Editora des).(centro

Parte Um

"Os meios de comunicação de massa (...) Têm o poder de determinar a opinião pública e, quando em discordância com o estado, subordina-o a seus próprios interesses. Constroem as regras do jogo. E o jogo. Têm autonomia sagrada de funcionamento e funcionam de acordo com o lucro e poder. Operam a dominação a partir de duas coordenadas: a cultural, na reprodução dos valores, modos de vida, preconceitos; e a política, cotidianamente alterada através da informação.” - Wanderlynne Selva - Manifesto do festival Submidialogia 3.


Descrição

Edições Descentro é um projeto de pesquisa em cibercultura brasileira. É um estudo que procura dar voz à uma rede cooperativa de produtores de meios independentes por todo o país, estimulando o conhecimento local ao promover a pesquisa e publicação, a interação social e a consciência sobre os meios, alinhando a produção cultural regional às novas formas de produção e distribuição. É também um projeto prático de formação colaborativa e de intercâmbios aplicados entre comunidades locais e translocais para a produção teórica brasileira.

 

Tem apoio da Associação para Tecnologias da Informação Descentro e pretende ser uma plataforma de publicação das pesquisas realizadas pela instituição.


livros sao sagrados

Como

Através de um coletivo de acadêmicos, artistas, tecnólogos, cientistas sociais, comunicólogos, jornalistas, historiadores e cientistas da computação, pretende-se a publicação de textos, artigos e periódicos dos Associados Descentro, bem como a tradução de material relevante para a pesquisa brasileira em cibercultura e tecnologias da informação, destacando as interações transdisciplinares que forem julgadas relevantes pelos coletivos editores.


Plano

Pretende-se organizar, analisar e preparar para a publicação material teórico e áudio visual através de um coletivo de edição organizado através de lista de discussão e encontros físicos. Vale salientar que esse coletivo é composto por pesquisadores de diferentes ramos da sociedade bem como diferentes instituições acadêmicas, órgãos da sociedade civil, órgãos governamentais federais e estaduais, grupos independentes, provindos de diferentes regiões do país. Com isso, buscamos uma análise com diferentes pontos de vista do material a ser publicado pela sua qualidade literária e/ou importância para o estudo social e técnico da atual sociedade brasileira e sua relação com ações e idéias orginárias de diferentes países do globo.


Justificativa

Durante os últimos 10 anos, centenas de artistas, ativistas sociais diversos e comunicólogos colaboraram para o desenvolvimento da cibercultura brasileira, com ações independentes (como os Festivais Pr0v0s, em Belo Horizonte, Mídia Tática Brasil em São Paulo ou ENFAMI em Salvador), que rapidamente encontraram espaço para desenvolverem suas idéias e práticas dentro das estruturas do governo brasileiro (como o programa Cultura Digital do Ministério da Cultura, o programa GESAC do Ministério das Comunicações ou o programa Casa Brasil da Casa Civil da Presidência da República), de Associações Não Governamentais (como os novos Pontões de Cultura do Ministério da Cultura) e até mesmo de iniciativas privadas (como a série de exposições art.ficial no centro cultural do banco itaú, em São Paulo).

 

Muito desse desenvolvimento, porém, aconteceu de forma orgânica, e em alguns momentos ressaltou nas práticas e ações sua força maior. Agregado à urgência para a implementação dessas mesmas ações, muitas vezes viu-se uma não-equivalência entre as ações ocorridas e as teorias que as suportavam. Tal desequilíbrio sempre foi questionado e investigado pelos Associados Descentro, como pode ser observado em grande parte das discussões promovidas durante o ciclo de conferências Submidialogia, que por quatro anos investiga a produção midiática, tecnológica e de políticas públicas federais, em encontros tão diversos quanto os locais em que aconteceram: Campinas (SP), Olinda (PE) e Lençóis (BA). Submidialogia também é uma lista de discussão com cerca de 200 membros que, além de organizarem tais encontros presenciais, argumentam e teorizam sobre os atuais estágios dos temas de estudo de seus participantes.

 

Com o projeto Publicações Descentro, pretende-se dar voz a essas análises feitas principalmente por pessoas que participam das ações que propõem, salientando assim a importância das práticas no mundo das idéias e das idéias no mundo das práticas. Pontos de vista com uma terna radicalidade é o que pretendemos que façam parte do atual cenário de argumentação teórica pastosa existente em muitos dos ciclos de discussões sobre e cibercultura brasileira.


Parte II

Desenvolvimento

O projeto aqui descrito funciona através da análise de material a ser publicado, discussão deste material entre os membros do coletivo de edição e a busca pelas melhores formas de tornarem esse material público, seja em parceria com editoras já estabelecidas, através da publicação via web ou quaisquer outros formatos que forem julgados competentes para a publicação em questão. As traduções também são feitas colaborativamente tendo em vista a preocupação em se manter uma mesma terminologia de conceitos para as publicações descentro.

 

Responsáveis

 

O corpo editorial de Edições Descentro é composto por:

 

Alexandre Freire: Mestre em Ciência da Computação pelo IME/USP, foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do programa Cultura Digital do Ministério da Cultura. Pesquisa metodologias colaborativas usando a Internet como principal ferramenta. Topa qualquer programa.

 

Giuliano Djahjah Bonorandi : Graduado em Comunicação Social na UFRJ, já fez parte do programa Cultura Digital do Ministério da Cultura. Trabalha e estuda em diversas instituições e iniciativas ligadas à tecnologia da informação e democratização do conhecimento.

 

Paulo José Lara: Mestre em Sociologia pela UNICAMP-SP, bla bla bla

 

Ricardo Ruiz Freire: Com especialização em Design de Hipermídia pela Universidade Anhembi-Morumbi (SP), foi um dos responsáveis pelo programa Cultura Digital do Ministério da Cultura, bem como outros programas Governamentais ou não.

 

Tatiana Maria Wells: Com mestrado em Hipermídia pela Universidade de Westminster, já colaborou em centenas de projetos independentes e governamentais sobre cultura digital e tecnologias da informação.

 

Thiago Novaes: Bacharel em Ciências Políticas pela UNICAMP, tem publicado artigos e traduções sobre a temática de tecnologia e cultura, além de ministrar palestras e oficinas sobre rádio e tv livres no contexto do monopólio da comunicação social no Brasil.

 

Cadernos Submidiáticos

Uma tentativa de explorar as discussões geradas nas conferências Submidialogia, nas listas de discussão e em outros ambientes com os quais o des).(centro se relaciona.

Fruto esporificador das conferências Submidialogia, os Cadernos Submidiátaticos são reflexoes, transcrições de debates, reflexões sobre contextos, projetos e ideias submidiáticas.

Clique abaixo para ler os cadernos já editados.

Caderno Submidiático #1 - Teoria, Cadê?

Colagem, reinterpretação, interferências e comentários em cima da transcrição do primeiro debate da Submidialogia #1, que aconteceu em Campinas, em 2005.

Download do PDF (255kB)

A quem precisa de explicações
Cadernos submidialógicos 1 – Teoria, cadê?

Editado por ff, em grande parte durante o carnaval de 2007

Issaqui é ficção baseada em colagens e remisturas não-lineares das transcrições do painel sobre apropriação tecnológica na primeira edição da Submidialogia. Não tem por objetivo ser um relato ou retrato da discussão, sendo meramente **baseado** em discussões que rolaram, gravadas por um alemão, transcritas por 2 brasileirxs, reconfiguradas por um desocupado, totalmente dissecadas e remisturadas sem linha editorial específica. Espero não ter torcido muito as opiniões dxs participantes. Se quiserem, considerem tudo delírio da minha cachola e os nomes como coincidência ou calúnia. Ocasionais elogios velados ao editor devem ser esperados entre entrelinhas linhas. Reclamações serão analisadas por um robô de inteligência artificial e enviadas à lata de lixo. Quer copiar? Daquele jeito, é copyleft – publica aí, mas conta que veio do DesCentro.

No programa:

14h07 Sala do Ciclo Básico CB01
teoria, cadê?
Aonde vai a teoria que perpassa as idéias e ações, qual o papel das idéias no período tecnofóbico e de especialismos ? Trata-se, com efeito, de uma questão premente, visto que existe, de fato, uma aparente dissociação entre prática e teoria, como se a "gente que faz" não tivesse tempo, interesse ou inclinação para pensar e a "gente que pensa" simplesmente não conhecesse a realidade prática daquilo sobre o que pensa. Mas seria mesmo o caso de opor os dois grupos de pessoas, como se o Submidialogia fosse colocar a prática de uns em contato com a teoria dos outros? Será que não existe, na própria teoria, uma prática ainda pouco percebida, e na prática, uma teoria que merece mais atenção?

Tati Wells - IP:/ / moderadora
Paulo José Lara - Submídia moderador
Pedro Ferreira - Subrádio - CTeMe
Dalton Martins - Metarecicagem
Renato Ortiz - UNICAMP
André Parente - UFRJ
Giselle Beighelman - PUC/SP
Mauro Almeida - UNICAMP
10 minutos para cada um expor seus pontos. 30 minutos de perguntas e respostas

Atualizando
A edição compilada já está disponível para download em anexo. Veja abaixo a lista dos arquivos originais abertos, também disponíveis para download.

Momentos eloqüentes

Pajé
Ontem os momentos mais eloqüentes foram quando começamos a tomar cerveja, na balada, quando muitas coisas surgiram, nos instantes de festa, quando trocamos muitas idéias.

