1.0 O ciberfeminismo nunca chegou à América Latina*, por Tatiana Wells

Clamando que o ciberespaço é um espaço próprio de articulação feminina ao provocar uma forma de ativismo digital, com uma expressividade e (im)possível linguagem feminina, o ciberfeminismo nasce em um contexto europeu dos anos 90, com o termo sendo cunhado na Austrália em 1991, pelo grupo VNS Matrix ao divulgar o "O Manifesto Ciberfeminista para o século 21" (1), uma homenagem à bióloga e téorica social-feminista Donna Haraway, que em 1985 havia escrito "O Manifesto do Ciborgue" (2), um olhar (multi)particular para a ciência e a tecnologia. Segundo a própria autora o Ciborgue teria sido: "uma estratégia retórica, assim como método político" - ou seja, uma tática poético/política para o enfrentamento da sociedade tecnoautoritária e seus discursos, que são chamados por ela de "informática da dominação".

Para entender como o ciborgue já está entre nós, quando não o somos nós mesm@s, Harraway versa sobre três grandes mudanças no desenvolvimento científico e tecnológico, que se desdobrariam em relações sociais específicas, permitindo as hibridizações entre os campos: a trangressão da fronteira entre o humano e o animal, entre sujeito e máquina, e os novos (vagos) limites entre o físico e o não-físico.

Com a mesma *ciber* alteridade característica da época, também manifestou-se o ciberpunk (3), cultura ficcional norte-americana considerada muito próxima das questões ciberfemininas, no sentido de revelador de sub-culturas, alternativas e opostos vivendo em conflito dentro do sistema. Concebido como crítica aos discursos tecnoutópicos, o ciberespaço, tanto para punks quanto para feministas, inspiraria permitir um novo diálogo entre as diferenças. Segundo Sadie Plant (teórica ciberfeminista), o ciberespaço teria uma “essência” feminina, sendo um espaço natural para as mulheres, que desde sempre teriam vivido inconscientemente preparando-se para o momento histórico de sua construção. Como prova, cita Ada Lovelace, que pôde escrever sobre inter-processos inexistentes. As mulheres viveriam já há muito tempo conectadas, no mesmo modelo da Internet, mesmo que em seus historicamente marginais locais de trabalho. Plant defende que as forças que estariam dissolvendo o mundo tradicional sob domínio de valores masculinos (com suas reivindicações por universalidade, eternidade, objetividade e transcendência), acabariam forçando irresistivelmente o conexionismo feminino (4):

"a abordagem da ordem-que-emerge-das conexões-múltiplas define a inteligência não mais como monopolizada, imposta, dada por uma força eterna, transcendente e superior, mas, em vez disso, desenvolvendo-se como processo emergente, engendrando-se a si mesma de cima para baixo”

Manuel Castells também sugere a idéia (5), clamando que a tecnocultura seria marcada pelo fim do patriarcalismo.

[TENTANDO FALAR SOBRE:] O feministo surge inicialmente como uma forma de lutar contra uma causa específica, um ativismo que é entendido como alternativa às consequências da sociedade patriarcal. No entanto, rapidamente adquire cores de movimento social, permitindo-se com o passar do tempo ser atingido pelo fluxo de relações existentes na sociedade, deixando-se mover também pelo enfrentamento de quase todo tipo de dominação, assim como propondo ações e espaços de reflexão em quase todos os campos da existência humana. As organizações de mulheres (não somente as chamadas feministas) são sobretudo rizomáticas, beneficiando-se de sua capacidade de tecer redes interdisciplinares, de networking, uma prática como já visto, desenvolvida por mulheres. Suas conexões por afinidades, mais do que por identidades, as unem sob diversas e variadas lutas sociais. Suas conquistas falam menos de uma união pelo (( sexo )) do que força de mobilização global frente a todo tipo de abuso: militarismo, fundamentalismo, capitalismo, socialismo estatal... Para citar somente uma vertente do feminismo, uma que reconhece a relação entre a opressão das mulheres e a degradação da natureza, o eco-feminismo, (6) observa-se que ele contempla diversos aspectos, como a luta contra o sexismo, racismo e outras desigualdades sociais, através de um entendimento maior das inter-relações entre homens e mulheres, e entre os seres humanos e a natureza, dando subsídios intelectuais para um modo mais efetivo de viver e de respeitar a diferença. Outro indicador das multifacetadas lutas das mulheres é a Marcha Mundial das Mulheres, que no dia 8 de março de 2004 reuniu mais de 50.000 mulheres (7) que levavam uma carta, a Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade. A carta contém 17 reivindicações, entre elas leis para a eliminação da pobreza, um fundo social global, o cancelamento da dívida de todos os países do terceiro mundo, e direito de asilo às vítimas de discriminação sexual.

