técnico um único status atualmente valorizado fora daquele do objeto estético, ou seja, de objeto sagrado. Então, nasce um tecnicismo...

9S: vou parar pra dar uma pegada disso, que é a introdução.

Ele tá tratando de uma visão que seria adversária à da tecnofobia, que coloca [o objeto técnico] como alguém de fora, que é até romantica. Ele está encarando os objetos técnicos como parte da cultura, como parte do humano, e nesse sentido eu quero chegar no lixo mesmo, que é de onde vem um pouco a idéia de reciclagem. Pra pensar aquilo que o mbraz colocou da gambiarra que parte muito da matéria do lixo. Muitas vezes falar de reciclagem é como se estivesse tratando do problema do lixo, pegando o lixo e reintroduzindo ele no sistema. Quando na verdade é justamente o contrário: o ato de reciclagem é de retomar o humano e com a possibilidade da reciclagem colocar esse humano fora do ssistema, não dentro. A reciclagem não é um processo de reinserção, de reutilização. Avançando já no Simondon, reciclagem é resgatar o humano que está presente em todo esse lixo tecnológico colocado aí, que não é lixo. Porque na verdade é isso que se faz. O humano joga fora tudo que ele tem, ele não fica com nada. Não só no sentido consumista. Com o quê ele fica? Ele joga fora as relações humanas, joga fora... então tudo isso é o lixo. E reciclar é pegar tudo isso que o humano joga fora e voltar. E tem a via material e a via imaterial. Tentando trazer aqui pra pensar como está associada essa idéia de lixo a uma não-humanidade, mas é aquilo que a gente tira da gente o tempo todo. Coisas humanas, relações humanas, dignidade humana.

ALE: a intro fala de uma diferenciação de objeto estético e objeto técnico.

9S: ele tenta bater essa distinção.

ALE: porque o objeto estético já é assumido como uma coisa humana que entra na cultura sem essa resistência, a xenofobia que o objeto técnico tem. E os técnicos, pessoas que entendem o significado do objeto técnico, acabam criando uma divindade em torno desse objeto técnico pra que aí ele tenha esse valor estético e seja aceito na cultura...

9S: aí que tá. A distinção entre objeto estético e objeto técnico é clara. Na verdade, ele não é estético. Se ele fosse estético, aí sim teria sentido. Colocar que o set-top box da TV digital pode ser um objeto estético, quer dizer, um objeto estético embaixo da televisão, ou do lado. O que se coloca é que ele na verdade não é um objeto estético, ele não tem nada além da sua utilidade, que é uma caixinha preta feita pra decodificar o sinal; que não tem nada senão utilidade. O que ele fala: que ele tem utilidade, e aí ver a história do Simondon que vai pensar todo o processo de abstração... Vou usar o exemplo da caixa preta da TV digital porque a gente tá agora vivendo esse processo. A caixa preta TV digital está sendo fechada, todo o processo de individuação, quer dizer, de tornar o fechamento das funções, a questão estética, tá acontcenceo agora. Só que a população não sabe nada a respeito, ela vai tratar isso como objeto sagrado, perpetuar a relação.

ALE: você diria que a TV em si é um objeto estético já na nossa cultura?

9S: não, justamente ela não é.

ALE: só a tv, não o set-top box.

9S: Mas aí cê tá falando de automatismo e eu tô tentando puxar dispositivos. O automatismo pressupõe isso, que a máquina vai funcionar... A mídia por exemplo, entender a mídia como dispostivo e não como automatismo é você entender que pode utilizar o rádio e a TV pra fazer outras coisas que não projetar os seus conteúdos pra disputar hegemonia de identidades, sei lá, o que quer que seja. É um pouco isso, que pro Simondon não é acaso, é a tal da margem de indeterminação.

... Vai ficar hiperlinks e a gente vai puxando

ALE: é diálogo, isso aí

9S: pra pensar também paralelo entre simondon e software livre... interessante também nessa relação da evolução do objeto técnico. Vale fazer o histórico, a parte do texto que publicamos na lista do meta, que fala da idéia do progresso ténico. Enquanto o artesão tinha lá o objeto, pegava a ferramenta - distinção entre ferramenta e instrumento também é importante, também uma pergunta que rolou quando o stalker tava aqui. A distinção do Simondon: ferramenta é extensão do gesto. Como um martelo, XXX que tá incorporada no gesto. A evolução é acompanhada de um melhoramento do gesto. Você sente que está mais eficiente quando a ferramenta está melhor. O progresso é sentido no corpo. O instrumento tira do gesto, tira do corpo, essa percepção sobre o progresso. Instrumentos, como o microscópio, TV, ninguém sabe como funciona. Eles mudam a percepção. Expandem a percepção. Por isso é parte do humano, porque muda os próprios sentidos, a sensibilidade. Simondon escreveu muito sobre sensibilidade também.

