Educacao a distancia, escrevendo para Casa Brasil
Curso de Formação em Educação a Distância
Módulo de Planejamento e Tutoria
Aluno: Ricardo Ruiz Freire
Unidade temática: Planejamento e Tutoria - EAD
Tutora: Cristina Brites
29 de maio de 2006
Atividade Avaliativa da Unidade 1
“os meios linguisticos moldam
o desenvolvimento social
tanto quanto os meios de producao”
(Marshall McLuhan)
No texto proposto sobre os Fundamentos do ensino a distancia, salienta-se que “hoje vivemos na Sociedade da Informação. Esta sociedade é um ambiente potencializado pelas tecnologias da informação e comunicação-TICs e que tem como uma de suas principais características o valor crescente do conhecimento para o desenvolvimento humano e social de indivíduos e grupos. É uma sociedade onde a informação é matéria-prima e a tecnologia um meio de agir sobre ela."
Porem, tao importante quanto a informacao – materia-prima e fonte de “riqueza da nova sociedade da informacao” (TOFFLER, 1990)– e o processo de transformacao social que se da devido a utilizacao de novos (e ate nem tao novos asssim) meios de comunicacao como ferramenta para a producao de informacao. Sendo neste campo de atuacao – o da possibilidade de producao de informacao – que gostaria de salientar infinitas possibilidades em cursos de EAD (Euducacao a distancia).
Já em 1968, em seu livro Os meios de comunicacao como extensoes do homem, Marshall McLuhan salientava como as novas tecnologias disponivies para a comunicacao - as redes de computadores - se tornariam extensoes de nossa consciencia humana, uma vez transferidos para codigos binarios funcoes do sistema nervoso central:
“O senso comum por muitos seculos foi tido como o poder especificamente humano de traduzir a experiencia de um sentido isolado para todos os demais sentidos, de modo a apresentar a mente uma imagem continuamente unificada da experiencia. De fato, esta ratio unificada entre os sentidos durante muito tempo foi considerada a marca de nossa racionalidade, bem podendo voltar a ser assim considerada em nossa era de computadores. Agora e possivel programar ratios entre os sentidos que se aproximem da condicao da consciencia. Mas esta condicao seria necessariamente uma extensao de nossa propria consciencia, tal como a roda e uma extensao dos pes em rotacao. Tendo prolongado ou traduzido o nosso sistema nervoso central em tecnologia eletromagnetica, o proximo passo e transferir nossa consciencia, de forma que ela não ceda ao entorpecimento e a alienacao narcisica provocada pelas ilusoes do mundo do entretenimento que assaltam a Humanidade quando ela se defronta consigo mesma, projetada em seu proprio arremedo.” (McLUHAN, 1968)
Importante salientar que McLuhan aponta o proximo passo a ser tomado frente a transferencia da consciencia humana para a rede: transferir nossa consciencia de uma forma não-alienada, entorpecida e narcisica -o fruto das ilusoes do mundo do entretenimento - da “Sociedade do Espetaculo” (DEBORD, 1967). Esse seria, em minha opiniao, fator norteador fundamental para os processos de EAD: a consciencia da funcao de metodologias do ensino a distancia como mais uma ferramenta para a “transferencia de consiencia” ativa e não-entorpecida. O proprio autor salienta, mais a frente, que:
“A continuar em seus padroes atuais de desrelacoes fragmentadas, os curriculos de nossas escolas não farao senao garantir a formacao de cidadaos incapazes de entender o mundo cibernetico em que vivem.” (McLUHAN, 1968)
Aqui, faremos um pequena conceituacao de cibernetico, já que citado pelo autor, com base nas teorias de Norbert Weiner, professor do Instituto de Tecnologia de Massachussets durante a decada de 50. Em seu livro Cibernetica e Sociedade – o uso humano de seres humanos, Weiner classifica a cibernetica como a ciencia que estuda os comportamentos de sistemas de comunicacao em tarefas de recebimento e transferencia de informacao, com base no principio fisico da acao e reacao. Pelas palavras do proprio autor:
“O proposito da cibernetica e o de desenvolver uma linguagem e tecnicas que nos capacitem, de fato, a haver-nos com o problema do controle e da comunicacao em geral, e a descobrir o repertorio de tecnicas e ideias adequadas para classificar-lhes as manifestacoes especificas sob a rubrica de certos conceitos. (...) A minha tese e a de que o funcionamento fisico do individuo vivo e o de algumas maquinas de comunicacao mais recentes são exatamente paralelos no esforco analogo de dominar a entropia atraves da realimentacao.” (WIENER, 1954)
Desta forma, acredito tambem que ferramentas de EAD podem ser, quando bem planejados, eficientes ferramentas ciberneticas, uma vez que podem agir de forma diferente dependendo dos inputs e outputs tanto de usuarios como de tutores.