[MAGALY ME AJUDA]: As feministas, na passagem do século XIX para o XX, tinham como estratégia principal o reconhecimento da cidadania das mulheres através do direito ao voto. Assim o movimento das Sufragistas uniu mulheres tanto no Norte como no Sul do planeta, tornando-se um ativismo que denunciava os arranjos de poder da sociedade patriarcal. Com o passar do tempo, o feminismo se descreve como tal definindo-se como um movimento e como um ator político. Hoje, olhando para o trajeto percorrido nestes 100 anos, observa-se aquilo que comumente se chama as três ondas do feminismo, ou três momentos que podem ser depreendidos segundo aproximações, posicionamentos e filiações teóricas. Este aprendizado não cessa e se caracteriza por momentos de maior ou menor reflexão sobre a ação política e vice-versa. O feminismo trata da luta pela autonomia e autoderteminação das mulheres e o direito de desfrutar de todas as possibilidades da existência humana. O feminismo tensiona as formas de poder que subjugam as mulheres à condição de sujeitos de segunda classe quando reivindica o direito ao corpo, o direito à decisão sobre este e, principalmente, sobre sua sexualidade e à reprodução. Esta luta também se faz em diferentes espaços e campos tais como comércio, meio-ambiente, tecnologia, finanças públicas, sistemas internacionais, além dos campos tradicionais: educação, saúde, moradia, trabalho, direitos humanos. Mas a marca principal do feminismo, aquilo que o difere de todo e qualquer outro movimento social e processo político coletivo é que o feminismo não tem um livro fundador, uma doutrina fundante ou uma líder/guru, como é, por exemplo, o marxismo para as esquerdas de todas as nuances. O feminismo se faz coletivamente e a elaboração teórica é paralela à ação política, se retro-alimentando continuamente.

Segundo a pesquisadora e economista indiana Anita Gurumurthy (8) as lutas das mulheres estariam revelando não somente os impactos da globalização, mas de que ele é de fato constituído, fazendo as conexões entre as experiências individuais e coletivas, e os processos institucionais. Ela sugere que o processo de produção na economia global de informação característico de um mercado de trabalho frequentemente segmentado por distinções de gênero e raça, teria sido instrumentalizado pelo sistema de propriedade intelectual, ferramenta que *comodificou* o conhecimento social permitindo que apenas certos tipos de conhecimento fossem reconhecidos e implementados. Os conhecimentos tecnológicos e científicos, por exemplo, sempre foram quase que exclusivamente derivados dos desejos e necessidades masculinos, como as armas suportam os *ismos* de nossa sociedade contemporânea - sistemas de satélite, robôs-soldados, monopólio de mídia global, milhos sem sementes, filhos inevitáveis.

