Diálogos na Casinha - Novaes - 11/05/2007
Conversa com Thiago Novaes sobre Simondon, rádio livre e um monte de outros assuntos, com grande participação por IRC e a massa de 13 ouvintes simultâneos do stream.
Áudio na íntegra publicado em três partes no Estudio Livre:
* Primeira parte
* Segunda parte
* Terceira parte
Em anexo, logs do irc.
A conversa partiu da proposta de Thiago Novaes, de traduzir e trazer a público as idéias de Gilbert de Simondon. Ele publicou em seu blog em 17/04/2007 o texto abaixo:
SIMONDON, Gilbert
Nascido em Saint-Etienne em 1924, faleceu em 1989. Professor nas universidades de Poitiers e depois em Paris, filósofo do século XX, considerado importante muito antes por Gilles Deleuze, permaneceu por muito tempo desconhecido. Adquire hoje uma importância crescente. Os conceitos principais que expõe em sua tese de doutorado são individuação e transdução. Digno herdeiro de Jacques Lafitte que preconizava em 1932 o desenvolvimento de uma ciência das máquinas, a mecanologia.
http://fr.wikipedia.org/wiki/Gilbert_SimondonA atualidade de Simondon reside nas novas problemáticas que apontam sua filosofia hoje para novas direções, além de rearticular a relação entre humanos e técnica, entre seres viventes e não viventes.
http://pascalnouvel.net/actualite-de-gilbert-simondonSimondon escreveu artigos em cadernos de pedagogia e psicologia, e junto a sua obra Do Modo de Existência dos Objetos Técnicos, contribui para o estudo da técnica e de novos processos sociais de ensino e aprendizagem de cultura técnica.
No Brasil, experiências como metareciclagem* e mimoSa** sugerem a compreensão de processos pedagógicos de ensino técnico-estético, reaproximando a técnica da cultura, exemplos singulares de uma nova cultura técnica.
“Podemos comparar a invenção do objeto técnico qualificado eventualmente de engenhosa, astuciosa, chamado corriqueiramente de “descoberta” com aquele objeto estético que será qualificado de criação. A obra artística será criação posto que ela admite culturalmente que o gênio criador transcenda a realidade onde não descobre uma realidade potencialmente existente, ela necessita de um criador particular “o artista”, insubstituível por natureza; de outro lado a obra técnica não será sena descoberta qualificada eventualmente de engenhosa, astuciosa, mas será uma descoberta, quer dizer, poderia aparecer mais dia menos dia. O problema aqui colocado, trata-se de um desequilíbrio injusto contra a técnica e a estética que não encontra nenhum fundamento rigoroso, a cultura está na causa pois é ela que está inscrita a apresentar todos os objetos do nosso meio.”
Trechos do diálogo
Transcrição (em processo)
Primeira parte
(disponível no Estúdio Livre
INTRODUÇÃO, lida por Alê.
9S:
Introdução ao Simondon. Primeiro momento. Simondon ainda vai ser mais estudado pra frente. Não tem muita tradução. Vai ser muito discutido ainda.
Traduzindo na lata.
Tem muito a ver com a MetaReciclagem, laptop de 100 dólares.
Questão ecológica, de lixo.
Mais tarde, se der tempo: Rádio analógico faz 100 anos; falar sobre a evolução das práticas e da legislação do rádio e pensar nesse momento atual, da digitalização.