((vou continuar a transcrição nas próximas semanas e vou publicando aqui))

Links sobre Gilbert de Simondon

Selecionados por Thiago Novaes

[fr] http://web.media.mit.edu/~cati/papers/Vaucelle_OnSimondon99.pdf

[es] multitudes e princípio de individuação, Paolo Virno
http://multitudes.samizdat.net/Multitud-y-principio-de.html

[uk] apresentação de simondon
http://www.answers.com/topic/gilbert-simondon

[uk] comentários de blog sobre individuação em simondon
http://larval-subjects.blogspot.com/2006/07/simondon-and-individuation.html

[fr] introdução de meot
http://philia.online.fr/txt/simd_001.php

[fr] biografia - introdução ao meot e à individuação
http://www.admiroutes.asso.fr/larevue/2000/2/simondon.htm

[fr] artigo sobre a contribuição de simondon ao estudo da técnica
http://commposite.uqam.ca/2000.1/articles/gladu.htm

[fr] politicas de individuação, pensar com simondon
http://multitudes.samizdat.net/-Majeure-Politiques-de-l-.html

[pt] intersecções entre ambiente e realidade técnica
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-753X2001000800006&script=sci_arttext

vídeos de referência:

*metareciclagem no encontro de conhecimentos livres do piuaih
http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=1312

**mimoSa around the world
http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=2846

seo paraíba
http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=2412

manual do gato 2
http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=3239

vídeo de ataque: xiado
http://darksnow.radiolivre.org/ataque_comunicacao.ogg

ocupação anatel sp
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/05/254255.shtml

para assistir use vlc:
http://www.videolan.org/vlc

Diálogos na Casinha - Stalker - 12/04/2007

Arquivo de áudio (formato OGG) aqui.

- numa semiótica pouco antropocêntrica - mente difundida na realidade - máquinas têm uma mente própria - propósito dos equipamentos - disponíveis pra apropriações imprevisíveis - acaso da apropriação que vem da autonomia que a gente não dá muito pros objetos. isso deixou de ser estranho pras humanidades, principalmente depois da onda pop do pierre levy. mas ele é deslumbrado. como se pensa complementarmente com os equipamentos que a gente usa. não se assiste mais a uma aula sem uma caneta. eu não consigo ler um livro sem um lápis sem anotar nas bordas, sem balizar a minha leitura. não leio o livro dos outros por isso, acabo xerocando. manuscrito - máquina - processador de texto, difícil voltar a escrever linearmente.

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Temos que pensar de maneira ativa o desenvolvimento dessas tralhas. elas envolvem práticas políticas o tempo todo.

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Primeiras referências ao termo "máquina" no teatro grego: dispositivo cenográfico que fazia coisas "impossíveis" de trazer pra percepção coletiva. deusas voando, guindastes, cintos. outro conceito de máquina que aparece, no liceu de aristóteles - um cara introduz a "máquina". um arranjo que se faz para que aquilo que demoraria muito tempo pra ser visto ou percebido ou se tornar compreensível seja acelerado por determinado arranjo técnico e social.

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Máquina tem primeiro a maneira de encenar alguma coisa, depois a maneira de fazer com que a natureza se manifeste. Em terceiro tem a máquina de guerra, que envolve ao mesmo tempo a ampliação de força e ocultação da própria intencionalidade.

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Máquinas muito mais do que simples instrumentos pra se chegar a um objetivo pré-determinado. têm um papel de fazer transformar forças físicas presentes (máquinas simples - alavancas, roldanas, polias); forma de controle - máquinas cibernéticas, caixa de descarga que quando enche a bóia fecha. mecanismo de retorno. máquinas têm função heurística - um livro é uma máquina de juntar uma série de signos para facilitar o acesso à informação, o transporte dela. Mântica, jogo de búzios, tarô, livro das mutações - máquinas no sentido de servirem como heurística - acelerar a inteligência, a forma de pensar. Linguagem são pensáveis como máquinas.

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Na cultura grega, a techné é um negócio meio desprezível. arquimedes foi morto defendendo seus projetos de máquinas de guerra. grande inventor de máquinas de guerra, grande observador da natureza. banheira - heurística (heurística vs. eureka) - manhas para descobrir as coisas. na real, ele queria proteger a si próprio, para que os cidadãos não vissem que ele fazia isso. sociedade escravista - coisas para diminuir o trabalho e esforço não eram tão importantes.