E mesmo com a longa tradição de atuacão de organizações não-governamentais de mulheres e feministas nas áreas de meio-ambiente, saúde e direitos humanos (como a bioética), são pouquíssimas pesquisadoras e ativistas que se dedicam à temas como nanotecnologia, biotecnologia ou transgenia, apesar de movimentos como o eco-feminismo. Assim como a participação feminina é muito menor nas áreas consideradas "técnicas" como Internet e computação, justamente as áreas que, segundo Harraway, seriam as ferramentas cruciais para o redesenho dos corpos femininos durante a época do capitalismo avançado. Em um momento em que as biotecnologias invadem todos os campos da vida: a gênese, a beleza, arte e trigo, popularizando seus discursos utópicos, seus processos, objetos e sujeitos automatizados, criando novos espaços e instrumentos de dominação - é mais do que urgente que mais mulheres comecem a dominar esses campos estratégicos, não só refletindo e politizando essa rápida expansão, como também questionando-a, tirando-a do domínio exclusivo do privado e masculino. E essa é a preocupação maior do Manifesto de Harraway, conscientizar mulheres e feministas de que, para enfrentarmos o ciborgue imposto, fruto do projeto de dominação do homem, teríamos que nos reconhecer, e portanto tornarmo-nos, um ciborgue de oposição. Carregando conosco uma poética relevante.
(Uma ação ciberfeminista: a alemã Cornelia Solfrank, em um concurso de net.arte, cria um programa que coleta informações de mulheres e fotos na internet e constrói uma página única. Seu trabalho para a exibição foi o de mandar, sem avisá-los, a inscrição de 289 mulheres para o concurso. Na tela de entrada de seu site: Uma artista inteligente deixa com que a máquina faça o trabalho! [“A clever artist makes the machine do the work!”])

Troco 3 fogõezinhos e conjunto completo de panelas plásticas rosas por um saquinho de bolas de gude

Com a necessidade da Revolução Industrial de um número cada vez maior de força de trabalho, e com a diminuição do tamanho e automatização do maquinário, buscou-se um trabalho menos braçal, mais ágil, e é claro, porquê não? Mais barato! É nesse contexto, entre outras particularidades da época, que às mulheres impõe-se um salário 60% menor do que dos homens, junto a uma jornada de até 18 horas de trabalho (mais ou menos das 5 da manhã às 11 da noite), sem direito a aumento salarial ou mesmo descanso dominical. Em 1857, quando as 129 trabalhadoras tecelãs da Fábrica Téxtil Cotton de Nova Iorque se recusam a trabalhar, patrões e políciais não quiseram saber de reinvidicações: trancam as portas da fábrica e ateam fogo, onde morrem asfixiadas e carbonizadas todas as 129 tecelãs. Hoje há boatos de que a história não é verdadeira. No entanto, à mesmo época, em 1834, desponta na Inglaterra as descrições da primeira máquina de computar, a engenhoca analítica, cuja capacidade de analisar dados foi escrito por Ada Lovelace. Seu plano de calcular pode ser considerado o primeiro programa de computar. Auto-intitulada metafísica e analista, Ada era também filha do poeta Byron.

A entrada da mulher no mercado de trabalho acontece tanto como direito conquistado de cidadania, quanto pela lógica de mercado, sendo também fruto do desenvolvimento e necessidades do capital. O fato é que até os dias de hoje, elas continuam predominando na linha de montagem, nos trabalhos manuais, no comércio ao balcão, no campo colhendo, nas TVs à frente das câmeras, ou seja, raramente as mulheres têm a oportunidade de conhecer o funcionamento de uma máquina, muito menos ainda conhecer o seu software, ficando restritas à execução do que foi decidido por outrem. (11) Três séculos depois, em 2004, no curso de Ciências Computacionais da USP (Universidade de São Paulo), há 3 meninas para uma turma de 50 meninos(12).

Este quadro aparentemente imutável da história humana, se configura até mesmo dentro de casa, a partir da cultura que dá às meninas fogões e panelas para o treinamento doméstico enquanto os meninos ganham o computador no quarto, assim como se fortalece pelo “colapso da eficiência simbólica” - momento atual em que cada vez mais as autoridades diluem-se nos fluxos informacionais diversos, chamado por Jodi Dean de pós-patriarcalismo (13) – onde a perda de referência e autoridade, unida à tradicional multiplicidade das lutas das mulheres, as levariam a serem ora incluidas no progresso da ciência (com anticonceptivos produzidos por engenharia genética, técnicas de reprodução assistida, criopreservação, diagnóstico, manipulação, seleção, armazenamento embrionário, doação e congelamento de gametas, assim como seu cultivo em laboratório, diagnóstico genético pré-implantacional, testes e diagnósticos pré -natais, clonagem reprodutiva e toda uma série de tecnologias chamadas de NTR - novas tecnologias de reprodução), ora amedontradas por não saberem mexer no *novo*, a técnica que será inevitalmente parte de sua vida. Não há coincidência no encontro da multiplicidade feminina e os próprios discursos tecnocientíficos, que usam o vocabulário de perfeição e *nova capacidade de escolha* para seduzir momentaneamente, com as demandas da cultura do consumo, a possível autonomia feminina.

