A FALA DO ESPIRITO SANTO
Eu estou cansado de ser a diferença
e acabar reduzido a semelhança
no meio de tanta diferença.
Eu vim pra cá como professor também. Que é uma coisa que dá um conflito de discussão enorme e que eu acho que há um desgaste brutal. Se vocês pensarem que toda a população brasileira precisa passar por dentro de uma escola e que quem controla a escola -eu sou um professor, estive dentro, sei mais ou menos como funciona-, quem manda em uma escola são os diretores e os professores que estão ali articulados. São seres humanos que as pessoas podem abordar, podem conhecer, podem dialogar, isso é bastante possível. E aí a gente fica nesta história de abstrair o país em diversas direções, ou de singularizar demais, eu acho que, de repente, uma das questões para se colocar aqui: que é, por exemplo, nós estamos desde ontem discutindo que não queremos discutir um instrumento de tecnologiA. Não quero discutir o cabo, não quero discutir a rede. Mas, todos os exemplos oscilam em cima disso, porquê? Porque a gente ainda não achou uma outra maneira de discussão, outros jargões, outras disciplinas para poder olhar para a mesma coisa e poder falar dela de diversos ângulos. Não vai ter uma reunião que vai ter 100% dos presentes interessados na mesma forma de discutir, acho que ta todo mundo plenamente consciente disso.
Voltando a questão de se pensar um pouco como diferença dentro desse conjunto todo. Ontem consegui bater papo com gente pra caramba, de lugares pra caramba. Todo mundo fazendo alguma coisa, mesmo o que parece maluquice é interessante, sempre tem o cara que você fala “pô, o cara pode ter não achado a veia ainda mas está brigando por alguma coisa”. E na hora que as pessoas começam a se manifestar notam-se as diferenças e se diferença fosse alguma coisa resolvida o Brasil era um país resolvido. A gente sabe que dentro deste espaço que a gente está aqui, está cheio de diferenças, se tiver 100 pessoas aqui, tem 100 espaços de diferenças. Então a história do ouvir, que foi falado hoje de manhã, pô, sacar o cara falando, qual é a freqüência que ele está falando, em que direção ele está falando, sem parecer um inimigo. Eu sou um professor, tive que me acostumar a ver as pessoas desta maneira, o cara entra na sala de aula, ele pode falar a besteira que ele quiser, eu tenho que ouvir o cara e não ficar puto com ele. Então, eu acho que isso precisa ser absorvido por mais gente, mais gente precisa de paciência para fazer isso, então a gente precisa estar aqui caminhando nesta direção.
É necessário sentar e fazer planejamento, me desculpem. Acho que esse negócio de sentar e fazer gera uma série de ansiedades, ansiedades geram tensões e as pessoas se colocam em situação de instabilidade. Planejar não é nenhum grande absurdo. A grande questão é que o modelo tradicional de planejamento, como já falaram ontem, está baseada na tal da mecânica newtoniana. Então quer dizer, o cara senta lá, da graduação até o doutorado, ele aprende a formatar um projeto,a fazer uma antecipação de alguma coisa usando uma lógica que a gente sabe que é furada. Que outras maneiras que eu tenho de representar a projeção das coisas se não for este modelo? Quem tem um disponível? Vamos sentar, vamos conversar um pouco sobre isso.
E o que a gente chama de técnica, para retomar um ponto aqui que é esta história da rede, a gente está falando sobre instrumentos, aparelhos, modalidade de tecnologiA específicas, mas o que que é técnica? A gente preparou um dia para discutir. Passamos duas, três horas tentando negociar para a gente uma definição do que que é técnica, o que que é tecnologiA. Mas, de uma coisa que vá do mais concreto ao mais abstrato, porque daí você consegue pegar todo o raio de ação daquele fenômeno que esta acontecendo. Então , para mim tecnica hoje, quer dizer eu sou uma população diferente que tem uma tecnologiA similar. TecnologiA pra mim, tentando chegar o mais próximo possível de filosofia, sem querer complicar, sem querer evocar uma discussão pesada, é um controle sobre um processo. TecnologiA é apenas isso. Então a informática faz isso em um nível; fazer um tacape para matar alguém com uma porrada faz isso. A técnica está ali nas duas coisas, só que a técnica vem de onde? Ela vem da observação do mundo natural, você faz metáforas de coisas importantes aí: a metáfora da biologia, a metáfora da física. Para isso as pessoas estão aprendendo essas metáforas. Os cientistas originalmente observam a natureza para poder entender como o pensamento espelha a natureza. A gente perdeu um pouco esta noção, a histórias de pensar a era moderna, como funciona a modernidade,a gente fica tentando ver que não afeta a nossa cabeça e afeta. Ficaram ai 100 anos inventando o consciente e o inconsciente, quais são os níveis de consciente e quais são os níveis de inconsciente.