Apropriação

I. MetaReciclagem e apropriação
(Dalton) A gente sentia um problema muito sério que era quando as pessoas chegavam e falavam assim: nós vamos construir um projeto de inclusão digital, ou vamos construir um laboratório de informática, vamos dar cursos, abrir um telecentro, dar acesso à informação. Mas e a apropriação tecnológica? Como é que eu me aproprio dessas ferramentas? Ou melhor, estou me apropriando dessas ferramentas ou simplesmente ampliando o mercado de acesso à mídia de massa?
Aí num dado momento chegamos na idéia de trabalhar com a apropriação de tecnologia dentro das máquinas: como se apropriar do hardware. Por que não abrir o hardware, por que não reinventar esse hardware, porque não adaptar, reinterpretar esse hardware?
II. Contexto da apropriação
(Dalton) Quando você começa a perceber a questão da apropriação tecnológica como sendo um elemento que pode derivar para um projeto ou uma circunstância de construção cultural que leve a essa integração econômica, financeira, e que isso pode levar para a sustentabilidade, você também começa a pensar em como construir políticas públicas, em como construir pesquisa e desenvolvimento, em cima dessa idéia de apropriação tecnológica. Então você passa a sair de um modelo onde as pessoas que pesquisam e desenvolvem a tecnologia fazem parte do time de desenvolvimento do fabricante, para reintegrar esse produto e essa tecnologia numa nova escala. A gente começou a perceber que esse processo também derivava de necessidade dos usuários daquela tecnologia de extrapolarem seus limites e muitas vezes essas necessidades também tinham um cunho econômico, no sentido de que em uma série de circunstâncias sociais e culturais não havia a condição de financiar determinadas idéias e projetos.
III. A prática da apropriação na MetaReciclagem
Por exemplo, se a gente vai montar o que hoje pode ser conhecido como um telecentro, a primeira coisa que vamos fazer é descontruir a tecnologia, é desmontar essas máquinas, perceber que dentro delas há uma série de tecnologias embarcadas que a gente dá o macro-nome de computador, mas isso é apenas um conceito. e que essas tecnologias embarcadas podem ser desconstruídas isoladamente.
IV. Apropriação em sentido mais amplo
Quer dizer, quando eu sento para usar meu laptop, para ver o meu computador, será que a construção espacial do local aonde estou pensando para a prática da minha construção de conhecimento através da tecnologia é um espaço do qual efetivamente eu estou me apropriando? Então levar esse conceito da apropriação um pouco mais a fundo, um pouco além dentro de nossas práticas. Porque senão a gente senta naquelas baias de computador que parecem cochos, a gente não vê as pessoas estão ao lado, manda emails uns para outros, constrói todo um processo colaborativo que se dá no espaço online, e a gente não consegue se olhar um nos olhos do outro, que estamos sentados um do lado do outro.
V. Apropriação no cotidiano
Então faz parte do nosso processo radicalizar a nossa prática em termos reflexivos de como estamos nos apropriando da tecnologia, senão caímos na situação de usar o debian e o firefox na nossa máquina mas quando aparece um bug a gente dá cancel por que dá trabalho reportar o bug no bugzilla, porque dá trabalho entrar na comunidade e mostrar o ponto falho daquela tecnologia que estamos usando. Pensar isso sobre a nossa prática. qual é a nossa prática de apropriação tecnológica? Efetiva, no dia a dia, no uso do hardware do software, e da colaboração em rede, e como podemos transferir isso no campo teórico para construir essa ligação entre as pessoas e entre esses atores.
VI. Apropriação metafórica
(Orlando Lopes) você falou em outros níveis de reapropriação. Vocês estão pensando a partir de uma base, a base do Hacker, o primeiro momento, o primeiro experimento que vocês estão fazendo de como ele funciona. Agora, a partir do momento que você tem essa imagem da uma sensação, como você falou de a partir dali você vai replicar a metareciclagem... vocês estão trabalhando com o conceito de apropriação metafórica junto com a idéia de reapropriacao?
(Dalton) Sim, eu diria que sim. Na verdade, você só consegue fazer uma reinterpretação da tecnologia como primeiro grau de apropriação tecnológica se você invadir o campo da metáfora. Se você entrar no campo da metáfora você constrói toda uma simbologia. Eu me identificar com aquilo de uma outra forma, então eu construo um significado diferente para aquilo.
Pô, pega um computador, “ah um computador eh como se fosse uma maquina de escrever”, ou o notebook, porque tem esse nome notebook? O mouse... como eh que eu dou novos nomes para aquilo, né? Como eu chamo, como eu explico o que é um HD dentro de um computador sem ter que usar a velha metáfora de um fichário de arquivos, que vem de uma metáfora de desktop, de escritório e que muitas vezes a pessoa nem conhece aquilo, nunca nem viu um fichário de arquivo?
VII. O processo de desconstrução
(Dalton) o processo de desconstrução surgiu de uma necessidade prática. Para montar novos computadores era necessário canibalizar outros, então a gente tinha que sacar muitas vezes um transistor de placa para colocar em outra para que aquele transistor pudesse suprir uma necessidade. Então ela começou de uma prática, o fato de eu ter que pegar doações das mais diversas possíveis e a partir destas doações, que têm realidades técnicas das mais diversas, eu poder construir novas máquinas, me levou a partir para a desconstrução. Depois, a gente começou a perceber que este processo de desconstrução estava na pedagogia, está lá em Paulo Freire, e os caras já estão falando isso há décadas e tem tudo a ver com isso. Quer dizer, como é que eu trago esse processo do Paulo Freire, como eh que eu trago as idéias do Piaget, e por aí vai embora. Como é que eu entro com isso dentro deste processo?
VIII. Colaboração
Marcio BlackSe o software livre aparece como resistência ao estado e o Dalton falando da metareciclagem, trabalhar com o estado e trabalhar com as corporações não cria um ruído ai? Não cria um ruído no software livre, no software livre ou na metareciclagem, seja qual for essa ação comunitária, não cria um ruído?
(Dalton) Vamos voltar um pouco. Quando você coloca assim: o software livre como resistência às corporações, eu discordo. Eu não acho que o software livre é uma resistência à corporação até porque o software livre só existe como existe graças às corporações, graças à Redhat, graças à IBM, graças à Suse e por aí vai. Elas que deram possibilidades. Corporações que emergiram da prática do software livre que deram as possibilidades para que ele se constituísse da forma que ele é. Então eu não vejo essa “resistência” às corporações. Eu não acho que é por aí a maneira de compreender isso, até porque se você entra em uma comunidade de software livre, um monte de gente trabalha em empresa e constrói o kernel do Linux porque tem uma empresa que paga o salário do cara. Então eu acho, pra ser mais ousado, que a gente não tem que ver as corporações no sentido de resistência, no sentido de embate. A gente tem que ver a forma como as corporações se organizam como um campo fluídico onde a gente pode penetrar e interagir lá dentro, e rearticular o sistema produtivo, e não ver como um embate.
Marcio Black Você acha que é possível isso então? Fazer a empresa abrir mão de uma parte do lucro dela pra poder incorporar essas soluções que a metareciclagem dá ou traz? Ou ela não vai se apropriar disso, capturar isso daí para, lógico, gerar lucro; eu não conheço empresa que não queira lucro.
(Dalton) Dentro do que a gente concebe como colaboração entra uma outra linha aqui. Quando você pensa na dimensão econômica da colaboração, esta dimensão se efetiva no seguinte ponto: a colaboração se dá numa troca e numa organização modular e elementar. Então, por exemplo, quando eu produzo um pedaço de código eu estou jogando granularidades na rede. Quando eu divido e subdivido um trabalho, estou colocando modularidades à disposição. Isso tem valor econômico mas não financeiro porque eu estou contribuindo com a rede. O que tem valor financeiro é o processo de integração das modularidades. Chega uma empresa no site do metareciclagem, e fala assim: “Pô esses caras têm um monte de idéia legal!” Ela pega aquilo, integra de uma certa forma e chama aquilo de um produto. E vende! E faz lucro! E eu não tô nem aí pra isso! Isso é muito legal, no meu ponto de vista. Ela conseguiu fazer uma leitura da elementaridade que está dentro do wiki, e conseguiu dar um valor financeiro para aquela elementariedade. Para mim beleza! Isso é o que fez o Debian ser o que é, a Redhat ser o que é, a Suse ser o que é. Eles integraram o software, as elementaridades do software numa dimensão que deu uma cara financeira. Isso não abalou a comunidade, isso não abalou a rede, isso fortaleceu a rede porque, de uma certa forma esses caras deram subsídios pra que a apropriação e a integração que a empresa fez fosse o feedback, falando de concepção sistêmica, no próprio sistema da rede. Então, olha que coisa maluca, a gente coloca através da emergência na rede uma corporação para colaborar com você. A corporação se torna parte da rede.
Marcio Black -Não é você que está colocando a corporação para colaborar com você. É ela que está se apropriando do seu trabalho.
(Dalton) Não! É o sistema da rede, ela não tem como se inserir neste sistema se ela não for mais um nó!
IX. Xemeliza a MetaReciclagem aê!
Cara de óculos barbudo magro braquelo em portunhol: Eu sou um observador aqui e estou achando na verdade que todas as coisas que vocês falam extremamente interessantes, extremamente complexas, não? E tem também uma coisa quase artistica, uma sensibilidade, uma coisa muito graciosa, não? Mas também entra essa complexidade, acho uma coisa muito difícil você discutir, muito difícil entrar no discurso, no vosso diálogo. Tem uma linguagem muito específica, eu acho que é uma comunidade que é muito complexa, muito excêntrica, uma coisa muito complicada para dedicar sua vida não? Então, falando da teoria e da prática, eu estou achando que tem uma prática muito sofisticada, mas na teoria eu tenho uma pergunta que é muito simples mas acho que não se falou ainda: eu não consegui entender no teu discurso, como se faz, através dessas práticas muito complexas, para inserir, quando se diz inserir na verdade dentro dos problemas ou das saias da sociedade onde vocês se sentem inconformados, sim? Eu acho que vocês poderiam criar uma rede incrível, mundial e global de pessoas com conhecimentos muito complexos que fazem reinvenção do que vocês querem, mas onde está o elo que vai unir isso com uma incidência real e necessária com as quais vocês estão inconformados? As grandes corporações, esse sistema global de neoliberalismo. Gostaria de entender isso porque até agora não vi, mas pode ser que como o discurso é muito técnico eu não... Assim, eu sou sociólogo, então estou procurando esse elo que não estou conseguindo perceber até agora. Para todos vocês que estão neste meio... Eu gostaria de entender isso, porque acho que também seria importante pra vocês, não uma coisa de teoria mas é necessário pra uma prática que esteja transcendendo, ou seja, além do discurso muito complexo, muito fechado né?
(Dalton) A idéia de falar a respeito de apropriação tecnológica foi trazer um discurso pra gente debater. Um discurso teórico pra gente debater em cima de práticas daquilo que a gente chama de MetaReciclagem, de um projeto de desconstrução e apropriação tecnológica. Isso foram conceitos que a gente vem elaborando, vem interpretando, vem tentando traduzir dentro das teorias que a gente vem circulando por aí que como você viu vão pra áreas das mais variadas. A prática disso, dentro dos campos sociais, se dá na dimensão onde você consegue identificar diversas localidades que produzem cultura, que têm todo um trabalho seja musical, visual, seja dançando, seja fazendo, seja cantando, seja organizando. Este trabalho se dá numa dinâmica de rede mas pontual, geograficamente falando. Quando a gente chega com esse processo de apropriação tecnológica em rede dentro de uma comunidade, a gente está criando um mecanismo de difusão, de interação, que sai da localidade e começa articular esses pontos em rede. É isso que a gente vem fazendo, criando espaços de ocupação, entrando nesses espaços e construindo-os junto com as pessoas, dentro daquilo que elas já fazem sem interferir no fazer, mas criando condições para que elas se apropriem de novas tecnologias, seja reinterpretando, seja adaptando, seja reinventando. Mas pensando esse processo de apropriação numa lógica em rede, onde a imersão disso crie estruturas sociais, mecanismos sociais, para que elas possam romper ciclos aos quais estão inseridos historicamente. É esse processo que a gente vem fazendo.

Academia, a idéia por trás, a teoria da prática e vice-versa

ACADEMIA, A IDÉIA POR TRÁS, A TEORIA DA PRÁTICA E VICE-VERSA
(Estudante da PUC) Eu pessoalmente não consigo associar essa coisa de teoria e prática. Por Exemplo: Se você pega um livro, é teoria ou é prática? Livro não é fruto de uma prática? Eu não consigo fazer essa associação, mas aí cada um pode...
(Pajé) ... acho que o mais importante é o que está por trás disso, que é muito louco na história. Não é nem tanto a prática, não é nem tanto você aprender a mexer, não é nem tanto a linha de comando, é a idéia por trás disso, ai a gente conecta com o que a gente propôs aqui nesta mesa. Quer dizer: o cristianismo, Jesus e os doze amigos dele lá, eles tinham uma grande idéia para publicizar. O capitalismo é uma grande idéia, clube de futebol é uma grande idéia, quer dizer: onde é que está esse embasamento que não é material, que não pode ser mexido e remexido, mas ele é trocado, ele é intercambiado, ele é editado e reeditado, etc.
(Antonio Albuquerque) Eu acho que o desenvolvimento da sociedade está muito marcado pela questão da acumulação capitalista, do dinheiro. Todo processo desenvolvimento tecnológico tem na questão do capital, no processo da mais-valia de produção capitalista, a essência. Quer dizer, a fronteira tecnológica, o caminho, a trajetória tecnológica está sendo determinada hoje pelos grandes grupos econômicos, que detêm 70% do comércio internacional. O que estamos pensando com a questão do software livre é fazer o processo de contra-revolução, no sentido de colocar a ética em primeiro lugar, dizendo o seguinte: olha, a tecnologia que está se produzindo não está atendendo e não está resolvendo os graves problemas sociais do nosso povo. Muito da tecnologia que é produzida, da ciência que é produzida nos países de terceiro mundo tem muito pouco a ver, se aproveita muito pouco socialmente dos seus resultados.
(Ruiz) Realmente. Como pode rolar uma aproximação, por exemplo, da academia com questões sociais ou então de, sei lá, políticas públicas com questões sociais?
(Pajé) Isso talvez seja o ponto mais importante. Onde entra a academia nesta história? Há uma idéia como no Iluminismo, ou como A Indústria Cultural, ou como... saca? Todos esses chavões e etc, são idéias, o cara pegou e fez um trabalho de escrever um livro, dois livros e isso passou a ser um idéia intercambiada por todos ao mesmo tempo. E aí? Se a gente trabalhar com os conceitos de distribuição e colaboração, a gente está misturando de uma forma muito ambiciosa essa relação entre prática e teoria. Essa separação já é uma coisa que, na minha opinião, é difícil de ser feita, mas se você pensar que o que está por trás desta história é uma idéia muito forte e de que é um aprendizado, uma cognição muito forte ai eu acho que começa a ficar interessante.
(FF) Que idéia é essa?
(Pajé) As idéias são muito fortes por trás de uma coisa, se você tem, por exemplo, a gente começou a falar de software livre. Por que a gente começou a pensar “tive uma idéia, vou dar uma mordida nesta maçã e passar aqui pra trás em vez de comê-la inteira , se essa pessoa também pegar a mesma idéia que eu assim vai e vai”. Quer dizer, eu estou falando da importância que a idéia tem...
(FF) Como se explica essa idéia, de colaboração, de conhecimento livre, o que é essa idéia, o que passa por isso?
(Pajé) Então, eu acho que isso é um dos pontos mais difíceis e espinhoso para nós aqui. A gente meio que tem muita certeza do que a gente faz, saca? Eu sei o que eu estou fazendo, eu sei que isso que eu estou fazendo é bacana, eu sei que eu vou conseguir atingir algumas outras pessoas. Mas eu não consegui chegar numa conclusão com o Cris Scabello sobre mapeamento ou não mapeamento, nem o conceito de mapeamento para ele é o mesmo que pra mim, entendeu? Esse é o ponto mais espinhoso, acho que eu gostaria muito de conhecer...
(CP) Pô, mas você vai passar o resto da vida assim, eu garanto que depois do sessenta você aprende que você não sabe mais porra nenhuma mesmo, de verdade. Mas tudo bem, cara. Pra que que você precisa desta resposta? Este é o problema da academia, precisa de respostas, deixa rolar cara, manda ver...
(Pajé) Por isso que a minha pergunta foi, o que a gente está fazendo aqui. Então a gente nem precisava estar aqui, manda todo mundo ir embora.
(CP) Tudo bem, mas é que nós estamos enganchados em uma ratoeirazinha. Aliás, eu acho que esta questão da academia passa muito por isso, de estar presa dentro de uma ratoeira, de que tem que explicar as coisas, tem que entender o que está acontecendo por um prisma teórico. O que está acontecendo agora vai eventualmente ser explicado, alguem vai ter a pachorra de escrever, de explicar isso, de falar sobre, de fazer avaliação critica, etc. Se a gente ficar muito preocupado com isso a gente pára de fazer, eu acho que o que está acontecendo aqui é efetivamente a apropriação de um momento, de uma oportunidade extraordinária de avançar e foda-se se está certo, se esta errado, se deveria ser assim ou assado. Eu acho que tem uma coisa muita em cima disso.
(Dalton) Eu acho que, na verdade, o que a gente está falando em termos de reapropriação tem a ver com novas práticas e aí sim entra essa história da teoria, novas práticas amparadas em uma ética e novas práticas que vão interferir em toda a minha relação com a sociedade, com aquele grupo do qual eu faço parte, a minha colaboração, a forma como eu colaboro, a forma como eu interfiro. E sem dúvida nenhuma os limites do software já foram extrapolados e estão sendo extrapolados cada vez mais em outras posições, mas eu acho que interfere sim nas práticas do nosso dia a dia. Quer dizer: como que eu me relaciono dentro da comunidade? Isso resgata um espírito tribal.
(Thiago Novaes) Eu queria primeiro retomar a pergunta do Pajé, sobre o que que nós estamos fazendo, considerando que a gente está em um momento que é esta passagem do digital, novas possibilidades... Este momento, historicamente colocado, esta passagem que o pessoal coloca aí como um atropelo da prática, vindo e atropelando todo a questão do pensamento. Queria colocar que tem que ter um pouco de cuidado ao colocar nestes termos, especialmente dentro de uma Academia, dentro da Unicamp, que é uma entidade em que as pessoas páram para estudar, para pensar, que tem um papel fundamental dentro do que a gente está fazendo, e que a prática em si muitas vezes não resolve. É boa parte dos problemas que a gente vai vivendo. A tomada de consciência sobre esse processo é uma das propostas de a gente ter vindo aqui, estar reunido, debatendo esses temas. Que o software livre é uma novidade, que é uma coisa que está vindo com força, que é legal fazer, eu acho que boa parte das pessoas aqui está engajada nisso e já entendeu.
(Thiago Novaes) O que está faltando é o que é teoria... O que significa isso do ponto de vista prático do comportamento? E do ponto de vista histórico até, em que vivemos um momento super atropelado. A pergunta que a gente faz enfim, lendo os textos que estão por aqui, é o quê nós estamos ajudando a fazer em nós mesmos? Muitas vezes a gente não pára pra pensar nisso justamente por termos uma prática imposta e uma necessidade de se solidarizar em vários movimentos. Tentar retomar o que talvez seja uma das propostas desse debate que é a tomada de consciência sobre esse processo, pra onde nós estamos indo, o que estamos fazendo a respeito disso.
(Antônio Albuquerque) Eu só queria completar o que o Thiago falou que não existe devolução se a gente não tem a tomada da consciência. É absolutamente necessário porque senão a gente vai fazer idealizadores e seguidores, seguidores que não têm também a consciência. Cada seguidor tem que ser também um líder. Isso mostra que a tomada de consciência é um fator fundamental para o processo de revolução. E qual é o processo de revolução? O processo de revolução que a gente está querendo fazer é resgatar um pouco do que existia antes da consolidação da era do grande capitalismo no final do século XIX seguindo a revolução industrial. O conhecimento é socialmente produzido. Que conhecimento? Conhecimento que é muito mais apropriado para resolver problemas locais do que certas soluções que são feitas em grandes empresas nos Estados Unidos ou na Europa.