A minha barriga sarada não combina com esse tom esverdeado

A ciência tem sido, desde o começo da história, ao lado da igreja, produtora de conhecimento, e consequentemente, autoridade. Estando hoje ela a favor das necessidades do capital "não somente para gerar lucro, mas para não gerar nenhum conhecimento ou aplicação que possa ser detrimental para a manutenção e/ou expansão do sistema (...) a ciência constrói uma retórica de promessa, oriunda dos princípios políticos iluministas, e pode causar erros abomináveis como a eugenia." (9). Segundo Laymert Garcia a biotecnologia seria a "possibilidade de converter algo que tinha de direito um valor ambiental em algo que pode ter de fato um valor econômico (...) uma conversão de um valor a outro (...) um modo especial de destacar a biodiversidade dela mesma. O campo da técnicociência, que transforma os organismos humanos em informação e os funde (1+1=2) e confunde (1+1=3) com as técnicas, teriam contagiado decisivamente a biologia moderna, tendo início no pós-guerra nas ciências da comunicação com o próprio conceito de informação. Hoje, as hibridizações entre homens, máquinas, seres vivos e seres inanimados seriam tantas, que a própria natureza humana está posta radicalmente em questão. (10)

Alejandra Ana Rotania alerta sobre os supostos direitos e desejos de modificação e de intervenção no campo da reprodução humana, por exemplo, que obedecem a determinantes econômicos, sociais e políticos, sendo portanto social e historicamente construídos: “com uma natureza que não é outra a não ser a do poder, e de suas múltiplas visíveis e invisíveis expressões: (...) sendo o poder das biotecnologias antidemocrático, altamente centralizado, multinacional, global e excludente.” (14) Contra isso, assim como Harraway, Ana sugere uma política de radicalidade opocisionista e de resistência propositiva.

Engenharia ou modificação genética pode ser considerada como a alteração do código genético por meios artificiais, ou a criação de monstros - para nos afastar da natureza e afastá-la de nós. É portanto radicalmente diferente de um cruzamento seletivo tradicional. Um exemplo é pegar um gene que produz veneno da cauda de um escorpião, e combinar com o de um repolho. Os repolhos geneticamente modificados matam as lagartas pedradoras porque aprendem a gerar veneno de escorpião, um inseticida, em sua seiva. No site (15) que descreve esta e tantas outras experiências genéticas (genes humanos em ovelhas para desenvolver resistência a uma doença de pulmão, uma galinha com quatro pernas e sem asas, (você come no KFC? hum...nhami!) ou um bode com genes de aranha para criar seda em seu leite, também encontra-se o quase alegre (e perigoso pós-humanista) alarme: se "revolução digital modifica o que fazemos, engenharia genética modifica o que somos!"

No Brasil, com a constatação pelas organizações feministas que trabalhavam justamente com as novas tecnologias e o tema saúde (em assuntos como bioética, reprodução assistida, contracepção, transgênicos e genética) da falta de um amplo debate sobre tais questões, começa no meio dos anos 90, um movimento para publicizar o assunto, cuja importância é absurdamente velada por grande parte da mídia, e consequentemente da sociedade. Um exemplo foi o debate intitulado "Sob o signo da bios", promovido pela Fundação Heinrich Boell, em parcerla com as ONGs feministas Ser mulher e Criola (16) durante o ano de 2004.