A tecnologiA está manipulando isso, ela está agindo sobre isso, a gente não está parando para criar discursos sobre isso. Sobre o que não se fala não se pode entender, se não se falar de uma coisa ela não se torna visível. Então a gente tem processo físico e processo simbólico. O processo físico é o recurso finito, o recurso natural; o processo simbólico é o processo infinito. Se eu quero metareciclar as coisas, se eu quero inventar as coisas eu quero criar uma infinidade de coisas.
ONDE É QUE ESTÁ A NATUREZA
NESTA CRIAÇÃO DO INFINITO?
Não é naquilo que a gente chama de propriedade privada, são limitados, são finitos. Onde é que a gente explora isso? Deve ter uns quinhentos mil livros na biblioteca da UNICAMP. Sentar, fazer listas de livros, listas de textos, catar onde é que tem coisa na internet e botar na mão das pessoas; traduzir o que precisa jogar ai nas escolas. Não se gasta dinheiro, o orçamento para educação é um orçamento monstruoso. Gasta-se dinheiro com isso, não se pode deixar de gastar, a gente tem que fazer guerrilha lá dentro. Lá dentro que você tem que entrar; agora, como que se entra lá dentro e não sai ferido? Eu não sou um homem-bomba, eu não vou entrar explodindo em lugar nenhum.
Agora pra isso precisa de mapa na mão, precisa de agenda na mão, precisa de quadro, precisa de mural, precisa de lista de discussão. Este é o caminho que acho que vocês dominam tranquilamente, as pessoas se mobilizam, se deslocam 50, 100, 200 pessoas. Mas o que que você imprime do lugar que você ficou? Vocês ficam três dias na UNICAMP. Agente imprimiu alguma coisa de fato aqui? A gente vai voltar para imprimir alguma coisa aqui? Vai ser outro grupo que vai ter aqui? A gente não pode ter vergonha de pensar esse tipo de coisa não. Eu acho inclusive que dá pra tirar coisas comuns, interesses comuns. E eu não acho que a gente precisa de planejamento, um mapa, um não sei o q. De repente uma lista. Eu acho que o que a gente tem que investir é uma rede, que uma rede ad-hoc, assim, ela se faz. Só um adendo: é a coisa do ajuste mesmo.
VOCÊ QUER , POR EXEMPLO, PEGAR UMA TECNOLOGIA
SIMILAR A ESSA QUE VOCÊ ESTÁ USANDO
E USAR ISSO EM REDE, SABER COMO É QUE USA?
A gente não precisa de planejamento para uma rede que é troca de informação.
Só isso, entendeu?
Para o seu projeto sim, você planeja e tal. Agora para uma rede mesmo, de repente, é só a gente se organizar para como uma pessoa acha a outra ou como um conhecimento pode ser achado facilmente. Por isso um formato comum de documentação. Você vai escrever uma coisa, como fazer tal coisa, um documento, você já escreve em um formato padrão para todos esses projetos, quando um cara for escrever o projeto dele, ele vai pegar aquele projeto padrão, mudar o logotipo pro bagulho dele, coloca tudo em creative commons, ou sei lá que licença a gente escolhe. Uma coisa desse tipo, eu acho que dá pra fazer simples.
Acho que é uma necessidade sim que é ver o que que tem de coisa comum e trocar.