Inversão da resistência?

INVERSÃO DA RESISTÊNCIA?
(Antonio Albuquerque) Os Estados Unidos aparecem no cenário mundial a partir da segunda revolução industrial e do processo de maturação do processo do capitalismo. Para os Estados unidos é canalizado todo o fluxo de capital do mundo. Esse processo de capitalização de dinheiro dos Estados Unidos no século XX se faz também com a grande apropriação do conhecimento todo, se faz também com a propriedade intelectual, com a lei de patentes, com a formação das grandes empresas multinacionais, com seus ramos pela sociedade global em outros países, capitalizando para os Estados Unidos conhecimento e riqueza e dinheiro e bens de capital. O conhecimento das partes é colocado na sociedade. O que nós estamos querendo colocar é: qual é a resistência do Brasil? Na verdade as grandes empresas é que vão ter que resistir ao processo de restabelecimento de um processo social de produção coletiva de conhecimento, que já existia antes da formação do capitalismo. Esta é a questão, a resistência é deles e não nossa, o que nós estamos fazendo na verdade é caminhar no processo do capital, é o processo mais fácil, é o processo de colaboração, é resgatar esse processo, que é o processo natural. Eles que vão ter que resistir para manter esse processo, que é antiético, que faz com que a população seja cada vez mais pobre, três quintos da população mundial hoje já vive na faixa de miséria, o globo terrestre não suporta esse modelo, está destruindo as águas, destruindo as florestas, destruindo o ar. É um modelo insustentável! E o que está acontecendo? Com o software livre e com o processo que vai além do software livre, essa tomada de consciência resgata uma produção social e coletiva do conhecimento que está espalhado por todas as partes, por todos os pólos do mundo.
(FF) Os que existe de revolucionário no software livre acontece de maneira descentralizada. Quer dizer, não são pessoas que têm o objetivo de fazer o melhor browser do mundo, o melhor software do mundo, são pessoas resolvendo seus problemas locais, o próprio objetivo da evolução do software livre é um bando de pessoas que quer resolver pequenos problemas e isso de uma maneira emergente acaba criando um contexto que é revolucionário. É uma outra maneira, uma maneira emergente de enfrentar as coisas que várias pessoas têm em comum.
CHICO (Chico) Eu quero discordar de tudo o que o Pajé falou, porque o Pajé tá insistindo em um lance que tem uma idéia por trás, o que está por trás? Ele está obcecado no que está por trás das coisas. Eu acho que a gente vive justamente um momento que as idéias não estão dando conta das coisas que estão acontecendo. Outro dia eu estava conversando com o Rhatto, e ele estava falando que na faculdade de meteorologia tem um cluster com sessenta processadores e que não existe ninguém que consegue programar pra esses computadores. O pessoal está ainda tentando conseguir desenvolver programas pra esse cluster que consigam explorar toda a potencialidade desse objeto técnico, dessa configuração que os caras criaram. Então, tem uma aceleração do desenvolvimento técnico que é a aceleração da aceleração e a gente está tentando entender e nem sempre tem uma idéia que está por trás que consegue determinar pra quê aquele objeto técnico vai servir, como ele vai ser utilizado, quais vão ser as conseqüências, os desdobramentos da inserção desse objeto técnico nas redes sociais e tal. Eu gostaria de chamar a atenção pra isso.
(Chico) Acho que eu consigo responder a primeira questão do Pajé que ele, num tom provocativo, falou: “Ah, e aí? Vocês estão usando ai o processador Pentium e não sei o quê, e aí como é que fica? E o software livre? Pra que que serve então?” Que eu acho um discurso fácil e muito simples de tentar esgotar as possibilidades criativas do software livre ou de qualquer forma de resistência porque o fundamento do argumento do Pajé é o fundamento da negação entendeu? Você não está negando o Pentium usando software livre, então você não está combatendo o Pentium.
(Chico) Eu quero discordar também do Antônio, que estava com um referencial marxista, querendo colocar o determinismo econômico. Mas não basta a gente mudar os proprietários dos meios de produção pra gente mudar a estrutura de produção. O caso da União Soviética estava aí, esteve aí, pra nos mostrar isso. Mudaram-se os patrões, as pessoas continuaram trabalhando da mesma maneira e não mudou nada, continuou tendo produção de mais-valia, as pessoas eram exploradas e continuou a mesma coisa, e depois o negócio acabou. A minha viagem é assim: o tipo de resistência. E quando o Dalton fala: “ah se uma empresa pegar eu acho que eu não tô nem ai, eu vou achar legal, se o Debian conseguiu se estabelecer porque o pessoal foi usando” é mais uma estratégia de contaminação, o pessoal começa utilizar o software livre, começa utilizar o Debian, a o camarada colocou: “É, mas aí está se apropriando do seu trabalho!” Entendeu? Mas não, ele está usando o Debian e daqui a pouco vai ter um mais monte de gente usando o Debian e vai abrir espaço pra mais pessoas conhecerem e utilizarem um software que é produzido dentro de uma outra ecologia de produção de conhecimento, dentro de uma outra ética, como algumas pessoas falaram. Então eu quero citar aqui o acadêmico Bodinho, porque a partir de suas leituras de Deleuze e Guattari ele me ensinou uma outra maneira de utilizar o conceito de resistência. A resistência, segundo Guatarri seria a negação, então eu vou resistir. A resistência baseada na negação está fundada em um paradigma da física mecânica, da ação e reação. E o outro tipo de resistência que ele propõe é a re-existência que é a construção de novos espaços de existência. Então, não é que eu sou contra as coisas, que eu quero destruir o Pentium e tal, não, eu quero construir novos espaços de existência porque não dá simplesmente pra gente fazer revolução e derrubar as coisa e tal, porque a lógica é outra e o barato é outro.
(Chico) A gente está falando de física quântica mas pensando: existe uma empresa, existe o trabalhador, existe o indivíduo, enfim, cada um é vários, não existe um eu. E a gente tem que quebrar com essas coisas também da maneira como a gente pensa e aí tem essa coisas da teoria e da prática que a gente também tem que mudar como pensa. Não adianta ver o novo, que são essas coisas que estão acontecendo, com as categorias do velho, pensar o novo a partir do velho que você não vai entender, entendeu?
(Bodinho) Falaram da academia em vários momentos e sempre se tem a imagem que a academia, essa visão do cara sisudo, do cara com vários livros, com roupas escuras e dialogando com o estabelecido. O Jubinha é um acadêmico. Olha pro Jubinha, olha o perfil do Jubinha, ele faz um novo uso da academia. E a academia como um espaço publico, garantido pelo estado, possibilita uma produção intelectual livre, e existem pessoas aqui dentro que conseguem talvez traçar umas linhas mais marginais, umas linhas mais criativas, que não passam por esse sistema quadrado e fechado. São pessoas que tentam relançar, intervir de alguma maneira. O Canário falou que a gente é acadêmico, a gente aqui até faz uma brincadeira neste sentido que começou no cineclube de exibição e foi virando várias outras coisas, ou seja, eram os acadêmicos fazendo um cineclube. Então, enquanto espaço público, garantido pelo estado com uma relativa tecnologia, com um relativo acesso à tecnologia, na academia cabe à gente achar professores que orientem teses mais alternativas, o C. está ai, eu também estou fazendo. O Novaes citou um texto que estamos ajudando a fazer nós mesmos que é do professor Luis Orlando? Aqui do Ifich. Ou seja a possibilidade, a “peneira”, aqui tem buracos muito largos e aqui é um lugar onde a gente pode emplacar uma coisa que a gente diz muito que é 171, dá pra você fazer vários 171, uma gambiarra acadêmica. Então talvez este seja o depoimento de um acadêmico, e existem acadêmicos que não são uns sisudos, não são uns chatos como esses acadêmicos que estão desfrutando das benesses do Estado.

Novos paradigmas, colaboração, software livre

NOVOS PARADIGMAS, COLABORAÇÃO, SOFTWARE LIVRE (Dalton) Quando a gente fala desta questão da academia, quando a gente fala desta questão das certezas, eu quero remeter a um momento da história da ciência, mais ou menos no início do século passado, quando brotou aquilo que a gente hoje chama de física quântica. Se a gente pegar a fala de Niels Bohr, de Heisenberg, Planck e por aí vai, esses caras tinham embates dentro de laboratórios que duravam semanas. Eles chegavam a surtos muito semelhantes aos quais nós chegamos em oficinas e processos. Einstein dizia assim: “Perdemos o chão. Estamos caminhando sobre o completo desconhecido”. Porque aquilo que brotava no cenário para eles era completamente desestruturante, com base naquilo que eles conheciam como o seu arcabouço conceitual anterior, que era física Newtoniana e o cartesianismo. Aí, de repente surge todo um padrão comportamental da matéria dual, aí fudeu; ora o eletron é matéria, ora o eletron é luz, é onda, como é que isso pode acontecer? E o que é pior, se você faz uma pergunta para um elétron do ponto de vista óptico, ele te responde do ponto de vista óptico; se você faz uma pergunta pro elétron do ponto de vista da matéria, ele te responde como matéria. Então, os caras tiveram que aprender uma coisa em 1920 com a qual eles têm que conviver até hoje, que é conviver com a incerteza. Então a gente parte de um momento em que as redes começam a emergir... tá lá o Barabási quando escreveu Linked, traçando esse perfil das redes emergentes em tudo, e a gente começa a perceber que essas redes emergentes trazem como conseqüência do processo de interconexão das pessoas novas práticas. Essas novas práticas começam a puxar atitudes ousadas de grupos que conseguem assimilar esses conceitos no seu cotidiano mais facilmente, e aí a gente se depara com esse ponto chave a que nós estamos chegando hoje. São novos comportamentos sim, mas eu vou além... são novos comportamentos porque vêm de novas formas de relacionamento, vêm de novas formas que estruturam o relacionamento e é isso que é importante trazer para o dia-dia.
(Cláudio Prado) Quando a Física Quântica começa a ser pensada, a instituição acadêmica da época, os físicos, presidentes das associações, o povo sentado em cima das cátedras dizia: “Você não precisa mais estudar física, a física já praticamente resolveu o problema de todo mundo, tá tudo pronto, faltam algumas leizinhas ai e a gente vai matar a charada da humanidade”. Essa era a postura da academia. Física quântica, até hoje professor de escola não tem idéia do que seja. Ele ensina que o caminho mais curto entre dois pontos é uma reta como fato absoluto e isso ai é um absurdo, na verdade precisava começar a ensinar para as crianças as abstrações e depois ensinar as linearidades. Você precisa primeiro aprender que a terra é chata para depois, na pós-graduação, aprender que ela é redonda... é uma coisa meia maluca isso.
(Dalton) Você constrói um conjunto de metáforas completamente caducas pra pensar a sua vida. É um processo em que você está construindo a sua relação com o mundo e você tem essa relação baseada no cartesianismo, depois você, se por acaso chegar a estudar alguma coisa que vai para o mundo das exatas, vai perceber que o tempo não é linear, vai perceber que o espaço é curvo e você começa a perceber um monte de coisas ...