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Revolução industrial é divisor de águas. engraçado ver as pessoas falando que as máquinas vão dominar a sociedade, tomar cuidado. isso aconteceu já no século XVII. se transferiram as atividades - não-humanas. bruno latour toma a sociedade não como somente humana, mas mista - as máquinas têm humanidade e são parte da sociedade, assim como as outras espécies. se não houvessem os levedos, a gente não se embriagava.

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Peirce - conceito do alumínio - "elemento tal na tabela" - não esgota o assunto. onde encontra o minério, como purifica, separa. o caráter procedimental tá incluído no conceito do alumínio. quando a gente fala em cultura digital não se fala só por exemplo no streaming que dá pra escutar no brasil inteiro, mas também de um modo de relação de gestão em rede, lista, opiniões, decisões, que é derivada de uma vivência, de um suporte de comunicação que tem características que abrem essas possibilidades. processos deliberativos por consenso, organização horizontal, auto-sustentabilidade, não são traduções da idéia do digital, telemática, rede, mas outras manifestações desse conceito. "máquina" envolve inovação social - funções sociais transferidas pras máquinas - se vê muitas vezes como acumulação capitalista ou aumento do controle do estado sobre o cidadão. programas que pré-existem, subjacentes ao desenvolvimento das máquinas. e outras máquinas sendo produzidas como anti-programas em relação ao lucro e controle.

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Transformar essa política de colaboração e doação em algo quantificável. pra aquelx que rala pra caramba se aliviar emocionalmente e se sentir menos isolado, e ter crédito pra contar com as pessoas. quantificáveis.

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[Marcelo Braz] Gambiarra. Oficina tecnologias do cotidiano. Máquina, tecnologia, técnica, ferramenta. Computador tem múltiplas funções.

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[Stalker] a Gambiarra seria o estado da máquina antes de ela ter se estabilizado, quando as peças ainda estão meio frouxas.

[Marcelo Braz] - não consigo definir máquina separado de ferramenta.

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[Stalker] "inteligência artificial" é um termo redundante. inteligência é artificial. a gente pensa por artifício. essa coisa humana de usar algo no lugar de algo deliberadamente, de tomar um ente do real como estando num lugar, representando ou manifestando algo que não é ele, de maneira consciente por algum motivo que é seu, é totalmente artificial. a humanidade é um artifício dela própria. hominização - parar de resolver na pancada, passar a negociar, resolver problemas físicos com outros objetos.

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[Marcelo Braz] a técnica criou o homem ou o homem criou a técnica?

[Stalker] ou os dois estão se criando o tempo todo e não faz sentido separar um do outro? peirce tem um exemplo legal: se eu sei ler e me tiram a parte do cérebro que permite ler, eu não consigo ler, meu pensamento está afetado por isso. mas se eu não tiver minha caneta-tinteiro pra fazer minhas anotações, não consigo pensar, e o efeito é o mesmo de tirar um pedaço do cérebro. a gente pensa com o corpo próprio e alheio, com os objetos que usamos, a ponto de ter muito questionável essa idéia cartesiana de objeto externo - não existem objetos externos. nós somos objetos e sujeitos o tempo todo, tá nesse trânsito.

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"Pra conseguir dinheiro tem que enfrentar a máquina burocrática do marketing cultural" - pensando em um conjunto de entes que estão integrados, encaixados, tratados na pluralidade como um só, um bloco. dá pra pensar em "o computador" ou "a internet", sabendo que um computador não é um ente, ele é montado com zilhões de coisas, que são montadas com outros zilhões. essa idéia de que o pensamento não é humano, mas está fundido no real. o limite não está nos fenômenos vivos, a regularidade do mundo físico é uma forma de quase mente.

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Romper com a funcionalidade das funções sociais - por exemplo, o aniversário serve para as pessoas terem apego à própria vida, laços etc. práticas sociais e estendendo, as máquinas existem para ter uma funcionalidade. visão positivista de achar que existem essas funções antes e as pessoas quebram a cabeça para gerar instituições, práticas sociais e máquinas para cumprir esas funções. não: as próprias instituições emergem de maneira indefinida, criam nas práticas sociais um campo de funcionalidade que é peculiar a elas, e algumas relações entre as pessoas, com o mundo, vão se apoiando nessas instituições, práticas, relações sociais, e se estabilizam ou não.