SIMONDON
(Tradução direta do original)
Sobre o modo de existência dos objetos técnicos (introdução)
Esse estudo é animado pela intenção de suscitar uma tomada de consciência sobre o sentido dos objetos técnicos. A cultura é constituída como um sistema de defesa contra as técnicas. Ora, essa defesa se apresenta como uma defesa do homem, supondo que os objetos técnicos não contêm nenhuma realidade humana. Nós gostaríamos de mostrar que a cultura ignora na realidade técnica uma realidade humana e que, para ter o seu papel completo, a cultura deve incorporar os seres técnicos sob a forma de conhecimento, de sentido e de valores. A tomada de consciência dos modos de existência dos objetos técnicos deve ser efetuada por um pensamento filosófico, diz Simondon, que tem a preencher com essa obra um dever análogo àquele que teve a filosofia para a abolição da escravidão e a afirmação do valor da pessoa humana. A oposição endereçada entre a técnica e a cultura, entre o homem e a máquina, é falsa e sem fundamento. Ela não recobre senão ignorancia ou ressentimento. Ela mascara, por detrás de fácil humanismo, uma realidade rica em esforços humanos e em forças naturais, que constitui o mundo dos objetos técnicos, mediadores entre a natureza e o homem. A cultura se conduz para com o objeto técnico, como um homem no exterior, quando se deixa afetar pela xenofobia primitiva. O misXXXX orientado contra as máquinas não é tanto ódio ao novo, que recusa a realidade estrangeira. Ora, esse estrangeiro é ainda humano e a cultura completa é aquela que permite descobrir o estrangeiro enquanto humano. Da mesma forma, a máquina é um estrangeiro. É entrangeira naquilo que ela encerra de humano: desconhecido, materializado, subserviente, mas restando contudo do humano. A mais forte causa de alienação com relação ao mundo contemporâneo reside nesse desconhecimento da máquina, que não é uma alienação causada pela máquina, mas por um não conhecimento de sua natureza e de sua essência, pela ausência absoluta do mundo das significações (da máquina) e por sua omissão no quadro de valores e dos conceitos que fazem parte da cultura. A cultura está desequilibrada porque ela reconhece certos objetos como objeto estético, e dá a ele o direito de cidadania no mundo das significações; enquanto ela rejeita outros objetos, em particular os objetos técnicos, no mundo de sua estrutura, em que não possuem nenhuma significação, somente um uso, uma função útil. Diante dessa recusa defensiva pronunciada por uma cultura parcial, os homens que conhecem os objetos técnicos e sentem sua significação procuram justificar seu julgamento dando ao objeto técnico um único status atualmente valorizado fora daquele do objeto estético, ou seja, de objeto sagrado. Então, nasce um tecnicismo...
9S: vou parar pra dar uma pegada disso, que é a introdução.
Ele tá tratando de uma visão que seria adversária à da tecnofobia, que coloca [o objeto técnico] como alguém de fora, que é até romantica. Ele está encarando os objetos técnicos como parte da cultura, como parte do humano, e nesse sentido eu quero chegar no lixo mesmo, que é de onde vem um pouco a idéia de reciclagem. Pra pensar aquilo que o mbraz colocou da gambiarra que parte muito da matéria do lixo. Muitas vezes falar de reciclagem é como se estivesse tratando do problema do lixo, pegando o lixo e reintroduzindo ele no sistema. Quando na verdade é justamente o contrário: o ato de reciclagem é de retomar o humano e com a possibilidade da reciclagem colocar esse humano fora do ssistema, não dentro. A reciclagem não é um processo de reinserção, de reutilização. Avançando já no Simondon, reciclagem é resgatar o humano que está presente em todo esse lixo tecnológico colocado aí, que não é lixo. Porque na verdade é isso que se faz. O humano joga fora tudo que ele tem, ele não fica com nada. Não só no sentido consumista. Com o quê ele fica? Ele joga fora as relações humanas, joga fora... então tudo isso é o lixo. E reciclar é pegar tudo isso que o humano joga fora e voltar. E tem a via material e a via imaterial. Tentando trazer aqui pra pensar como está associada essa idéia de lixo a uma não-humanidade, mas é aquilo que a gente tira da gente o tempo todo. Coisas humanas, relações humanas, dignidade humana.
ALE: a intro fala de uma diferenciação de objeto estético e objeto técnico.
9S: ele tenta bater essa distinção.
ALE: porque o objeto estético já é assumido como uma coisa humana que entra na cultura sem essa resistência, a xenofobia que o objeto técnico tem. E os técnicos, pessoas que entendem o significado do objeto técnico, acabam criando uma divindade em torno desse objeto técnico pra que aí ele tenha esse valor estético e seja aceito na cultura...