Caderno Submidiático #2 - Autonomia? Conceito? Liberdade?

Este Caderno Submidiático 2, nasce de conflituosas, mas belas e interessantes discussões que surgiram em diversas listas de discussão, conversas e ircs da vida. E pensamos, por que não fazer um picadinho disso e tudo e botar nun caderno submidiático? A idéia é fazer é que o caderno seja um incentivo pra que esse debate seja mais aprofundado, documentado, e liquidificado preferencialmente num encontro presencial.

Liberdade, essa palavra...

tudo começou assim:

A mostra TV LIVRE CRIEI, TIVE COMO! tem como principal objetivo
consolidar um espaço de exibição e difusão da produção audiovisual
livre das restrições do copyright tradicional. A mostra pretende
reunir programas diversos e personalidades ligadas à Cultura Livre.

==+==

tv livre com patrocínio da petrobrás é ... livre mesmo?

==+==

usando e abusando de conceitos que não refletem essas práticas, a denominação "TV LIvre" pra este tipo de projeto descaracteriza vários anos de pensamento, inverte a relação de autonomia / independencia e desobediência, e muda o foco da ação política.

por essas e outras coisas deste tipo mais atrapalham do que ajudam no nosso trampo de tentar reverter certas tendências....

agora, apoio por apoio, prefiro manter as independencias dos conceitos que regem as práticas...

==+==

Acho que vocês deveria registrar a marca "Livre" no INPI!

==+==

O instituto nacional da propriedade industrial, como bem diz o nome não patenteia conceito, nem seria este o caso, o problema é que se vc passa um tempo da sua vida se preocupando com o azul p.e., e alguem vem te mostrando um vermelho e diz "olha que azul lindo esse que eu descobri...." vc se sente como se teu estudo e prática tivessem sido comprados por 30 dinheiros.....

as únicas experiência de TV LIvre ( e é esse o conceito de que se trata), que conheço atualmente não tem nada a ver com o que essa galera está chamando de TV livre, portanto, nos debrucemos sobre os conceitos e experiências, para podermos discuti-los, antes de apelarmos para a burocracia institucional que nda tem a ver com a discussão.

==+==

foda é ver os caras enchendo o rabo de dinheiro e ainda usando
mao de obra barata, ou de graça pra arrebanhar pessoas e seus conteudos.
aí os cabos eleitorais entram pra vanguarda da cultura livre e tá tudo certo....
agora na época dos barracos de pau lá pedreira onde é que eles estavam????

==+==

Ninguém aqui tah trampando numa comunidade rural autosuficiente pra dizer q é puro!! Só dizer q tah usando dinheiro de fulano oi sicrano, ou as estruturas da universidade X ou Y, se baneficiando de ser da classe social Z ou T é muito ralo para fazer a crítica de alguém ou algum trabalho.
Ainda não vi nada de mto grave pra ter tantas raivosidades da galera.
Mas não concordo com 2 coisas: falar em TV sem transmissão - melhor então cineclube livre, vídeo livre, etc
A exigência de tantos materiais de divulgação acompanhando o filme - se for só mandar, e podendo mandar em formatos simples, como VCD, ai eu mandaria tb o primeiro video da radio livre xibé aqui do amazonas... mas se complicar mto... sai do nosso nível
bjos q qjos

==+==

o pior é que só utilizam o termo tv livre devido a tudo aquilo que o
conceito e as experiências de tv livre estão ligadas! é perversidade,
pois é se apropriar de esforço e dedicação de várias pessoas que se
reunem e colaboram em busca de liberdade e autonomia e capitalizar em
cima disso. mas... é a lógica do jogo, a tag 'free' é a mais cara para
indexação no google.

==+==

Se não temos um movimento forte ou um coletivo consistente em torno de idéias e conceitos em comum, estas mesmas idéias vão ficar sempre a mercê de apropriações, deturpações, etc. E quem vai reclamar depois? Um ou outro em uma lista na internet? Um comentário em um blog? Um debate na praça? Isso vai mudar o que de fato? Vejam bem, não estou criticando nenhuma destas atitudes, apenas a sua praticidade, quando isso interessar a alguém. Estou levantando isso por que não vejo mais de duas pessoas concordando em nada relativo a Cultura Livre (nem mesmo a este nome). Seja aqui ou em outros ambientes.

==+==

Concordo inteiramente contigo. Acho que a crítica tem que ser
metódica, rigorosa e precisa, porque senão corre-se o risco de cair
num discurso facilitista de que "vale tudo". E aí o que vai valer as
boas intenções se os outros grupos dispõem de um discurso mais
coerente e articulado, ainda que baseado numa retórica falaciosa e
deturpadora. Veja-se a encenação do Lessig. Aquilo não é tudo fruto da
inspiração. Pelo contrário, o discurso dele é eficaz e cativante
porque é planeado e estudado - ele antecipa as possíveis objecções aos
argumentos dos adversários. A obsessão pela prática e pela técnica
leva a que muito pessoal hacker/artivista/activista descure a
importância de um fundamento teórico, um mínimo denominador comum de
ideias que dê uma sustentação conceptual ao seu projecto.

==+==

a discussão que se trava sobre tvlivre, há alguns anos, assim como
rádio livre, enfatiza uma ruptura estrutural, abrir a possibilidade de uma
outra utilização dos meios.

grupos de (poder) da comunicação (abraço, intervozes, amarc...), assim como
políticos em geral (minc) acreditam na função do conteúdo sobre as massas,
mantendo uma relação de poder entre locutor - ouvinte, tratando de imobilizar
as pessoas, pretendendo jogá-las de um lado a outro, como um pacote (enzensberger).
e é incrível como o projeto dos milico foi bem sucedido: a tv brasileira (preponderante
na criação da identidade) criou um mercado consumidor nacional e unificou um território gigante (heloisa buarque de almeida) com conteúdos produzidos pelas próprias
empresas, do rio e sp para o brasil!! mas com acesso GRÁTIS, ou FREE, como preferir.

o projeto contra-hegemônico (mais radical) dos grupos acima, salvo engano ou atualização, é ter seus próprios meios e/ou (para) disputar conteúdo. e assim se organiza tb esse festival: algum iluminado escolherá o conteúdo mais edificante, que tenha mais a cara da platéia,
que se conforme a ela. e tentará conquistar cada vez mais sua audiência (agora sob a forma LIVRE).

selecionar conteúdo significa censura, ou política editorial, como queira. o livre do qual tratamos está livre desse controle (ou é mesmo a luta contra o controle).

===+==

Uai, e como diz que vc entende por "nada" o que é TV Livre, se vc está propondo algumas características práticas do que é essa ação ? entendi que vc defende ser TV LIVRE mais ou menos o que vc descreveu certo ?
Produção de conteúdo independente, Veiculação irrestrita, Ausência de representatividade, distanciamento de meios comerciais....
então ! estamos começando a lapidar o conceito !! No email repassado pelo pixel, as características de um conceito para o que eles estão chamando de TV Livre não estão lá. Aliás se vc quiser olhar bem , poderíamos notar que "chamada de trabalhos" está do outro lado das idéias que citei. Tá na cara que o festival não começa com organicidade nem autonomia. Confunde - se ha algum tempo o que é radio livre por exemplo do que é web radio com conteudo diferenciado. É uma longa discussão, mas rádio livre, no meu entender, há que estar transmitindo, desobedecendo e discordando inclusive do véu da "cultura livre" que se espalha atualmente (é outra grande discussão). Assim como TV livre.... seria isso apenas "produção de conteúdo audiovisual com a marca de licensas permissivas ou alçternativas ao copyright" ??

==+==

Já parou pra pensar que o azul que você vê pode realmente não ser a mesma cor que outras pessoas enxergam? E quem vai definir o que é azul?

==+==

Velho, se eu defini o que é azul, sustento a minha posição sobre o que é azul, até que alguem me convença de que não é. E com certeza esse pessoal do Creative Commons, nesse ponto não vai me convencer..... muito cuidado com os relativismos...... ;)

==+==

money, money, money... is the root of all evil

tipo, o ip:// é um espaço que hj funciona de forma autonoma,
autogestionada e tem princípios de independencia. encaminhar uma
articulação - mesmo que ela possa sem proveitosa de várias formas - que
envolve pedido de financiamente para uma ong (ou pra qualquer outra coisa)
não é uma coisa que eu possa fazer sem falar com todo mundo do ip://.
agora que eu me toquei que essa ajuda de custo pra o local seria o ip://
recebendo grana diretamente dessa ong. e eu não concordo com isso.

nos coletivos de que eu participo, a gente tenta sempre fazer as coisas
com as nossas pernas. falta grana, é perrengue, as coisas às vezes não
acontecem como a gente quer, mas tudo o que a gente faz é mérito nosso, em
ações horizontais. não temos que agradecer nenhuma ong, que depois vai
usar o nome do nosso coletivo, do nosso movimento até, pra captar grana de
empresas e de governos.

talvez a gente possa investir agora em ações mais locais - que faltam
tanto - manter articulações via internet. sempre conseguimos nos articular
com pessoas de fora aproveitando viagens pessoais. tenho certeza que isso
pode dar certo com as meninas do genderchangers, mesmo que demore um pouco
mais.

==+==

o q rolou de novidade aí foi que somente recentemente foi sugerido q uma das residências fosse do genderchanges lah na lista do conselho do descentro. eu achei fodasso. apoiei e sigo pirando na idéia pq tanto o descentro como o metarec como vários outros grupos têm como maioria os garotos e conseguir fazê-los entender que grupos de mulheres como o g2g são importantes (pra nós e pra eles) e que uma das residências poderia ser focada na questão de gênero além da tecnologia eh sem dúvida um enorme passo pra igualdade e respeito mútuo.

tipo não eh q a gente tah indo pedir grana pra trazer gringo. a grana jah tá lah pra isso. se fosse isso tb acho mt mais logico - se os grupos envolvidos assim decidissem - e obvio pedir grana pra gente, pra fazer o intercâmbio entre o ip e o y rolar com mais frequencia, ou pra fazer encontros nossos - seja no corpus crisis, /etc-br, sei lah.

aí, talvez precipitadamente, sugeri pedirmos grana pro global fund for womyn, que deu uma ajuda pro ultimo /etc q rolou. pq realmente acho q seria uma pena não termos a presença de uma pá de mina no /etc-br por conta de grana de transporte. aí de fato penso grande mesmo de ter minas do g2g, mão na maquina, birosca, corpus crisis, as minas de recife e juntar essa mulherada mesmo pra construir as coisas junto.

como disse talvez tenha confundido um pouco as coisas quando falei de pedir grana. mas isso não tem a ver com a residência. soh continuo achando q da mesma forma q conseguimos q uma grinda dê uns rolés pelo brasil podemos conseguir que nós mesm@s façamos intercambios mt produtivos.

==+==

o midiatatica.org e o metareciclagem participam de uma plataforma de
cooperação internacional chamada plataforma sarai-waai
(http://www.midiatatica.org/plataforma). foi inclusive dessa plataforma
que surgiu o ip:// ou melhor, surgiu da pesquisa desencadeada por esta
plataforma..

nunca tivemos nenhum tipo de apoio diretamente ao espaço apenas a projetos
que se deram em lugares diversos como olinda (submidialogia), internet
(pub.descentro.org) e bh (cibersalão)

esse intercâmbio começou em 2004 quando uma pessoa do meta passou dois
meses na índia. agora ocorrerá o desdobramento disso: 1 holandês e 1
indiano virão para o brasil.

acontece que como vamos fazer o /etc sugeri que da holanda viesse uma
menina para participar daqui. isso já temos garantido (bem, garantido com
todos os imprevistos que podem ocorrer ne.. mas eles não costumam falhar).
fiz um orçamento que inclui as passagem e uma grana local tanto para o
espaço quanto para o residente. mas não precisa ser assim, tudo ainda é
uma proposta.. coloquei r$200 para cada espaço, ou seja, uma ajuda
simbólica - e sinceramente um cuidado que procurei especificamente ter
para com a sustentabilidade de cada espaço. o financiador é a fundação
waag, ong apoiada pelo governo holandês.

quanto ao global fund essa é uma ong que apoia especificamente projetos
com mulheres e tem apoiado o /etc internacional há alguns anos. temos que
discutir isso ainda, mas a proposta é que possamos conseguir apoio para o
deslocamento e alguma infra local, apenas.

entendo ambas propostas como apoios circunstanciais para a viabilização de
um evento e pessoalmente não vejo problema já que teremos autonomia nessa
relação - somos nós que a estabeleceremos. no entanto, entendo tua
preocupação para com ela e apoio qualquer movimento por decisão tomada
coletivamente..!

==+==

a minha questão é a participação do ip:// em uma articulação que envolve
financiamento. o ip:// existia antes de mim, quando a galera midiatática
tava aqui, atuante. eu não sei bem que tipo de princípios regia o
trabalho, gostaria de saber melhor. mas nessa rearticulação do espaço nós
definimos que ele seria independente, com autogestão direta. recebemos
doações, colocamos dinheiro do nosso bolso, vendemos cerveja, mas não
aceitamos financiamento. de vez em quando surge alguma discussão deste
tipo, eu mantenho minha posição (assim que a alguém da lista de manifestar
sobre esses emails, eu mando pra cá).

na minha opinião, precisamos de mais espaços onde a gente consiga escapar
da lógica como o dinheiro circula hj no mundo. precisamos de dinheiro para
fazer coisas? claro. mas precisamos de lugares pra respirar, para
reinventar o impertativo de que as coisas só acontecem assim, espaços que
se mantenham livres como um todo.