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Importância da metareciclagem, bricolagem. gambiarra: estão no limiar de inventar novos dispositivos de mediação e construção de relação que vão gerar transformações sociais que interessam pra nós, e não simplesmente atender funcionalidades externas como gerar lucro ou o poder de controle sobre os governados. aí o que a gente está fazendo é uma ação de política radical - criar máquinas e ferramentas para forçar a sociedade, as relações entre nós e com o mundo natural - embora essa separação já não faça algum sentido - transformar essa relação que a gente tem em outra - gerar espaços novos de relação em que a gente possa ter outra subjetividade - pseudônimos de internet mostram isso.

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Trabalhar mais nesse sentido - gerar novas instituições através das máquinas. quando você age de maneira explicitamente proposital de interferir nos processos, ir contra, resistir, estabelece uma funcionalidade pré-concebida em relação a sua ação, isso gera muita resistência. basta a microsoft lançar uma modificação no sistema operacional pra galera das listas, do "movimento cyberpunk brasileiro", descerem o cacete completamente. e com razão. mas seria muito diferente se aparecesse sem muito motivo, de um lugar desconhecido, uma rotina que fizesse tal coisa que começa a ser apropriada de maneiras muito diferentes por pessoas diferentes como o próprio computador, um projeto de garagem que ninguém sabia direito pra que servia, e isso foi gerando a própria funcionalidade, a própria lógica, as próprias relações sociais peculiares. isso é de uma astúcia sem par. em vez de agir para produzir um resultado, age no sentido de criar espaço onde outros agentes tomem aquele espaço como digno de ser usado pra produzir resultados que elas queiram. wu-wei, agir vazio, central nas artes marciais, taoísmo, zen-budismo. wiki, lista de discussão, não são criadas com uma pré-definição de conteúdo. abrem espaços vazios. isso que interessa pra gente em termos de ação política. romper com a ação deliberada, com finalidades pré-determinadas, pré-concebidas. o "pelego". pt é exemplo - tinha um partido político institucional, com o objetivo de tomar o poder, e é capturado pela lógica de poder da república, pseudo-república, e aí moldado - o mais vazio, o que é tomado, é quem toma.

[[conversa entre braz e o amigo dele, muito baixo]]

Força presente em força presente - máquina simples. força passada em força presente - máquina cibernética. força futura em força presente - máquina heurística. tem operações de compactação, dobramento, deslocamento do tempo. no mundo real nenhuma é separada da outra - um porrete, máquina simples, se torna em máquina heurística, vara de marmelo pra bater em criança vira máquina de feedback. macacos, humanos, amebas, são vivos. não são máquinas. absoluta imprevisiblidade e abertura. mesmo máquinas heurísticas precisam estar encaixadas. vida não se explica. essa inexplicabilidade tem que trazer à mesa. pra quê eu vim ao mundo? pra ser a felicidade da mamãe, depois pra salvar a humanidade, pra resolver o sofrimento da humanidade, pra ganhar dinheiro. o problema é a gente sempre pensar que precisa ter um "para quê". nenhum de nós tolera isso completamente.

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A lógica da bricolagem não é funcional. não tem um projeto prévio. tem um monte de funções possíveis. tem o material lá e vai combinando aquilo. encaixa, desencaixa, conecta, desconecta, vê o que funciona, no que resulta, se resulta, até que ponto. a lógica do bricolador é a lógica da pesquisa científica mais especulativa, você não sabe pra onde vai, sabe que tá indo. é a lógica da vida, o que é o criativo. a dimensão última do mundo não pode ser a função. tem que ser um não sei o que é isso, meio que um mistério insondável.

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[Lucio, no chat] qual a melhor experiência mediática do stalker

[Stalker] O cibersalão de BH - nem vi o que foi discutido, mas encheu de gente, calor infernal, foi estrimado. Vi que dá pra fazer um tipo de atividade pública que não vai ser uma difusão massiva, que as pessoas do outro lado do fio tão fazendo isso que o pessoal do chat tá fazendo. Perguntar consistentemente as coisas. Não é "gostei ou não gostei". As outras experiências mediáticas são muito íntimas e vou contar não.

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Glerm é totalmente bricolador.