No entanto, muitas dessas organizações feministas ainda sofrem de uma enorme desvantagem em conhecimento prático e político em relação às novas tecnologias de comunicação e informação. E de como trazer tais questões para o seio da cultura, para a comunicação cotidiana. No entanto há iniciativas interessantes no Brasil como a ONG Cemina (17) que trabalha com mulheres e rádio por todo o país, a Rede Cyberella; e a Rede Mulher de Educação (18), que desenvolve projetos que usam TICs (tecnologias de comunicação e informação) com mulheres adultas. Aspectos sociais, econômicos e políticos da chamada "sociedade da informação" também tem sido trabalhados pela Rede DAWN (19), uma organização de acadêmicas e ativistas do Sul econômico, cujo ponto focal para a Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (WSIS-World Summit on Information Society) desde 2003, através de Magaly Pazello (Brasil), tem sido o de promover o debate sobre os temas relacionados à Cúpula a partir da perspectiva de gênero, estimulando a participação da sociedade civil junto com outras redes e organizações de mulheres que participam deste processo.

No campo da técnica , trabalhos que visam justamente fomentar nas mulheres o descobrimento da tecnologia é o de grupos como LinuxChix (20), que há cinco anos vem dando apoio à mulheres interessadas no desenvolvimento profissional nas áreas de TI, assim como Gnurias (21) e o recente PSL-mulheres (22), todos visando superar o domínio histórico e soberano de homens na programação de softwares. Estas são as áreas consideradas críticas para a construção da autonomia da mulher, permitindo que novas direções e sensibilidades, mais equalitárias, sejam incorporadas aos rápidos desenvolvimentos tecnológicos.

E imortante frisar que nem todos os grupos que trabalham com mulheres e tecnologia trabalham com gênero. O estigma das queimadoras de sutiã é simbólico demais para ser esquecido (reencená-lo ou exorcizá-lo?!) .Esta percepção errônea, somado à uma representação homegênea do movimento pela mídia, e o fato de que a maior parte das mulheres que frequentam os recentes encontros de tecnologia, como por exemplo Mariana de 10 anos, a mascote do último encontro de software livre no FISL (Festival Internacional do Software Livre), em Porto Alegre, são realmente somente meninas, não é por acaso que hoje o termo feminista seja tão precipitadamente rejeitado.

Além disso, ao manter o foco no uso da tecnologia para o mercado de trabalho, muitos projetos também acabam por gerar muito pouca discussão sobre mulheres como usuárias de tecnologias, ou a cultura digital e suas importantíssimas conexões com os meios populares, a ciência, a reciclagem, o conteúdo livre, que é sobretudo a realidade brasileira. Percebe-se então que não basta superar a segregação técnica, científica e digital corrente em nossa sociedade, e sim dar apoio à iniciativas que queiram trabalhar pelos direitos das mulheres de serem mais auto-confiantes tecnologicamente, mas também o de não quererem usar ferramentas corporativas, sabendo sobretudo contextualizá-las com a sua vida e prática cotidiana, e como ferramenta cultural e expressiva. Há que se dominar também o discurso que compõe as relações sociais e a linguagem das técnicas. Os softwares livres são apenas o primeiro passo. É quase um consenso entre os grupos que trabalham com as TCI que estas devem ser usadas para re:fundar a pluralidade dormente das conexões sociais.

O seu afro rosa não combina com o meu screensaver ou calça da gang/ toda mulher quer/ 200 reais/ pra deixar a bunda em pé

Assim como o ciborgue de Harraway, as formações híbridas de mulheres, são influenciadas tanto pela sub-culturas de resistência, quanto pelos fenômenos de massa (como Britney Spears beijando Madonna sugerindo falsamente mais liberdade sexual). Vale notar, no entanto, o aspecto democratizador que Gilberto Freire descreve (23) ao falar das miscigenações étnicas fundadoras do povo brasileiro, e uma das razões porque vamos encontrar aparentemente tão longe do *ciber* e tão perto dos paradoxos da concentracão midiática no Brasil, o contexto criativo e ao mesmo tempo perverso das transformações pelas quais a mulher passa, ao se confrontar com a realidade em que vive. Pois é justamente nas áreas mais marginalizadas do país, nas favelas e nas periferias, que um renovado senso de cultura e linguagem emerge, no carnaval, samba, capoeira, funk, maracatu, bumba-meu-boi, hip hop, brega, candomblé, onde um rico hibridismo flore, primeiro proibido, e depois silenciado pela invisibilidade até a hora em que possa ser inserido em uma lógica de mercado, rotulado e vendido, ou "descoberto” por artistas estabelecidos, muitas vezes estrangeiros.