==+==

pra mim, o cyberfeminismo tem uma função importantíssima dentro do
feminismo: desonguização. o retome a technologia foi lindo por tudo, e foi
feito pelo desejo de fazer, pela vontade de mudar, e não porque tinha sido
previsto em algum projeto. (ou foi??? tive medo agora, rss. há alguma ong
que está fazendo agora um relatório sobre o sucesso da campanha, citando a
ação das minas de brasília, por exemplo, como adesão espontânea, e que vai
receber um super financiamento da unifem por isso???)

só mais uma coisa: eu não sou necessariamente contra ongs, acho que tem
várias que fazem coisas muito importantes. eu trabalhei no grupo transas
do corpo, em goiania, que eu respeito muitíssimo e conheço outros grupos
maravilhosos. mas as ongs têm problemas, assumidos ou não, crises éticas
fortes (as boas), e muitas têm ligações mais que estranhas com governos.

eu só não quero que elas tomem conta de tudo que é ação da sociedade.

==+==

vou chamar uma galera pra escrevermos um artigo sobre "porque manter
espaços sem vínculos institucionais". imagino que pra vc isso faça pouco
sentido agora, pq o nome do ip:// já tá na parada faz tempo, mas ainda
acho possível começar uma história diferente. mas a questão é complexa,
sutil. por email tá ruim de expressar, rs - até questão de tom. queria que
vc soubesse meu tom - que é um tom de preocupação, de dúvidas e de vontade
criativa, não destrutiva.

ando pensando muito nessas questões, tati, a partir de informações muito
novas pra mim. todo dia eu tenho um elemento novo para pensar sobre como
me posicionar a respeito delas, estou tentando contruir e desconstruir
conceitos, achar novas soluções, formas de reparo. seria ótimo pra mim
saber mais sobre estes tópicos e como avalia minhas posições, para além do
"precisamos encaminhar isso".

==+==

financiamento é um lance meio que bola de neve, e entra em relatorios de organizacoes x,y que vao servir de argumento em captacao de grana sabe-se lah onde.

nada vem de graça, uma grana na minha mao significa que ou eu ralei por isso ou um outro alguem mundo a fora.

eh diferente eu vender minha força de trabalho para uma instituicao e eu fazer o que quizer com isso de a instituicao financiar um projeto meu.

==+==

não tenho muita crise com waag ou sarai. não sei como são as
instituições por dentro.
mas já conhecemos algumas pessoas de lá, a maioria parece ser
honesto. e tudo que foi bancado com essa grana foi feito com autonomia
e possibilitaram muitas coisas.
submidialogia, cibersalão, e projetos antigos: autolabs, miditatica, etc.

acho esse pé atrás necessário, mas a crise desnecessária.
tipo: alguém já leu ou folheu o livro do sarai que eu deixei no ip://?
é um bom exemplo de onde os caras investem essa grana, uma pesquisa
muito interessante e bem feita.

tipo: até que ponto o submidialogia impulsionou essa retomada do
ip://? lembro docaetano lá falando com todo mundo de voltar pra lapa?
e aí? a waag patrocinou o ip:? não, porque o movimento rolou com
autonomia. o desejo era e é nosso.

==+==

tipo, a questão da $$, pegar grana é necessário, a gente não
pegou/roubou grana da une? grana suja? então... galera, acho que com
malandragem, sabedoria, dá pra pegar grana sim.
de ong, de governo, de caralho a quatro. e só manter os olhos abertos
e não dar bola pra institucionalização. não ver isso como meta. e isso
acho que já rola.

minha crise é com o seguinte:

sugamento de energia => o que o governo fez com muita sabedoria e o
que o claudio prado queria fazer com o ip://

apropriação de conceitos=> criei tive como, etc.

de resto, tem que viver e se arriscar. e sei que muitos nao conhecem
essa parceria waag/descentro, mas ela sempre foi de boa. sempre deu
pra fazer coisas legais. pelo menos eu que não sou muito in, sempre
tive essa impressão. pessoal das antigas pode falar mais sobre isso.

e acho que é besteira não fazer essa residência por causa disso.

quanto ao ip:// na mangueira, realmente foi um erro, uma tentativa
ingênua de hackear um governo e uma ong picareta. mas a gente vive e
aprende, né?

vamo aprender mais.

==+==

entao, tem de ver isso, discutir autonomia bancad@s pelo dinheiro da fundacao ligada ao governo holandes, meio caido, saca?

==+==

eu não tenho problemas com projetos. eu até quero participar de algum - me
chama? rss. mas eu achava que o ip:// era outra coisa. aqui o "como" deve
ser experimentado, inventado. concordo demais com vc, fazer merda não quer
dizer acabar com tudo, podemos testar formas. mas eu achava que algumas
formas estavam excluídas - e eu achava (não sozinha) que receber dinheiro
destinado de projeto estava entre elas.

a crise é mais que necessária, é vital!!!!
viva a crise!!! e que vivam as próximas.

por favor, gente, entendam meus argumentos como não-herméticos. estou me
despedaçando e quero pedaços novos de vocês em mim.

==+==

ois é, isso é muito confuso, cada um tem olhares diferentes em
relação a tudo como vc disse em outro email. talvez meu olhar pra essa
história seja porque sempre trabalhei com tati e ruix e outros com
essa grana, e sempre foi um trabalho massa, autônomo, que propunha
coisas novas pelas quais me apaixonei, inclusive a própria idéia do
ip://. e a relaçao com a grana nunca foi assim direta, intrinseca.
tipo "esse trabalho é pra essa ong."
é uma grana que vinha livre de amarras.

entendo que pra quem não tava ligado, quem não trampou nisso, essa
idéia pode ser um pouco assustadora. uma ong holandesa financiada pelo
governo holandês parece uma coisa do mal. mas tudo foi sempre
documentado, tá tudo no site do submidialogia, do descentro, etc.
nunca foi escondido e sempre foram projetos fodas, autônomos na sua
concepção e execução.

meu olhar pro cultura digital é totalmente outro, pq a experiência foi
outra, e talvez pessoas não entendam isso bem também.

tudo é muito sutil.

==+==

eu sei, tem razaão. mas é que as vezes parce que eu to em crise há
muitos anos. crises atrás de crises. as vezes me cansa um pouco e dá
vontade de botar a mão na massa e parar de pensar em tudo. viver no
caos é foda. tem que aprender a lidar com ele.

==+==

To be or not be, that's the question, but, uncle paulo, everyone wants to be

fala galera,

existem várias frentes do movimento de conhecimento livre
que esperam que a galera da casinha transforme-a num
espaço realmente autônomo (ou seja, não-dependente de
verbas de uma ou outras instituição em especial).

vocês têm algo em mente pra pagar as contas sem depender do minc?
vocês estão agregando metas de ação que extrapolem os pdC?

sentem que dificuldades nisso?

abração de sapo caolho

==++==

independente é sempre uma coisa relativa. se tem contas
a pagar, precisa ter alguém que pague, o que gera algum
nível de dependência, mesmo que seja de pessoas. o importante
acho que é autonomia, e a casinha tem potencial pra isso.
ela tem sediado umas articulações interessantes, e acho
que tem potencial pra continuar mesmo sem minc, mesmo
em outro lugar.

tipo, a casinha física é detalhe. a movimentação que tem
rolado por lá é que me interessa.

==+==

o que é uma relação de iguais? é todo mundo "se foder pra pagar o aluguel"?
eu vou pelo outro lado, acredito na articulação langlois pra ajudar a bancar
espaços. essa coisa de todo mundo fazer dinheiro no mundo e cortar um
pedaço pro corre coletivo tem um outro lado que me incomoda: se eu vou
pedir pro minc bancar o aluguel do IP, não rola. mas se eu trampo pra uma
agencia de publicidade, ganho 10 paus por mês e colaboro com 500 contos,
é capaz de ser visto como mártir da autonomia.

==+==

o ip:// começou sem nada, com equipamento pessoal e alguns móveis achados
na rua. achei o recibo hoje de três meses que pagamos adiantado depois do
digitofagia rio, ele data de 8 de outubro de 2004 e tem como signatários
tatiana e ruiz.

em 2005 me mudei para o rio grande do norte. ricardo ficou por lá até
2006, anos em que muitos de seus integrantes passaram a colaborar com
projetos do governo de forma mais direta. dos 4 primeiros - eu, ruiz,
djahjah e romano - absolutamente todos passaram por isso, e posteriormente
largaram o espaço ou o .gov. ao mesmo tempo novas pessoas aproximaram-se,
de coletivos que considero importantes como S.O.M., rádio pulga e cmi,
sinceramente acho isso foda, fico muito feliz.. e não posso negar que
sinto muito orgulho de ler que hoje ele é esse delicioso espaço que a
marília descreveu, que mais do que busca exerce a auto-gestão. ainda com
muitos problemas aprofundados como comprometimento, assunto que está sendo
hoje discutido na lista // eu já acho que é um lance local da galera do
rio e gostaria de saber como isso acontece em outros espaços como o
ystilingue..?// mas que acaba sendo discutido todo mês justamente pelo
*pagar contas*..

pessoalmente, eu não acho que teria problemas em aceitar apoio financeiro
circusntancial, se for para desenvolver um trabalho. até pq trabalho assim
há 4 anos. sempre tive que ter meu trabalho paralelo para me manter. faço
isso sem crises e nunca deixei de trabalhar com mais afinco no
independente.

mas estamos aqui falando da proposta de labs, e esses espaços já existem,
são autônomos e dizem que não é financiamento que precisam. e oras, a
ideologia da autonomia é a mesma do SL - que se baseia numa idéia comum,
clara, pragmática, voluntária, cooperativa, pós-política e atemporal que é
a liberdade. e liberdade só é criada com desaprisionamento. e é exatamente
o que ocorreu com o saravá.. esses espaços/projetos já funcionam e tão
fazendo um puta trampo! na verdade somos nós que precisamos dos espaços
não eles da gente!

e sim, já tivemos algumas idéias, como o spacebank, que foi feito pensando
nisso, num *lavar dinheiro* simbólico. pois não podemos negar que por
nosso trabalho pessoal e coletivo em muitos níveis nos dá cada vez mais
acesso a esse bolo, mesmo que ainda não tenha comido pessoalmente nada
dele e que meus amig@s alertem estar envenenado..

mas e agora? contruimos um novo mundo sozinhos pois sabemo-nos
auto-suficientes ou hackeamos o hackeador que sabemos hackear-nos? vamos
tentar nos ater a olhar para o presente e para o passado pra responder
estas respostas..

==+==

Trocando em miúdos: Todxs na casinha estariam dispostos a não serem o referencial de equipe a trabalho de pontos de cultura? Estariam todxs na casinha dispostos a trocarem o papel de meninos do cláudio prado para um grupo em colaboracao, principalmete, com outros grupos?

Penso, sinceramente, que o espaćo físico, em sao paulo, nao se mostra mais um problema. Mas, estariam dispostas as pessoas a se locomoverem de vila madalena até o pombas urbanas, se fosse só este o espaćo que restasse?

Mais uma vez, acho que vale, sim, pensar nos projetos de captacao de recursos para espacos, com langlois ou quem for, mas acho que vale pensar mais ainda no para que vamos usar esse apoio. Para inflar carreiras políticas, nossas ou adversas?

Estariam os frequentadores da casinha dispostos a aprender com os Ratos de Porão, e, tornarem-se um pouco ratos no porão também?

Autonomia vem da independencia: nao monetaria, mas ideologica e principalmente psicológica. Autonomos são os que percebem que hippies velhos, donos de fogoes importados, burgueses arrependidxs são mais um na multidão, e talvez contra esses formatos mesquinhos caminham nossas multitudes autonomas. Passando por eles, e não dependendo deles

==+==

acho que pra sermos autônomxs temos de
nos tratar autonomamente.

casinha é tag. descentro é tag.
sei (ouvi delxs) que tem uns lá querendo escolher
suas responsabilidades pessoal e coletivamente
sem depender de devoradores de impostos
ou traficantes de vícios. assim como aqui,
na presidência do haiti, na padaria ou
na igreja batista da minha mãe. só que é
um passo mais ou menos complicado pra
um e pra outro. tá na tribo ou só os fortes
sobrevivem? compaixão é demodé?

enfim, acho muito fácil alimentar a eterna
chama da rivalização, já que ninguém é
perfeito e o tempo é curto pra gente
se conhecer melhor. guerra (mais uma)
mesmo assim?

tô viajando ou é sempre "separar para juntar"?

==+==

como é a segunda pessoa que fala que estive *armada* ou *autoritária*
quero dizer que essa não foi a intenção. estou em crise também oras! na
lista do ip:// criticada por não ser libertária, aqui criticada por
ponderar os termos em que a busca de autonomia é feita. tudo que falo é
portanto um sintoma disso. de que não tenho (temos) princípios claros e
coesos. percebo sim que procuramos uma mudança, senão não gastaria meu
tempo aqui, mas sem deixar de notar que muitas vezes usamos os mesmos
paradigmas que criticamos, q não conseguimos nos articular com os
diferentes caminhos que existem, que co-existem e que têm aparentemente
os mesmos objetivos. precisamos de estratégias para não nos afastar das
pessoas e comunidades de onde nós mesmos surgimos.

nunca coloquei uma cerca como vc falou cris que separa os de dentro e os
de fora, não há julgamento de bom ou ruim, certo ou errado, sp ou rio de
janeiro! foi em teresina que ouvi do mhhob que não queriam publicar no
EL e que havia uma pressão prá isso. é uma questão que lido no dia-a-dia
do meu trabalho quando evito citar o nome do projeto em que trabalho nas
oficinas que dou.