Tem lista, tem site, tem não sei o q. Todos esses sistemas podem conversar entre si e eu acho que a gente tem que ver que tendo essa coisa por trás, tem uma estratégia maior que eu acho que todo mundo está mais ou menos querendo ir para um caminho. Isso é meio genérico demais, mas dá pra gente armar alguns espaços de convergência. Não é dizer que “não, agora para de escrever no seu blog e vai escrever no converse”, não é isso, é ver como que a gente faz para esses sistemas se integrarem, o que que é interessante de trocar, o que que a gente tem que a gente quer trocar com os outros e o que que os outros tem que interessa pra gente. Parar de trabalhar só, com a mesma galera, cinco pessoas trabalhando aqui enquanto tem cinco pessoas do lado, na sala do lado, trabalhando a mesma coisa. É integrar, é ver como que esses sistemas interagem entre si.
Essa parte da interação, só pra deixar esclarecida, é que determinado portal com seu blog, ele tem um esqueminha de acessar outro blog e o que foi escrito. Agora, aquela história assim, dificuldade técnica e todas essas coisa a gente se vira. Eu acho que é importante a gente ver que não existe um limite neste sentido para fazer as coisas funcionarem, eu acho que o grande problema é aquela história: saber o que uma pessoas está fazendo, que é a grande questão da rede.
A rede não é aquela coisa parada, silenciosa que quando você precisar você vai lá e pergunta para todo mundo. É legal uma rede tipo: olha, eu to fazendo isso, to fazendo isso aqui. Todo mundo jogar na roda e falar o que tem; que é a própria idéia deste evento que é cada um, de repente, falar o que sabe.
REDE DE PESSOAS, REDE DE PESSOAS, REDE DE PESSOAS, REDE DE PESSOAS
-Quando vocês falam em rede, vocês estão pensando em rede com uma estrutura lógica, com equipamento de informática e tal?/-Não, não é só isso. É assim.../
-Não, se vocês estão pensando em rede de pessoas, então nosso interesse é discutir rede de pessoas.../-Exato, é rede de pessoas...
Se a gente for discutir rede de pessoas:
Uma das questões que vai entrar aí é o seguinte: cada agrupamento de pessoas, tem uma galera hoje que gosta de chamar de tribo, acha que todo mundo aceita a idéia de tribo como um agrupamentos, ou em espaços urbano, ou em espaços rurais. Um grupo de pessoas que se aproximam porque tem o quê? Um conjunto de práticas, um conjunto de valores em comum; isso faz com que as pessoas façam a mediação da comunicação delas seguindo protocolos diferentes. Então, se vocês pretendem ter uma capacidade de intervenção dentro do tecido social brasileiro, vocês vão ter que distinguir as características de diversas redes e se preparar para fazer interface com elas, porque ainda a interface é a semelhança encontrando a diferença e a rede vai se compor por interfaces. Vocês não querem ter uma rede totalitária, com uma tecnologia totalitária. Como que vocês vão equiparar as diferenças ai dentro? As redes estão ai, estão funcionando totalmente e sublocalmente e está na hora de juntar essas redes. A minha grande questão é a seguinte: existe uma teoria do discurso, existe uma análise do discurso, existe aquilo que a gente fala e, aquilo que a gente fala, na verdade é um composto de valores. Então a minha intensao ela não necessariamente acompanha a minha prognição. O simples fato de você estar falando sobre rede: “olha só no seu caso a rede é assim.” Você está posicionando o registro. Como é que pessoas que falam idiomas diferentes vão se comunicar em uma rede? Mas acho que a rede, se ela se auto-organizar, uma hora vai virar uma zona, ninguém vai entender nada e o pessoal vai ter que começar a se entender. Acho que a vontade, de repente a vontade que eu estou de te entender agora é o mesmo esforço que você está fazendo de me entender. Mas a minha grande questão é que mesmo assim, vocês tem que prever. Eu acho que e gente tem que prever sim, senão eu fico como um arquiteto de uma rede social que eu quero construir. NÃO! Você só estaria fazendo isso se você estivesse demarcando estruturas dentro da rede. Mas olha só! Quando você desenvolve uma rede o que que você faz? Você estabelece um plano de parâmetros, dentro de qualquer rede, eu vejo vocês falando de parâmetros o tempo inteiro, vocês estão configurando parâmetros o tempo todo, não são as metáforas que está todo mundo querendo discutir. Então se eu colocar isso para uma rede social, o que que acontece? Para eu dimensionar uma rede social, para que ela resista a um certo padrão de estruturação, não é uma forma de estruturação, ela vai ter um certo grau de resistência. A partir de um certo grau de descarga em cima. Você fala resistência do que? De alguns pontos ou o quê? Eu estou falando pontos de rede.