O funk (24), mais do que qualquer outra manifestação cultural brasileira, nos dá uma clara dimensão das relações ora conflituosas, ora amorosas dos gêneros que compõe a nossa sociedade. Ele nada mais é do que uma representação das condições de pobreza, violência econômica e indignação existente entre as mulheres pobres. O que é considerado pouco palatável pela elite, não é nada se comparado à realidade das várias periferias brasileiras e as condições precárias de vida de meninas e mulheres que tem nesse contexto o seu cotidiano. De acordo com a doutora em sociologia pela USP, Verónica Cortes, o funk representa um grupo social: "As letras, aparentemente sem conteúdo, mostram a realidade dessa população pobre. A fragilidade de suas vidas, devido à violência, causa a falta de perspectiva. Assim, o comportamento dessas meninas, durante os bailes funk, é apenas o retrato de uma classe marginalizada".

Entendido como um espaço de construção de identidade coletiva, feita de forma autônoma e ao mesmo tempo influenciado por todos os papéis demarcados socialmente - exatamente como no mundo publicitário (mulher e cerveja= prazer para os homens) - podemos perceber que o funk nos dá para cada Tati Quebra-Barraco uma Mãe Loira. Não existe nós e elas. Assim como o hip hop pode ser considerado um espaço politizado, assim como masculino, no funk predominam os bondes de meninas e as letras catárticas. Mas como chegar do funk ao ciberfeminismo?

Acontece que a mobilização feminina já está lá. O ciberfeminismo talvez nunca tenha chegado à América Latina, justamente por conta dessa relação simbiótica, aqui muito mais clara pois explícita e improvável, entre as diferentes culturas brasileiras, uma elitista, que se alimenta das manifestacões de afirmação do feminino brasileiro para dar Ibope às novelas e vender produtos, ao mesmo tempo que critica nos jornais tais manifestacões; e as vozes de várias MCs, que estão aí para acordar o establishment de sua hipocrisia, sabendo que precisam gritar muito para serem ouvidas.

:: FWD Future FUNK ::

Experiências de mobilização e organização de mulhereres são importantes para o resgate da cultura feminina, como os recentes festivais "Lady Fest Brasil" (25) de meninas que se consideram riot grrls, subdivisão do punk e da cultura do faça-você-mesmo, em São Paulo e "Corpus Crisis" (26) em Brasília, ou os encontros de grupos de grafiteiras como TPM Crew (27) e Só Calcinha, que também usam Fotologs (sites de fotos), entre outros, como o e-zine Bendita (28)"mostrando histórias reais de violência contadas pelas mulheres para (...) acabar com o misticismo de que violência contra a mulher só é praticada em barracos sujos, por homens bêbados" e que mostram que existem muito mais manifestações femininas, que se utilizam das mais diversas mídias para se organizar, comunicar mas também brincar, nem sempre questionando e sim celebrando a tecnocultura.

São exemplos de formacões multi-disciplinares de mulheres também fora de qualquer modelo organizacional permanente, projetos táticos que não possuem um background institucional, e que não são mediados por nenhum veículo de comunicação comercial, beneficiando-se somente de ferramentas de comunicação online, e buscando um diálogo com atividades nas mais diversas áreas de atuação cultural da mulher, agregando muitas meninas que sequer ouviram falar de ciberfeminismo ou mesmo se encaixam nos diferentes feminismos existentes. "Conhecimento para a resistência feminina", ou como uma integrante do grupo Quitéria descreve em seu blog: canseidesersexy. (29)