==+==

Caderno Submidiático #3 - Vizinhanças: Deli e Acre

segundo dia de Submidialogia, 29 de outubro de 2005 :: manhã :: Oxalá Shiva! Bia Monica Slave (cadê vc? - por favor contribua!) & :: tarde :: Populações diferentes e tecnologias similares Chico Augusto Roxo Caburé

Acre

Como a cultura - práxis diversa e única - se situa perante a unidade dos mecanismos e formas de transmissão de conteúdo? Brasil significa práticas e vidas diferentes e modos -improvisos de sobreviver. As tecnologias proporcionam o quê, potencializam o quê e atrofiam o quê, quando relacionadas a culturas específicas e como trabalhar com isso?

Augusto:
-... é assim é ante meio surreal pra gente. Até quando eu falei para eles qual era o assunto eles ficaram meio confusos de porque eles estariam vindo para uma reunião como essa sobre submidiologia. É meio complexo o nome, o pessoal, eles são das reservas ativistas do alto Chuá, no oeste do estado do Acre, e a gente trabalha juntos há mais ou menos uns dez anos, eles trabalham até há um pouco antes do que eu lá no projeto de monitoramento sócio-ambiental da região, que na verdade, este nome monitoramento sócio-ambiental, o que se consegue com este trabalho é muito mais do que isso, o que a gente está tentando fazer lá é um diálogo entre duas formas diferentes de conhecer as coisas e uma forma de produzir o conhecimento com vários instrumentos; livros, diálogos, teses de doutorado, visitas, conversas... Enfim, vários tipos de produções, de publicações e que a gente tenta colocar o resultado de uma experiência de convício entre duas formas de conhecer. Então, no fim das contas, a nossa estada lá, o nosso diálogo, ele tem por objetivo produzir um conhecimento hibrido a partir de duas formas de conhecer muito distintas que é uma forma acadêmica e uma forma de conhecer que é próprio dos seringueiros dessa região. E como que isso aconteceu? Isso aconteceu quase que por acaso esse inicio deste trabalho e olha que acho que tem muito a ver com o que a Mônica e o pessoal do Sarai está colocando. Acho que quando eu perguntei o que que quer dizer aquele termo indiano Gohala, eu estava preocupado justamente em entender como que eles estavam... porque que este termo vizinhança estava lá, porque existe um termos equivalente na reserva e que para mim é um exemplo de uma rede já feita, para mim é um exemplo de coisas que já acontecem e que as redes, elas tem que estar situadas e .... se a gente está pensando em conectar pessoas,a gente tem quem parar um pouco, o computador vem depois. Da pra fazer isso com outros meios e, esse negócio, essa maquinaria toda que está aqui, que está tomando um espaço grande na reunião, ela está ai para potencializar essas coisas e não para reduzir essas coisas, não para reduzir essas relações. Então, o que eu quero com a vinda deles aqui é que eles, o Caburé e o Goxo, vão falar um pouco desta experiência de convívio, porque eu acho os dois, entre as 50 pessoas mais ou menos que a gente conviveu fazendo este monitoramento sócio-ambiental, os dois são pioneiros nesta atividade, o que na verdade significa ser pioneiro em um diálogo permanente entre pesquisador acadêmico e pesquisador local, moradores da reserva de ativistas, que hoje estão se formando com os pesquisadores e que publicaram junto com a gente dois livros, vários na verdade, mas dois livros literários, de caráter mais literário, que um é As está história de matuto da floresta de comunicação do Caburé, e este aqui que é A mitologia dos escritores da floresta, que é um compendio de vários escritos que estão presentes nesta metodologia que a gente usou que é das pessoas da reserva, mais de 50 moradores, qual que é a comunicacão que eles tem com a gente? São diários que eles anotam cotidianamente aspectos da vida deles. Então, na verdade, a gente começou pedindo que eles anotassem... o Goxo vai explicar melhor porque ele foi o primeiro monitor. Mas, aspectos da vida, por exemplo, sobre a atividade de caça, sobre a alimentação... só que esses diários nunca ficaram presos à regras, a gente nunca chegou lá e falou “escrevam sobre isso”, a gente dava um tema e as pessoas começavam a escrever e na nossa ausência, criativamente, as pessoas começaram a escrever outras coisas: poesia, fazer relatos sobre sonhos... e essa produção, resultado deste diálogo a gente tentou colocar, primeiramente, nesta forma de livro. Então, na minha cabeça, o que que esses caras vem fazer aqui? Eu vim aqui brigar por uma antena do Gesac, mas essa não é a questão. A questão que eu acho que está se colocando aqui é esse conhecimento, esta reprodução... colocar na mídia o conhecimento significa respeitar outras formas de conhecer, como essas outras forma de conhecer conseguem organizar o seu pensamento não sendo em livros, não sendo em páginas na verdade, mas pode ser. Agora, eu acho que p essencial é não chegar com projetos prontos, é partir do pressuposto que construção do conhecimento é diálogo entre diferenças e é isso que a gente está tentando fazer. Então eu vou passar a palavra talvez aqui para o Roxo que está mais perto.

Roxo:
- Boa tarde todo mundo. Como seringueiro e índio hoje eu estou aqui muito satisfeito com o que está acontecendo hoje. Quando a gente conheceu esse pessoal da Unicamp, primeiro o doutor Mauro, né? Então a minha experiência foi de aprender uma coisa que eu nunca chegava algum dia imaginar chegar lá, eu vou participar de um convite feito pelo Chico e feito pelo Pajé. Então, o que eu acho que está acontecendo aqui que é uma coisa muito importante mesmo, muito bonita que eu to achando que o que a gente ta falando aqui hoje quase não tem nenhuma diferença com o que a gente convive. É muito bonito a pessoa vir aqui e trocar idéia do que a gente é, do conhecimento que a pessoa vive, de nascer em um lugar e chegar, sem ter contato com escola, ele conseguir levar uma informação não só para o Brasil mas para o mundo inteiro que é esse livro que igualmente a uma internet. Então, isso eu acho muito bonito e eu to vendo que é isso que o Pajé e o Chico está discutindo aqui, então com as idéias minhas e as de várias pessoas aqui é que vão chegar no que se chama de planeta terra de ter outras comunicações muito importantes... e pra mim é isso! Muito obrigado!

Peje:-Achei que você ia falar do igarapé lá, da imagem do igarapé como um fluxo.

Roxo: É que é muito pouco tempo...

Caburé:
- Boa tarde a todos vocês.
A gente está aqui a convite do companheiro Augusto que está sempre na reserva, com o trabalho de pesquisador. E a gente que fazia o papel de fazer diário, escrever diário, fazia o papel de monitoramento. Então, o que eu percebi nestes dois dias já de palestra é que o povo quer formar uma rede de comunicação até os últimos pontos mais distantes do nosso país. Esse nosso Brasil ele é cheio de riquezas, ele é cheio de novidades, mas eu fico separando ele assim em quase três partes: uma parte ele chega com tudo, chega com comunicação, chega com transporte, chega com o que tem feito para a população; na outra parte já chega mais ou menos esse tipo de coisa e na outra já não chega nada disso que é o ponto mais isolado, que exatamente foi o que a gente nasceu, o que a gente criou-se, fora de escola, fora de muitos tipos de comunicação e de desenvolvimento. Então, a gente, quando se encontra num meio desse que está ouvindo são os professores e os alunos da universidade, e a gente fica lá, nascido e criado no meio da mata... quer dizer, sabe falar, mas não sabe conversar. Então a gente fica, como se dizem, em um beco sem saída né? Fico como sem saber explicar o que é que a gente sente, o que é que a gente faz para esse povo.
Muito obrigado

Pajé: algum comentário ou pergunta que alguém gostaria de fazer para o Caburé e o Roxo?

Deli

Como é possível operacionalizar e quais os caminhos a serem percorridos em um plano de colaboração entre os países do sul? E seriam só os países do sul?

Mônica Narula - Sarai
Fernado Henrique / xsl4v3 - Metareciclagem
Bia - Metareciclagem

Bia:
- Isso tudo é verdade mas e ai? E ai? Então a gente fala puxa vamos lá mas não tem nada a ver a gente por que eles vivem uma realidade diferente.
Então quando eu falo isso eu procuro tentar ver, as diferenças que a gente tem, as diferenças culturais, as posições que eles tem nos projetos deles, que são muito específicos, não vai adiantar a gente tentar transportar o cybermohala pra cá que não vai funcionar, não vai mesmo. Mas tenta entende...

58:28 O SOM PAROU DE FUNCIONAR..

Voltou a funcionar 1:08:00

Continuação de uma fala do Ale:
-Ele está perguntando da pessoa juridica que está por trás disso, se é um instituto de pesquisa?

Mônica: Sim!! Sarai e Cybermohalla começaram ao mesmo tempo. E quando começou foi dizendo que existe sempre na imaginação de países como Brasil e Índia, eu imagino, você tem que pensar COMO o país, voc deve fazer as coisas para o seu país e por aí vai. E falamos que o sarai não seria isso porque acreditamos em conversas, pesquisa, em fazer coisas, e que essas coisas são uma forma importante de interferir na sociedade, não é apenas importante o que estamos fazendo aqui no mundo, claro que isso é importante, mas igualmente importante é o mundo da mente, e o mundo do compartilhamento eo mundo da criatividade, então sarai começo totalmente com essa imaginação, e cibermohalla é parte disso, então não é uma coisa separada. Então o domínio público foi uma categoria importante sobre o nosso papel em vida, como nos encontramos e compartilhamos as coisas, e a reprodução dos bens materiais. É um grande espectro e esse espectro é contínuo.

Cara da PUC-SP:
Pelas falas deu pra pegar que há diferença entre o escopo social no Brasil e na Índia. Mas como a Bia falou não dá pra ficar “ai nos somos mais violentos, somos menos violentos” Acho que a coisa do consumo também. Como ela mesmo falou é uma coisa que demandou um tempo, não apareceu logo de cara: quer dizer, as pessoas vão construindo isso só que... teve uma coisa na fala dela que eu achei muito bacana que o foi o momento que ela falou da coragem para falar e também da coragem para ouvir, que acho que o que falta talvez aqui é a coisa da coragem; das pessoas tomarem esses projetos, esses empreendimentos, seja lá o que for, e não abandonar, porque é fácil falar que neguinho vai lá com uma perspectiva de que quer comprar um tênis ou de que aqui o corpo social é mais violento, não sei o que; só que as pessoas que começam a trabalhar com isso elas perdem essa perspectiva de que isso é uma coisa micro, feita no local, na comunidade e, pensam sempre o poder de uma forma genérica. Então tem uma perspectiva do poder sempre descendente e não ascendente de que todos são produtores e difusores e retransmissores de poder. Então a gente abandona essa tabulação micro, começa a pensar o macro e no macro tem o estado. Então uma boa parte das pessoas que trabalham com isso, ou vão para o estado e ai acaba esvaziando essa ação, esta atuação no micro, ou então vão para a corporação e esvaziam essa ação no micro. Então acho que falta... não sei, a coisa da coragem pra mim é de encarar e tocar realmente essa coisa mesmo no micro. Porque este tipo de ação é uma ação assim: você está criando espaço de sociabilidade, entendeu? E que é pra ele... não tem muito... No final o Vitor falou uma coisa bacana também, mas eu só quero completar com isso: de que este recorte que ela falou da coragem de falar e de ouvir é essencial, até porque quando você está sentado com a molecada você vai ouvir um monte coisas que você não quer ouvir e eles também tem essa coragem de ouvir o que você tem a dizer para eles, e sempre de uma maneira todo mundo igual, não sou eu que estou levando a política ou... ta todo mundo ali sentado no tapete conversando de igual para igual, e todo mundo tem que estar disposto a ouvir também. Acho que é mais ou menos por ai...

Ale:
-Eu queria fazer uma pergunta para Mônica e depois uma pergunta para Bia.
A minha pergunta para a Mônica é: eu acho muito interessante a idéia deste espaço e eu queria entender ele um pouco melhor, porque as pessoas vão lá pelo seu próprio interesse não estão recebendo... não sei se a maioria dos jovens. Mas vocês dois no caso estavam recebendo né? Tinham bolsa e tal... então vocês dois lá, não é que vocês estavam recebendo pelo que vocês estavam fazendo lá, mas vocês estavam podendo ficar lá; tinha lugar pra ficar, tinha o que comer, e tal... então isso foi uma ajuda que de alguma maneira chegou e que eu queria saber da posição de vocês ali se as outras pessoas também tinham algum auxílio para estar lá e eu queria saber da Mônica se tem gente que recebe para estar lá, para fazer, engajar nessas conversas, começar a pegar o menino que ficou três dias jogando no KDE e falar: “ E ai? Mas quando a sua sombra bate no fotografo, a imagem é de quem? É sua, é dele é outra imagem, né?
Enfim, eu queria entender o espaço em si, o espaço físico; ele é de quem? É um espaço público? É a casa de um brother que abriu? É um lugar que foi ocupado, ou foi comprado, ou paga aluguel, né? Ir no cybermooha? E tipo: como você chega em um investidor e diz “então, o que importa são as idéias por trás, me dá a grana” e eles dão... eu quero fazer isso também.

Mônica:
Como eu disse no começo isso foi uma colaboração com a Ankur, essa instituição que já vem há 15 anos trabalhando com educação alternativa, trabalhando nessa vizinhança por um longo período de tempo, então foi possível para nós começar com essa confiança, porque eles conheciam as pessoas que passavam muito tempo ali, confiavam nelas. A coisa mais imporatnte é a confiança.