Isso permite que o processo de aprendizado seja dsitribuido e especifico, respeitando a individualidade de cada pessoa, e o acompanhamento cibernetico de um sistema de EAD possibilitaria o desenvolvimento de diferentes areas da pesquisa, salientando aspectos fundamentas desta em publicacoes diversas, e possibilitando o uso do meio virtual para tanto. Com isso, um dos preceitos defendidos por Paulo Freire em seu texto Pedagogia da Autonomia poderia ser respeitado: o de que “ensinar não e transferir conhecimento”:
“(...)ensinar não e transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua propria producao ou a sua construcao. (...) como professor num curso de formacao docente, não posso esgotar minha pratica discursando sobre a teoria da não extensao do conhecimento. não posso apenas falar bonito sobre as razoes ontologicas, epistemologicas e politicas da teoria. O meu discurso sobre a teoria deve ser o exemplo concreto, pratico, da teoria.(...) Ao falar da construcao do conhecimento, criticando a sua extensao, já devo estar envolvido nela, e nela, a construcao, estar envolvendo os alunos.” (FREIRE, 1996)
O processo de construcao de conhecimento como algo colaborativo e o que vtenta-se desenvolver, por exemplo, em metodologias de metareciclagem – http://www.metareciclagem.org . A apropriacao dos processos tecnicos pelos individuos, segundo os conceitos metarecicleiros, e o que permitiria uma nova tomada de consciencia do ser perante os objetos tecnicos e todo o processo social no qual este esta inserido. A construcao colaborativa e coletiva, em contato pessoal com as diversas formas disponiveis de ferramentas comunicacionais, permite novos processos de utilizacao dos meios como ferramentas de acao politica e de transformacao social. Isso e tambem defendido por Richard Barbrook, em seu livro Imaginary Futures. Salienta que as novas ferramentas permitem um novo formato democratico, mais inclusivo, e comentando o livro Os meios de comunicacao como extensoes do homem, de Marshall McLuhan, Dr. Barbrook escreve:
“Marshall McLuhan estava convencido que a emergencia de uma nova economia seria acompanhada de uma transformacao radical no sistema politico. A imprensa não tinha apenas criado a fabrica, mas tambem o estado-nacao. Se a internet (net) iria abolir o primeiro, ela tambem iria se livrar do segundo. Em Os meios de comunicacao como extensao dos homens, McLuhan explicou que a combinacao da imprensa com a roda possibilitou a lideres politicos extender seus controles para alem dos limites da comunidade tribal: a “explosao do social”. Conforme essas tecnologias se difundiram pelo mundo, a humanidade foi dividida nos estados-nacoes rivais da 'Galaxia Gutenbergueana'. Internamente, as instituicoes politicas da modernidade impuseram homogeneidade linguistica e cultural. Externamente, estes estados-nacoes enfatizaram suas especificidades linguisticas e culturais. McLuhan acreditava que, depois de seculos de dominacao – esse sistema politico estava agora em crise. Enquanto o impresso dominou a sociedade, pessoas aceitaram as limitacoes da democracia representativa. Mas, com o advento da midia eletronica, eles agora buscariam participacao mais direta no processo de tomadas de deccisoes politicas. Cedo ou tarde, escolher entre canditatos em eleicoes infrequentes seria substituido por votacoes online em referendos diarios. As novas tecnologias da informacao estavam comecando a impor um novo paradigma: a 'implosao do social'.” (BARBROOK, 73)