EU NÃO SOU ESPECIALISTA, NÃO
VAMOS SUPOR QUE ISSO AQUI É UMA REDE!
Por exemplo, há uma capacidade de experiência entre sistemas. Vamos pegar uma questão que eu acho que são suficientemente simples para todo mundo acompanhar. Sistemas operacionais: de linux para windows. Entendeu? Para vocês trocarem dados que estão ali. E, eu não sou windows, não sou a onda tribo e tal, mas para poder fazer a transição de um dado para o outro, eu não tenho que antecipar o que que vai ser recebido lá? Para poder estabelecer o protocolo?
São questões que se você for falar isso friamente, parece que você é um cara que é calculista, mas NÃO. Porra, o cara atravessou a rua, cumprimentou o outro, se o cara olhou com cara feia, da próxima vez você não avalia antes de conversar com ele? A gente precisa parar pra pensar um pouco nisso do ser humano. É uma diferença dentro da cabeça dele e há uma diferença dentro da minha cabeça. Só que ela é diferente agora e vai ser diferente daqui a cinco minutos e dele também. No caso de você andar na rua, trocar um olhar estranho com alguém pressupõe que, de repente, rola uma hostilidade. Mas acho que no nosso caso, por mais que cada um fale uma coisa e tenha seus parâmetros diferentes, a gente está tentando se entender. Vou jogar mais uma questãozinha teórica: você encontra o cara na rua e de repente tem uma possibilidade de hostilização. ISSO. Essa hostilização, ela é o quê? Ela é um signo, e aí vamos lá. A base da história toda é linguagem. Então na verdade o que que acontece? Um interpretante, um interpretador pega o sinal e faz uma interpretação. Isso vai desde o sistema que está lá jogando bits dentro da máquina, até um grupo de países que vai e se altera. O cara ganhou um prêmio Nobel agora com a teoria dos jogos. Então o que que aquela historia de teoria dos jogos lá (tem a ver) com uma historia de uma casa Tainã? A própria história da teoria dos jogos é o seguinte: que a gente junto tem mais chance. Isso ai é o que você está colocando. Como essa teoria se constrói? Todo jogo precisa ter um objeto, precisa ter um objetivo, por tanto se estabelece estratégias. Você vai complexificando o jogo a medida que você quer. Da mesma maneira que se faz aquilo, segundo esses tais teóricos, isso acontece dentro de uma sala de aula, isso acontece dentro de um hospital, acontece dentro de uma família. Porque que não vai acontecer na ONG onde eu trabalho? Qual é o modelo? Como que eu represento isso? Entendeu? Acho que são questões que se a gente quer se aprofundar, se a gente quer realmente acompanhar esse movimento que está acontecendo ai.
Além da tecnologiA que é simples, que está dominada, a tecnologiA pra promover essa interação, promover essa conversa, fazer essa interface, fazer essa interferência. O que que é preciso além disso? Acho que tem uma história que é assim: uma disposição de querer colaborar, ter uma perspectiva de quem é que vai estar na outra ponta.
SÓ QUE ASSIM CARA:
MINHA VISÃO ESPECÍFICA:
NÃO TEM COMO FAZER:
UM SISTEMA QUE VÁ CONTORNAR:
ESSES PROBLEMAS.
Isso é um processo que é totalmente subjetivo, é totalmente pessoal. Ele parte de uma disposição que eu tenho de falar de uma maneira que aquelas pessoas que estão naquela mesa possam entender. Ou que estão aqui no espaço entre eles vão entender e elas vão aproveitar aquilo para elas, mas não tem sistema que vá prever isso. Isso é uma coisa que é totalmente impessoal e subjetivo e vai ter um monte de gente que não vai querer trabalhar assim, e não dá pra culpar essas pessoas. Eu trabalho, eu decido trabalhar dessa forma, eu decido trabalhar de uma forma que as pessoas que estão do outro lado dessa tecnologiA seja feito uma rede. Eu escolho trabalhar de uma forma que vai ser entendida do outro lado, então assim, eu acho que é isso. Não tem como fazer um sistema que preveja essas coisas, que corrija essas situações.