Mônica:
Cybermohala é uma colaboração entre Sarai e Ankur, que vem trabalhado com educação nunca com tecnologia antes, não era sua párea de atuação, e sim pedagogia alternativa, então quando iniciamos essa conversa fomos a Ankur e dissemos que pesquisaríamos a possibilidade de usar a tecbologia como ponto de partida para a reflexão e a criatividade. E eles disseram, vamos tentar esse experimento, nunca fizemos antes. Então eles tinha,m nessa vizinhança, o que é uma favela acho, um busti (outra palavra para favela em hindi) no meio da cidade, onde havia um pequeno centro comunitário, eu acho a sala do cybermohalla muito pequena. É como um centro muito grande que havia naquela vizinhança por um logo período de tempo. Saibam que quando eu ando pelo Brasil eu vejo o que é chamado de periferia, até as favelas, e acho que elas parecem muito abertas e claras, porque as de Delhi são muito mais apertadas, as ruas são muito estreitas, a área é toda sucateada..

Mônica:
Então levantamos dinheiro para instalar os laboratórios e pessoas da Ankur nos deram o espaço. Nesse começo pessoas da Ankur foram à vizinhança e disseram, alguém quer se juntar a esse experimento, quer tentar usar um computador? Nós iremos falar e escrever, então no começo fizemos um mês de oficinas no Sarai, todos que trabalhávamos juntos olhávamos para fotos, então por exemplo o tema áudio. É muito fácil dizer olha aqui está um microfone, aqui está um gravador, por favor vá para a rua e grave sons. O que fizemos em um mês foi: vamos falar sobre ouvir. Vamos escrever o que ouvimos, vamos prestar atenção no que ouvimos. Gravar é a parte fácil. Todos podem gravar, mas a questão é: o que você pode ouvir numa gravação? Então foi assim que trabalhamos, gastamos um período longo conversando sobre isso, escrevendo sobre isso. Então se você olhar para os textos no primeiro livro verá que serão muito sobre os sons, porque as pessoas pensam "olha, eu posso ouvir isso, nunca tinha me tocado, a noite em minha vizinhança, eu consigo ouvir esse som, eu consigo ouvir aquele som" e quando eu ouço um som, quais são as histórias por trás daquele som, o que diz da cidade, da minha vizinhança, que aquel som está lá as duas da manhã. Então é assim que começamos, que esse som está lá as duas da manhã. Então foi assim que começamos, e no começo ninguém era pago, todos vinham voluntariamente. Mas depois de algumas pessoas gastarem um longo tempo ali e pegarem para si responsabilidades para regular o espaço ou manter o arquivo ou se certificar que as coisas corriam propriamente. Para essas pessoas é como um trabalho porque gastam tanto de seu tempo ali depois de o frequentarem por 2 ou 3 anos, que são pagos um pequeno salário, e as crianças adolescentes também, um salário que gastam para dar continuidade ali. Nem todos são pagos, apenas algumas pessoas que tomaram responsabilidade são pagas.

Caderno Submidiático #4 - Redes e Rizomas

Referente à discussão sobre populações diferentes e tecnologias similares do submidialogia #1, no dia 29 de outubro de 2005.

NO MEIO DA FALA: NO SENTIDO DE QUERER MELHORAR AS COISAS

Desobediência civil (Por Desobediência Civil)

O que o Maluf faz também é uma desobediência civil. O que o Lalau faz é desobediência civil. O objetivo é outro.
O que caracteriza o que está por trás? O objetivo que está por trás daquilo.
Desobediência civil é uma das ferramentas possíveis assim como tecnologiA é uma das ferramentas possíveis, assim como outras coisas.

DISCUSSÃO DO QUE É, DO QUE NÃO É.

É uma puta oportunidade da gente tentar pensar em atuar melhor em rede! Porque todo mundo sabe que é importante, só que a gente nunca conseguiu fazer direito com que esses grupos, todos eles conseguissem trocar coisas. Não uma coisa pensando em enriquecer cada um dos projetos, mas dum modo de a gente pegar o que a gente faz em comum, por exemplo, documentação.

Porra, cada um faz a documentação do seu projeto e , de repente aquilo fica restrito em um lugar e um outro cara de um outro projeto que precisa daquilo de repente olha o que um outro cara fez mas está em um formato para aquele projeto, não existe um formato comum de documentação.

É o momento certo da gente aproveitar e tentar encaixar esse tipo de coisa. Pegar o que é comum de todos os projetos, o que serve em comum e tentar colocar em um lugar.

PORQUE REDE

A gente não precisa de mais um portal, a gente não precisa de mais uma lista de discussão, a gente já tem tudo. O que a gente precisa saber é como se organizar para essas coisas saírem.

TRANSMITIDO PELO RADIOLIVRE.ORG - PORTAL DE TROCA DE INFORMAÇÃO DE RIZOMA DA REDE RÁDIO LIVRE

Vamos pegar o exemplo da rádio livre mesmo.
O movimento de rádio livre sempre foi meio solto e é bom que seja assim meio solto. Mas de certa forma o movimento de rádio livre depois que pintou o portal e começaram a fazer os encontros deu uma pilhada maior. Tá ligado? Então beleza.

(Então daí é o pause 1)
E vira assim e : como pode.

Eu também já cansei de concordar e discordar.
Sugestões assim.
Sugestões mesmo tipo pilhando em rádio livre, pirando em CMI.
E pirando em sugestões.
Mas quem quiser discordar e destoar está valendo tudo.
(Volta a concordar e você destoa.)

O CMI E A RÁDIO LIVRE

Elas são duas redes também, só que elas operam de formas completamente diferentes. O CMI, ele tem uma certa burocracia, ele exige que exista uma mutua confiança entre coletivos, ele pressupõe uma tomada de decisões, então existe a sua autonomia local como coletivo; eu posso fazer o que eu quiser desde que a minha decisão seja local, se eu quiser fazer alguma coisa que não seja só local eu tenho que pedir autorização para uma rede. Isso é uma rede bem monolítica, SÓ QUE PARA O CMI FUNCIONA MUITO BEM! Eu acho que não é exatamente o tipo de rede que a gente está buscando e que eu gostaria de propor, que é mais parecido com o rizoma de rádios livres, porque no caso do CMI existe o CMI aí depois surge um coletivo que quer entrar no CMI. No caso do rádio livre e de todos os nossos projetos, os projetos da gente já existem. Então a gente quer criar a rede depois de os projetos já existirem, então a gente não vai ter tomada de decisão, a gente não vai ter, de repente, nem consenso, de repente a rede em termos de trocas. A proposta da rede de rádios livres é de uma rede de trocas. No radiolivre.org a gente nunca conseguiu decidir nada, se o portal vai ser assim, assado, o que que vai estar lá, quem vai ter direito a transmitir. É sempre uma coisa pessoal. É bem esse tipo de rede que eu acho interessante; do cara chegar e falar: “Arranja lá pra gente transmitir” A gente faz isso.
Você tem uma camada estrutural, que é, por exemplo, o servidor, que é uma infra-estrutura comum, que é um poder a ser distribuído. E a rede em si ela está acima, é uma camada lógica de você pegar esses recursos e distribuir para todo mundo. Então é tipo uma rede que não precisa ter um estatuto, ter uma diretriz, a gente não precisa tirar nada.

NOSSO OBJETIVO É ESSE: A REDE É REDE!

(É um meio por onde passa as informações de você contar para um nó que está interessado em fazer o que você quer.)

Um lance da grande mídia assim é que a troca pode ser...
Lógico que compartilhamento de conhecimento também...
No sentido de você formar pessoas em habilidades que você domine...
E que elas precisem...
Partindo para um entendimento...
Que muita gente fica atrelando a elementos de fora...
Quando na verdade a gente tem esta coisa bem clara...
Deste tipo de funcionamento horizontal aqui dentro do Brasil...
Os índios tinham velho...
Quando um cara tinha um conhecimento ele era o Paje...
O cara que tinha outro conhecimento era o guerreiro...
O cara que tinha outro conhecimento era não sei o q...
E todo mundo trabalhava pouco...
Todo mundo vivia bem...
E todo mundo estava tranqüilo...
Só agora eu queria!

A FALA DO ESPIRITO SANTO

Eu estou cansado de ser a diferença
e acabar reduzido a semelhança
no meio de tanta diferença.

Eu vim pra cá como professor também. Que é uma coisa que dá um conflito de discussão enorme e que eu acho que há um desgaste brutal. Se vocês pensarem que toda a população brasileira precisa passar por dentro de uma escola e que quem controla a escola -eu sou um professor, estive dentro, sei mais ou menos como funciona-, quem manda em uma escola são os diretores e os professores que estão ali articulados. São seres humanos que as pessoas podem abordar, podem conhecer, podem dialogar, isso é bastante possível. E aí a gente fica nesta história de abstrair o país em diversas direções, ou de singularizar demais, eu acho que, de repente, uma das questões para se colocar aqui: que é, por exemplo, nós estamos desde ontem discutindo que não queremos discutir um instrumento de tecnologiA. Não quero discutir o cabo, não quero discutir a rede. Mas, todos os exemplos oscilam em cima disso, porquê? Porque a gente ainda não achou uma outra maneira de discussão, outros jargões, outras disciplinas para poder olhar para a mesma coisa e poder falar dela de diversos ângulos. Não vai ter uma reunião que vai ter 100% dos presentes interessados na mesma forma de discutir, acho que ta todo mundo plenamente consciente disso.
Voltando a questão de se pensar um pouco como diferença dentro desse conjunto todo. Ontem consegui bater papo com gente pra caramba, de lugares pra caramba. Todo mundo fazendo alguma coisa, mesmo o que parece maluquice é interessante, sempre tem o cara que você fala “pô, o cara pode ter não achado a veia ainda mas está brigando por alguma coisa”. E na hora que as pessoas começam a se manifestar notam-se as diferenças e se diferença fosse alguma coisa resolvida o Brasil era um país resolvido. A gente sabe que dentro deste espaço que a gente está aqui, está cheio de diferenças, se tiver 100 pessoas aqui, tem 100 espaços de diferenças. Então a história do ouvir, que foi falado hoje de manhã, pô, sacar o cara falando, qual é a freqüência que ele está falando, em que direção ele está falando, sem parecer um inimigo. Eu sou um professor, tive que me acostumar a ver as pessoas desta maneira, o cara entra na sala de aula, ele pode falar a besteira que ele quiser, eu tenho que ouvir o cara e não ficar puto com ele. Então, eu acho que isso precisa ser absorvido por mais gente, mais gente precisa de paciência para fazer isso, então a gente precisa estar aqui caminhando nesta direção.
É necessário sentar e fazer planejamento, me desculpem. Acho que esse negócio de sentar e fazer gera uma série de ansiedades, ansiedades geram tensões e as pessoas se colocam em situação de instabilidade. Planejar não é nenhum grande absurdo. A grande questão é que o modelo tradicional de planejamento, como já falaram ontem, está baseada na tal da mecânica newtoniana. Então quer dizer, o cara senta lá, da graduação até o doutorado, ele aprende a formatar um projeto,a fazer uma antecipação de alguma coisa usando uma lógica que a gente sabe que é furada. Que outras maneiras que eu tenho de representar a projeção das coisas se não for este modelo? Quem tem um disponível? Vamos sentar, vamos conversar um pouco sobre isso.

E o que a gente chama de técnica, para retomar um ponto aqui que é esta história da rede, a gente está falando sobre instrumentos, aparelhos, modalidade de tecnologiA específicas, mas o que que é técnica? A gente preparou um dia para discutir. Passamos duas, três horas tentando negociar para a gente uma definição do que que é técnica, o que que é tecnologiA. Mas, de uma coisa que vá do mais concreto ao mais abstrato, porque daí você consegue pegar todo o raio de ação daquele fenômeno que esta acontecendo. Então , para mim tecnica hoje, quer dizer eu sou uma população diferente que tem uma tecnologiA similar. TecnologiA pra mim, tentando chegar o mais próximo possível de filosofia, sem querer complicar, sem querer evocar uma discussão pesada, é um controle sobre um processo. TecnologiA é apenas isso. Então a informática faz isso em um nível; fazer um tacape para matar alguém com uma porrada faz isso. A técnica está ali nas duas coisas, só que a técnica vem de onde? Ela vem da observação do mundo natural, você faz metáforas de coisas importantes aí: a metáfora da biologia, a metáfora da física. Para isso as pessoas estão aprendendo essas metáforas. Os cientistas originalmente observam a natureza para poder entender como o pensamento espelha a natureza. A gente perdeu um pouco esta noção, a histórias de pensar a era moderna, como funciona a modernidade,a gente fica tentando ver que não afeta a nossa cabeça e afeta. Ficaram ai 100 anos inventando o consciente e o inconsciente, quais são os níveis de consciente e quais são os níveis de inconsciente.
A tecnologiA está manipulando isso, ela está agindo sobre isso, a gente não está parando para criar discursos sobre isso. Sobre o que não se fala não se pode entender, se não se falar de uma coisa ela não se torna visível. Então a gente tem processo físico e processo simbólico. O processo físico é o recurso finito, o recurso natural; o processo simbólico é o processo infinito. Se eu quero metareciclar as coisas, se eu quero inventar as coisas eu quero criar uma infinidade de coisas.

ONDE É QUE ESTÁ A NATUREZA
NESTA CRIAÇÃO DO INFINITO?