Mais a frente no mesmo livro, o autor afirma que a internet eh, muito alem do que desejavam os acionaistas da bolsa de nova iorque no final da decada de 90, uma poderosa ferramenta de construcao informacional e de identidade individual, e que a comunicacao bilateral possibilitaria, pela primeira vez, reais relacoes de troca entre pessoas de todo o mundo. A pessoa, como produtora de sua propria midia, seria capaz de criar seus proprios universos midiaticos, independentes dos já conclamados pelo sistema de dominacao cultural vigente. O autor afirma que:
“(...) o advento da internet revigorou a profecia do a'gora eletronico. Devido a sua longa incubacao dentro da academia, os motes sociais e arquitetura tecnica dessa forma de comunicacao-mediada-por-computadores foram fundadas no compartilhamento de informacao: a Gift Economy Hi-Tech. Como as distribuidoras de musicas e filmes prontamente descobriram, a internet não foi desenvolvida para o comercio de bens midiaticos. Pelo contrario, Tim Berners-Lee inventou o software iconico da rede como uma ferramenta de publicacao faca-voce-mesmo. Pela primeira vez, o a'gora eletronico não poderia ser recuperado. Ate mesmo no pico da bolha-ponto-com do final da decada de 90, o comercio eletronico foi obrigado a conviver com a comunidade virtual. Conforme as tecnologias da rede evoluiam, mais e mais pessoas aprendiam como fazer sua propria midia: websites, listas de discussao, grupos de noticias, blogs e jogos online. Gracas a esse metodo de comunicacao bilateral, ativistas de esquerda de todo o mundo foram capazes de organizarem-se contra as depredacoes do neo-liberalismo: o movimento pela justica global. No final dos anos 90, o Marxismo-McLuhanistico conseguia seu status como o egide da teoria entre intelecutais radicais. Toni Negri – o profeta do Auntonomismo Italiano – e Michael Hardt – seus camarada estadunidense – declararam que a internet estava preparando os caminhos para a vitoria das 'multitudes' oprimidas da humanidade sobre o 'imperio' do capitalismo corporativista. Como a Nova Esquerda havia previsto trinta decadas antes, o futuro era o comunismo cibernetico” (BARBROOK, 206)
Assim como centenas de outras ferramentas da internet, sistemas de EAD são ferramentas para a producao de identidade (e realidade). Salientando o respeito aos saberes necessarios a pratica educativa, segundo Paulo Freire, sistemas de EAD são potentes ferramentas para o aprendizado colaborativo, e, dentro dese aprendizado, acredito que estes cursos devam fortificar o conhecimento de seus alunos das possibilidades do meio que ele utiliza como subjetil, para o completo enlouquecimento do mesmo:
“Como sujeito e como objeto, o subjetil enlouquecido trai enfim o efeito endurecido, inerte, resfriado, da submissao a inabilidade de deus. Mas, sob ele, e preciso perfura-lo para isso, po-lo a prova, não poupa-lo como uma entrada, sob ele, uma vez arrebentado, poder-se-ia fazer “voltar” o in-nato, “voltar ao homem”.” (DERRIDA, 86)
-REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicaccao como extensoes do homem. Traducao de Decio Pignatari. Cultrix. são Paulo, 1964
WIENER, Norbert. Cibernetica e Socieade – O uso humano de seres humanos. Traducao de Jose Paulo Paes. Cultrix. são Paulo, 1954
BARBROOK, Richard. Imaginary Futures – from thinking machines to the intergalactic network. Disponivel em http://www.imaginaryfutures.net. Londres, 2005
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - saberes necessarios a pratica educativa. Paz e Terra. são Paulo, 2004
DERRIDA, Jaques. Enlouquecer o subjetil. Trad. de Geraldo Gerson de Souza. Atelier Editorial, Cotia, 1998
TOFFLER, Alvin. Powershift: Knowledge, Wealth and Violence at the Edge of the 21st Century. Bantam Books. Nova Iorque, 1991
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetaculo. Disponivel em http://www.geocities.com/projetoperiferia4/se.htm , Paris, 1967
Participar da conversa