Outros trabalhos que têm um foco mais abrangente e ativista, não estão na sala de aula nem no escritório, e sim nas ruas, no meio dos livros e revistas, e dentro de casa: como o trabalho de linguagem inclusiva, revelando os discursos linguísticos dominantes em notícias, artigos e textos, e o projeto do servidor de mulheres Biroska, ambos do CMI-mulheres (30), uma máquina construída para e por mulheres, que visa dar apoio logístico para suas organizações, com listas de discussão, hospedagem de sites e desmistificação de informações técnicas publicadas dinamicamente online. Ou as oficinas de mídia livre para meninas do grupo G2G (31), Faça-você-mesm@, que visa empoderar mulheres e meninas que tenham interesse na cultura digital e nas tecnologias livres, com exemplos ilustrados de ações afirmativas em relação à produção de valores femininos, na intersecção de arte e tecnologia, e dando também sustento intelectual aos trabalhos culturais colaborativos de mulheres em mídia digital com o uso de softwares livres. Ao relacionar-se com diferentes agendas feministas e/ou femininas, ajudando a mapear e dar cor aos trans-locais de lutas das mulheres, juntando conhecimento e aptidões que podem ser usadas em quase todas as esferas do cotidiano, estas são políticas de conhecimento e registro.

Mais do que nunca faz parte da luta do imaginado e aqui construido (ciber)feminismo contemporâneo brasileiro não desejar produzir uma teoria total, profissional, convencional, de defesa ou amparo, com termos e ações definidoras, mas como Harraway mesmo fala em seu Manifesto, "uma experiência íntima de fronteiras, de suas construções e desconstruções." O feminismo não é uma palavra que nos une naturalmente, muitas mulheres já expressaram a necessidade de encontrar novas possíveis unidades, afinidades que não visem apagar as particularidades, ambiguidades e as contradições femininas e sim incorporá-las, como o ciborgue de Harraway, mito híbrido de todos e partes. Não há desejo ou possibilidades nos ciborgues de produzir uma teoria plena. Nem desejar uma multiplicidade a-crítica. O ciberespaço, assim como a ciência, ainda é um espaço a ser ocupado pelas ativistas e cientistas brasileiras, mapeado, pensado, desenhado e reinventado.

A nova luta das mulheres envolve desafiar a sua forçada modelagem sistemáticaa, sejam nas leituras midiatizadas e distorcidas de nós mesmas, de nossos corpos e desejos, demonstrada pela crise das jovens meninas (e com a tomada de microfone que a crise causa, e que demonstra coragem, princípio da mudança). Assim como é também crítico, a abertura de espaços exclusivamente femininos que tenham uma estrutura conceitual de mobilização, crítica e experimentação, ao lado da criação de ações culturais que possam envovê-las em processos transformativos, fornecendo dicas para outras mulheres e meninas em situação (vero)semelhante.

Questões como a ciência e a biotecnologia devem ser radicalmente incorporadas ao nosso trabalho, assim como mais amplamente discutidas, ainda mais agora que já o fazem por nós em círculos e instituições fechadas, tentando vender-nos a nós mesmas. A tradução do mundo em informação digital e dos seres vivos em informação genética, deve urgentemente aliar-se ao entendimento de que as rápidas reconfigurações de poder e técnicas podem sim beneficiar as mulheres que não deixarem de ser seduzidas pelas fantasias de uma subjetividade construída em termos de *ai, não sei mexer em computador*, *gostaria tanto de um filho de olhos verdes* ou pelo menos *uma pele mais lisinha*. Além do medo e do desejo, há lutas históricas antiquíssimas.

A filosofia da educação crítica, se torna portanto crucial para o contexto brasileiro, ao mesmo tempo em que permite com que novas sensibilidades, condições e conceitos fundadores constituam-se como parte de nossa luta pela possibilidade de vida humana plena, em positivo contra-ponto ao atual processo de sofisticada desumanização do ser humano, e aos processos de modelagem e reforma como os realizados no ciberespaço, nas TCI de massa e nas biotecnologias. Fruto solitário e estranhamente delicioso dos contextos sociais de nossa paradoxal sociedade, contrapondo à teoria feminista pós-moderna, os mitos que ganham vida através da simbiose com o sistema, muitas vezes para criticar o progresso e a apropriação da natureza e do feminino como recurso de produção de cultura, outros vezes para provocá-lo.