Não é naquilo que a gente chama de propriedade privada, são limitados, são finitos. Onde é que a gente explora isso? Deve ter uns quinhentos mil livros na biblioteca da UNICAMP. Sentar, fazer listas de livros, listas de textos, catar onde é que tem coisa na internet e botar na mão das pessoas; traduzir o que precisa jogar ai nas escolas. Não se gasta dinheiro, o orçamento para educação é um orçamento monstruoso. Gasta-se dinheiro com isso, não se pode deixar de gastar, a gente tem que fazer guerrilha lá dentro. Lá dentro que você tem que entrar; agora, como que se entra lá dentro e não sai ferido? Eu não sou um homem-bomba, eu não vou entrar explodindo em lugar nenhum.

Agora pra isso precisa de mapa na mão, precisa de agenda na mão, precisa de quadro, precisa de mural, precisa de lista de discussão. Este é o caminho que acho que vocês dominam tranquilamente, as pessoas se mobilizam, se deslocam 50, 100, 200 pessoas. Mas o que que você imprime do lugar que você ficou? Vocês ficam três dias na UNICAMP. Agente imprimiu alguma coisa de fato aqui? A gente vai voltar para imprimir alguma coisa aqui? Vai ser outro grupo que vai ter aqui? A gente não pode ter vergonha de pensar esse tipo de coisa não. Eu acho inclusive que dá pra tirar coisas comuns, interesses comuns. E eu não acho que a gente precisa de planejamento, um mapa, um não sei o q. De repente uma lista. Eu acho que o que a gente tem que investir é uma rede, que uma rede ad-hoc, assim, ela se faz. Só um adendo: é a coisa do ajuste mesmo.

VOCÊ QUER , POR EXEMPLO, PEGAR UMA TECNOLOGIA
SIMILAR A ESSA QUE VOCÊ ESTÁ USANDO
E USAR ISSO EM REDE, SABER COMO É QUE USA?

A gente não precisa de planejamento para uma rede que é troca de informação.
Só isso, entendeu?

Para o seu projeto sim, você planeja e tal. Agora para uma rede mesmo, de repente, é só a gente se organizar para como uma pessoa acha a outra ou como um conhecimento pode ser achado facilmente. Por isso um formato comum de documentação. Você vai escrever uma coisa, como fazer tal coisa, um documento, você já escreve em um formato padrão para todos esses projetos, quando um cara for escrever o projeto dele, ele vai pegar aquele projeto padrão, mudar o logotipo pro bagulho dele, coloca tudo em creative commons, ou sei lá que licença a gente escolhe. Uma coisa desse tipo, eu acho que dá pra fazer simples.
Acho que é uma necessidade sim que é ver o que que tem de coisa comum e trocar.
Tem lista, tem site, tem não sei o q. Todos esses sistemas podem conversar entre si e eu acho que a gente tem que ver que tendo essa coisa por trás, tem uma estratégia maior que eu acho que todo mundo está mais ou menos querendo ir para um caminho. Isso é meio genérico demais, mas dá pra gente armar alguns espaços de convergência. Não é dizer que “não, agora para de escrever no seu blog e vai escrever no converse”, não é isso, é ver como que a gente faz para esses sistemas se integrarem, o que que é interessante de trocar, o que que a gente tem que a gente quer trocar com os outros e o que que os outros tem que interessa pra gente. Parar de trabalhar só, com a mesma galera, cinco pessoas trabalhando aqui enquanto tem cinco pessoas do lado, na sala do lado, trabalhando a mesma coisa. É integrar, é ver como que esses sistemas interagem entre si.
Essa parte da interação, só pra deixar esclarecida, é que determinado portal com seu blog, ele tem um esqueminha de acessar outro blog e o que foi escrito. Agora, aquela história assim, dificuldade técnica e todas essas coisa a gente se vira. Eu acho que é importante a gente ver que não existe um limite neste sentido para fazer as coisas funcionarem, eu acho que o grande problema é aquela história: saber o que uma pessoas está fazendo, que é a grande questão da rede.

A rede não é aquela coisa parada, silenciosa que quando você precisar você vai lá e pergunta para todo mundo. É legal uma rede tipo: olha, eu to fazendo isso, to fazendo isso aqui. Todo mundo jogar na roda e falar o que tem; que é a própria idéia deste evento que é cada um, de repente, falar o que sabe.

REDE DE PESSOAS, REDE DE PESSOAS, REDE DE PESSOAS, REDE DE PESSOAS

-Quando vocês falam em rede, vocês estão pensando em rede com uma estrutura lógica, com equipamento de informática e tal?/-Não, não é só isso. É assim.../
-Não, se vocês estão pensando em rede de pessoas, então nosso interesse é discutir rede de pessoas.../-Exato, é rede de pessoas...

Se a gente for discutir rede de pessoas:

Uma das questões que vai entrar aí é o seguinte: cada agrupamento de pessoas, tem uma galera hoje que gosta de chamar de tribo, acha que todo mundo aceita a idéia de tribo como um agrupamentos, ou em espaços urbano, ou em espaços rurais. Um grupo de pessoas que se aproximam porque tem o quê? Um conjunto de práticas, um conjunto de valores em comum; isso faz com que as pessoas façam a mediação da comunicação delas seguindo protocolos diferentes. Então, se vocês pretendem ter uma capacidade de intervenção dentro do tecido social brasileiro, vocês vão ter que distinguir as características de diversas redes e se preparar para fazer interface com elas, porque ainda a interface é a semelhança encontrando a diferença e a rede vai se compor por interfaces. Vocês não querem ter uma rede totalitária, com uma tecnologia totalitária. Como que vocês vão equiparar as diferenças ai dentro? As redes estão ai, estão funcionando totalmente e sublocalmente e está na hora de juntar essas redes. A minha grande questão é a seguinte: existe uma teoria do discurso, existe uma análise do discurso, existe aquilo que a gente fala e, aquilo que a gente fala, na verdade é um composto de valores. Então a minha intensao ela não necessariamente acompanha a minha prognição. O simples fato de você estar falando sobre rede: “olha só no seu caso a rede é assim.” Você está posicionando o registro. Como é que pessoas que falam idiomas diferentes vão se comunicar em uma rede? Mas acho que a rede, se ela se auto-organizar, uma hora vai virar uma zona, ninguém vai entender nada e o pessoal vai ter que começar a se entender. Acho que a vontade, de repente a vontade que eu estou de te entender agora é o mesmo esforço que você está fazendo de me entender. Mas a minha grande questão é que mesmo assim, vocês tem que prever. Eu acho que e gente tem que prever sim, senão eu fico como um arquiteto de uma rede social que eu quero construir. NÃO! Você só estaria fazendo isso se você estivesse demarcando estruturas dentro da rede. Mas olha só! Quando você desenvolve uma rede o que que você faz? Você estabelece um plano de parâmetros, dentro de qualquer rede, eu vejo vocês falando de parâmetros o tempo inteiro, vocês estão configurando parâmetros o tempo todo, não são as metáforas que está todo mundo querendo discutir. Então se eu colocar isso para uma rede social, o que que acontece? Para eu dimensionar uma rede social, para que ela resista a um certo padrão de estruturação, não é uma forma de estruturação, ela vai ter um certo grau de resistência. A partir de um certo grau de descarga em cima. Você fala resistência do que? De alguns pontos ou o quê? Eu estou falando pontos de rede.

EU NÃO SOU ESPECIALISTA, NÃO

VAMOS SUPOR QUE ISSO AQUI É UMA REDE!

Por exemplo, há uma capacidade de experiência entre sistemas. Vamos pegar uma questão que eu acho que são suficientemente simples para todo mundo acompanhar. Sistemas operacionais: de linux para windows. Entendeu? Para vocês trocarem dados que estão ali. E, eu não sou windows, não sou a onda tribo e tal, mas para poder fazer a transição de um dado para o outro, eu não tenho que antecipar o que que vai ser recebido lá? Para poder estabelecer o protocolo?
São questões que se você for falar isso friamente, parece que você é um cara que é calculista, mas NÃO. Porra, o cara atravessou a rua, cumprimentou o outro, se o cara olhou com cara feia, da próxima vez você não avalia antes de conversar com ele? A gente precisa parar pra pensar um pouco nisso do ser humano. É uma diferença dentro da cabeça dele e há uma diferença dentro da minha cabeça. Só que ela é diferente agora e vai ser diferente daqui a cinco minutos e dele também. No caso de você andar na rua, trocar um olhar estranho com alguém pressupõe que, de repente, rola uma hostilidade. Mas acho que no nosso caso, por mais que cada um fale uma coisa e tenha seus parâmetros diferentes, a gente está tentando se entender. Vou jogar mais uma questãozinha teórica: você encontra o cara na rua e de repente tem uma possibilidade de hostilização. ISSO. Essa hostilização, ela é o quê? Ela é um signo, e aí vamos lá. A base da história toda é linguagem. Então na verdade o que que acontece? Um interpretante, um interpretador pega o sinal e faz uma interpretação. Isso vai desde o sistema que está lá jogando bits dentro da máquina, até um grupo de países que vai e se altera. O cara ganhou um prêmio Nobel agora com a teoria dos jogos. Então o que que aquela historia de teoria dos jogos lá (tem a ver) com uma historia de uma casa Tainã? A própria história da teoria dos jogos é o seguinte: que a gente junto tem mais chance. Isso ai é o que você está colocando. Como essa teoria se constrói? Todo jogo precisa ter um objeto, precisa ter um objetivo, por tanto se estabelece estratégias. Você vai complexificando o jogo a medida que você quer. Da mesma maneira que se faz aquilo, segundo esses tais teóricos, isso acontece dentro de uma sala de aula, isso acontece dentro de um hospital, acontece dentro de uma família. Porque que não vai acontecer na ONG onde eu trabalho? Qual é o modelo? Como que eu represento isso? Entendeu? Acho que são questões que se a gente quer se aprofundar, se a gente quer realmente acompanhar esse movimento que está acontecendo ai.
Além da tecnologiA que é simples, que está dominada, a tecnologiA pra promover essa interação, promover essa conversa, fazer essa interface, fazer essa interferência. O que que é preciso além disso? Acho que tem uma história que é assim: uma disposição de querer colaborar, ter uma perspectiva de quem é que vai estar na outra ponta.

SÓ QUE ASSIM CARA:
MINHA VISÃO ESPECÍFICA:
NÃO TEM COMO FAZER:
UM SISTEMA QUE VÁ CONTORNAR:
ESSES PROBLEMAS.

Isso é um processo que é totalmente subjetivo, é totalmente pessoal. Ele parte de uma disposição que eu tenho de falar de uma maneira que aquelas pessoas que estão naquela mesa possam entender. Ou que estão aqui no espaço entre eles vão entender e elas vão aproveitar aquilo para elas, mas não tem sistema que vá prever isso. Isso é uma coisa que é totalmente impessoal e subjetivo e vai ter um monte de gente que não vai querer trabalhar assim, e não dá pra culpar essas pessoas. Eu trabalho, eu decido trabalhar dessa forma, eu decido trabalhar de uma forma que as pessoas que estão do outro lado dessa tecnologiA seja feito uma rede. Eu escolho trabalhar de uma forma que vai ser entendida do outro lado, então assim, eu acho que é isso. Não tem como fazer um sistema que preveja essas coisas, que corrija essas situações.

COMO QUE A GENTE VAI FAZER ISSO? A GENTE JÁ ESTÁ FAZENDO.

A gente não tem que planejar como trabalhar junto, a gente já está trabalhando junto. Toda essa galera que está na lista de convidados é que a gente já está trabalhando junto.

A SOCIEDADE QUE A GENTE IMAGINA É UMA SOCIEDADE FELIZ, É ISSO. COMO ARTICULAR EM REDE E COMO FOMENTAR ESSA REDE, É ISSO QUE NÓS ESTAMOS PROCURANDO FAZER.

O PAULO

De mídia, em um laboratório de mídia produzindo metareciclagem que não é mais um centro de mídia, ENTENDEU?

Tem milhares de centros de mídias que podem vir a ocorrer. E depois de um ano e meio eles meio que deram o braço a torcer e falaram:

“PORRA, NÃO É: VOCÊS FIZERAM, SACA? CARALHO, ALÉM DE TER RAZÃO VOCÊS FIZERAM”.

E daí, a gente já estava neste processo do que que era. Pô, então vocês vão construir para gente. Vamos continuar essa parceria que a gente tem e vocês me mandam, manda alguém do metarreciclagem para ficar um tempo na Índia, que foi tipo, sei lá? O metarreciclagem já não era mais grupo, não sabiam mais como lidar com o que o Felipe tinha na cabeça. Falaram vocês mandem duas pessoas pra cá porque a gente quer sacar desta experiência que tem. Este Knowhow que tem aí de metareciclagem e vocês, por favor, organizem aí pra gente uma conferencia e uma publicação. A publicação não ficou pronta, não deu, ia cair uma grana que não caiu, caiu errado. Eu fiquei afastado da publicação mesmo, não sei o que rolou e a conferencia a gente montou para isso aqui. E aí veio em uma hora muito massa essa pergunta do Pedro, que não está ai e que não falou na mesa dele de ontem porque ele esqueceu, mas, velho, o Pedro tem papel fundamental na conferência, mesmo ouvindo a mesa dele que é: pra que estamos organizando este evento, saca?
Então, a gente está organizando este evento porque é uma plataforma que a gente tem mais ou menos estabelecido com essa galera e que eu não me sinto confortável para, pelo menos, nos próximos dois anos fazer parte desta plataforma como: eu, Tatiana, Felipe, Chico, saca? Porque não? Porque o meu trabalho que se dá neste país não se dá sozinho, saca? E eu não teria como trabalhar e manter uma coisa funcionando se eu não tivesse você, bla, bla bla, bla...
Então, a idéia desta conferência ainda é o que eu falei ontem de tipo, ok? Como que a gente pode continuar trabalhando quando acaba governo, quando acaba ponto, quando ac