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Metáfora é um troço que acha uma semelhança entre coisas que estão distantes. Não que essa semelhança esteja nas coisas, mas a gente é que implicitamente bola uma perspectiva, e aí que tá o valor da metáfora, de projetar essa perspectiva muito sutilmente e implicitamente criando essa conexão. Coisas distantes que se superpõem e se tornam análogas. O barato não é a analogia ou a distância, essas coisas são produzidas por maneiras de pensar que são estabilizadas socialmente, historicamente. O legal é dar um salto e ligar a semelhança e a distância. Exemplo clássico, a charada da esfinge de Tebas - quatro pernas de manhã, duas à tarde, três à noite. Perspectiva do dia como o tempo, perspectiva da vida como um dia só, perspectiva dos apoios que nós temos como o próprio modo de vida. A metáfora é uma charada com resposta conhecida.

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[Marcelo Braz] Dá pra transpor o "seja você mesmo sua própria mídia" da mídia tática pra "seja você mesmo sua própria máquina"?

[Stalker] Mais divertido é
seja outro sendo você mesmo sua própria máquina;
seja você outro a si por ser pra si sua própria máquina;
seja para os outros uma máquina sendo pra si mesmo para os outros.
e coisas assim
Idéia de você não ser você mesmo. Não interessa você ser você mesmo. Se a gente quisesse isso, não usava pseudônimos nem tentava entrar nessa viagem doida de deliberadamente mudar o modo de pensamento da gente se expondo a escrever wiki em vez de texto linear. Quem quer coincidir consigo mesmo no extremo acaba se matando. Dioniso mesmo: "eu sou o outro para o outro". Eu só posso ser um sendo outro para o outro. E o outro é um eu que está fora de mim. As máquinas permitem essa desidentificação, essa ipseidade. Ser outro para ser.

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Pós-comentário de Roberto em e-mail para Marcelo Braz:

gostaria de dizer que achei muito interessante a palestra do Braulio, vulgo Stalker.
Essa discussão sobre máquinas, filosofia da técnica etc... é muito importante. Também gostaria de pedir desculpas quando manifesto certo pessimismo em relação às questões colocadas em discussão. Tenho notado que a abordagem das questões econômicas, mercadológicas pautadas sob uma perspectiva marxista, causa um certo mal estar entre os jovens filósofos e outros jovens acadêmicos que estão em busca de um caminho ou de uma forma própria de pensar. Creio ser necessário ter uma certa maturidade para enfrentar essas questões penosas (como alienação, reificação etc...) de frente. E, fazendo uma séria auto-reflexão, penso que não tenho o direito de passar o meu pessimismo para ninguém. Não obstante, gostaria de frisar que a questão da financeirização e mercantilização do mundo e da realidade é um fato. Pensadores como Toni Negri, Metzaros e outros mostram isso com grande clareza. O capitalismo de mercado na era eletrônica e pós moderna atingiu uma sofisticação e complexidade tamanha, que confunde nossas mentes e corações. A dinâmica do capitalismo e seus meios de apropriação e acumulação de capital são muito velozes. O trabalho imaterial, o capital intangível, o trabalho alienado, a consciência possível imersa na realidade do mercado que faz com que os homens e mulheres encarem com naturalidade a exploração brutal de seres humanos, a violenta divisão de classes sociais, a gigantesca dominação dos meios de comunicação, em especial, da famigerada Rede Globo quer se apropria do carnaval, dos esportes, e, de todos os meios lúdicos disponíveis pela cultura, transforma todos esses aparelhos culturais em espetáculo de massas e multidões uniformizadas e reificadas. A consequência disso, é o individualismo alienado agindo num coletivo fragmentado, a subjetividade controlada gerando violência, competição de todos contra todos e implosão de todas as noções de valor de convivência social minimamente civilizada. Nesse circo trágico, abrem-se espaços para aproveitadores do desespero humano como pastores neo-pentecostais pilantras, marketeiros, políticos ladrões e outras tribos grotescas e surreais. Gostaria de concluir dizendo que acredito em ações que possam minimizar esse mal-estar civilizatório. Sem dúvida, a metareciclagem apresenta-se como uma dessas ações libertárias que podem colaborar para o parcial resgate da consciência do rebanho passivo. Todavia, sem a compreensão dos mecanismos de exploração e circulação do capital, qualquer tentativa de superação desse estado de coisas torna-se inútil.

Diálogos na Casinha - Luiz Algarra - 31/05/2007

Conversa com Luiz Algarra sobre aprendizagem informal.
Moderação: Marcelo Braz.
Convidadxs: maria_lu, Alberto, Henrique.
Streaming e irc não rolaram.
Efeefe só participou de uns pedaços.
Gravação de áudio não ficou 100%, mas tá disponível no acervo.


Publico compilação aqui assim que tiver tempo.