Onde conecto minha memória extra?

(*) Frase e texto de Cindy Flores, a nossa única ciberfeminista assumida da américa-latina (méxico) em -> http://www.ciberfeminista.org.. Esse texto é tanto em sua homenagem quanto 'a Magaly Pazello.

(1)e (2) Para ler os dois manifestos em inglês -> http://www.midiatatica.org/ip/index.php?id=8,48,0,0,1,0 ou VNS Matrix -> http://www.lx.sysx.org/vnsmatrix.html. O artigo de Donna em português pode ser encontrado como "Um manifesto para os cyborgs: ciência, tecnologia e feminismo socialista na década de 80", na organização de Heloísa Buarque de Hollanda em "Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura." Rocco/Brasil, 1994.

(3) Para se aclimatar com o gênero ciberpunk e a cibercultura, 6 livros para ler em -> http://www.midiatatica.org/ip/index.php?id=8,36,0,0,1,0

(4)Sadie Plant “The virtual complexity of culture”, editado por George Robertson, Future Natural Nature/Science/Culture, Londres/Nova Iorque, 1996. Sadie estuda a interação entre os efeitos dos desenvolvimentos tecnológicos e os processos culturais. Estudou em “Zeros + Ones” o papel da mulher, hoje e no futuro, no desenvolvimento das novas tecnologias.

(5)Manuel Castells, “O poder da identidade” é o segundo volume da obra da coleção “A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura”, Ed. Paz e Terra/Brasil, 2002

(6)http://en.wikipedia.org/wiki/Eco-feminism

(7)http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/03/309541.shtml Marcha Mundial das Mulheres -> http://mmm.softwarelivre.org

(8)em http://www.dawn.org.fj

(9)CAE em "Molecular Invasion". Todos os livros desse grupo de mídia tática que tem foco nas tecnologias biogenéticas estão disponíveis para download em -> http://www.critical-art.net/books/index.html

(10) Laymert Garcia dos Santos, “Politizar as novas tecnologias” Editora 34/Brasil, 2004. Um livro brasileiro muito importante para o entendimento do estado da arte da informação digital e genética.

(11) Mais sobre as condicões de trabalho da mulher em -> http://www.universia.com.br/html/materia/materia_daba.html

(12) Depoimento de estudante do curso descrito

(13) Jodi Dean, “Feminism in Technoculture”, em -> http://people.hws.edu/dean/femtech.html

(14) Alejandra Ana Rotania,”Sob o signo da Bios, vozes críticas da sociedade civil”, e-papers/Brasil, 2004

(15) http://www.globalchange.com/geneticengin.htm

(16) http://www.sermulher.org.br e http://www.criola.org.br

(17) http://www.cemina.org.br

(18) http://www.redemulher.org.br

(19) http://www.dawn.org.br

(20) http://www.linuxgirls.org

(21) http://www.gnurias.org.br

(22) http://mulheres.softwarelivre.org

(23) Gilberto Freire, "Casa Grande e Senzala" Maia & Schmidt Ltda, RJ/Brasil, 1933

(24) São poucos os estudos do funk, para saber + recomenda-se o livro de Hermano
Vianna "O mundo funk carioca" 1998. pequeno texto de hermano em .PDF -> http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/76.pdf. Para uma breve descrição ->

(25) http://www.quiteria.com.br/ladyfest

(26) http://corpuscrisis.cjb.net

(27) http://www.fotolog.net/tpmcrew

(28) http://www.benditazine.com.br

(29) http://www.quiteria.com.br

(30) http://docs.indymedia.org/view/Local/CmiBrasilCmiMulheres

(31) http://www.midiatatica.org/ip/index.php?id=3,21,0,0,1,0

De Tatiana Wells, com ajuda fundamental de Magaly Pazello. Este texto está em permanente estado de re:escritura. Por favor compartilhe suas idéias comigo pelo e-mail tati.xx-AT-gmail.com ou edite-o você mesm@ em http://www.midiatatica.org/wakka/wakka.php?wakka=GenEro

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