9S: aí que tá. A distinção entre objeto estético e objeto técnico é clara. Na verdade, ele não é estético. Se ele fosse estético, aí sim teria sentido. Colocar que o set-top box da TV digital pode ser um objeto estético, quer dizer, um objeto estético embaixo da televisão, ou do lado. O que se coloca é que ele na verdade não é um objeto estético, ele não tem nada além da sua utilidade, que é uma caixinha preta feita pra decodificar o sinal; que não tem nada senão utilidade. O que ele fala: que ele tem utilidade, e aí ver a história do Simondon que vai pensar todo o processo de abstração... Vou usar o exemplo da caixa preta da TV digital porque a gente tá agora vivendo esse processo. A caixa preta TV digital está sendo fechada, todo o processo de individuação, quer dizer, de tornar o fechamento das funções, a questão estética, tá acontcenceo agora. Só que a população não sabe nada a respeito, ela vai tratar isso como objeto sagrado, perpetuar a relação.
ALE: você diria que a TV em si é um objeto estético já na nossa cultura?
9S: não, justamente ela não é.
ALE: só a tv, não o set-top box.
9S: Mas aí cê tá falando de automatismo e eu tô tentando puxar dispositivos. O automatismo pressupõe isso, que a máquina vai funcionar... A mídia por exemplo, entender a mídia como dispostivo e não como automatismo é você entender que pode utilizar o rádio e a TV pra fazer outras coisas que não projetar os seus conteúdos pra disputar hegemonia de identidades, sei lá, o que quer que seja. É um pouco isso, que pro Simondon não é acaso, é a tal da margem de indeterminação.
... Vai ficar hiperlinks e a gente vai puxando
ALE: é diálogo, isso aí
9S: pra pensar também paralelo entre simondon e software livre... interessante também nessa relação da evolução do objeto técnico. Vale fazer o histórico, a parte do texto que publicamos na lista do meta, que fala da idéia do progresso ténico. Enquanto o artesão tinha lá o objeto, pegava a ferramenta - distinção entre ferramenta e instrumento também é importante, também uma pergunta que rolou quando o stalker tava aqui. A distinção do Simondon: ferramenta é extensão do gesto. Como um martelo, XXX que tá incorporada no gesto. A evolução é acompanhada de um melhoramento do gesto. Você sente que está mais eficiente quando a ferramenta está melhor. O progresso é sentido no corpo. O instrumento tira do gesto, tira do corpo, essa percepção sobre o progresso. Instrumentos, como o microscópio, TV, ninguém sabe como funciona. Eles mudam a percepção. Expandem a percepção. Por isso é parte do humano, porque muda os próprios sentidos, a sensibilidade. Simondon escreveu muito sobre sensibilidade também.
((vou continuar a transcrição nas próximas semanas e vou publicando aqui))
Links sobre Gilbert de Simondon
Selecionados por Thiago Novaes
[fr] http://web.media.mit.edu/~cati/papers/Vaucelle_OnSimondon99.pdf
[es] multitudes e princípio de individuação, Paolo Virno
http://multitudes.samizdat.net/Multitud-y-principio-de.html[uk] apresentação de simondon
http://www.answers.com/topic/gilbert-simondon[uk] comentários de blog sobre individuação em simondon
http://larval-subjects.blogspot.com/2006/07/simondon-and-individuation.html[fr] introdução de meot
http://philia.online.fr/txt/simd_001.php[fr] biografia - introdução ao meot e à individuação
http://www.admiroutes.asso.fr/larevue/2000/2/simondon.htm[fr] artigo sobre a contribuição de simondon ao estudo da técnica
http://commposite.uqam.ca/2000.1/articles/gladu.htm[fr] politicas de individuação, pensar com simondon
http://multitudes.samizdat.net/-Majeure-Politiques-de-l-.html[pt] intersecções entre ambiente e realidade técnica
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-753X2001000800006&script=sci_arttextvídeos de referência:
*metareciclagem no encontro de conhecimentos livres do piuaih
http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=1312**mimoSa around the world
http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=2846seo paraíba
http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=2412manual do gato 2
http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=3239vídeo de ataque: xiado
http://darksnow.radiolivre.org/ataque_comunicacao.oggocupação anatel sp
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/05/254255.shtmlpara assistir use vlc:
http://www.videolan.org/vlc
Anexo Tamanho 2007-05-11.184727-0300BRT.txt 35.73 KB 2007-05-11.212405-0300BRT.txt 1.46 KB
Participar da conversa