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Operação Pirata

texto de: Hernani Dimantas

O que vem a ser uma operação pirata? Em princípio, trata-se de uma contextualização do momento brasileiro que possibilitou a explosão de projetos colaborativos emergentes. Uma busca da prática num ambiente de caos e ordem. Algumas abstrações podem ser mais bem trabalhadas. E, muitas vezes, revistas, auditadas e modificadas. Afinal, estamos trabalhando dentro de uma tecnologia ainda desconhecida. Não temos certeza da potencialidade.

Entendo a rede como um sistema mutante. E são tantos os pontos de vista que prefiro abrir um debate ao invés de me apoiar em idiossincrasias. Um quebra-cabeça desmontado. Partes jogadas, desmontadas. Um pedaço do céu, uma montanha, um avião passando [Weinberger; 95]. Juntar todas estas imagens para criar um novo desenho, montando uma nova realidade. Na Web fazemos bricolage [Locke; 58]. Desmantelamos o conhecimento em partes desconexas, e recriamos com uma forma particular. Cada um faz o seu próprio mundo.

Penso que este conceito faz sentido. Heidegger privilegia o futuro, porque é esta projeção para o devir e o golpe da devolução no embate com a morte que lá está e que o leva a pensar e à autoconscientização. O homem pode então introduzir esse conhecimento existencial no projeto de sua vida, e assim se apropriar da existência fazendo-a efetivamente sua, tornando-se autêntico, não mais um ente sem raízes [Cobra; 105] . Temos que aprender a olhar o mundo sob o enfoque do outro. Para não cair nos casuísmos, nos clichês e na babaquice cotidiana. Afinal, a experiência virtual é pessoal. Depende da vontade do interlocutor de escovar mercados. Brincar de levar nossos desejos a sério. E com essa seriedade encaro a rede como um consciente coletivo que funciona com regras diferentes do convencional. Não faz sentido tentar particionar a vida em contêineres do saber. Prefiro tentar enxergar o todo rizomático [Deleuze; Guattari; 19]. Não apenas a árvore.

Assim, a Operação Pirata é uma conversação em rede. Um tipo de interconexão que acontece em tempo real. Uma conversação engajada. E, principalmente, com uma expectativa existencial otimista em relação as possibilidades de mudanças e de revoluções. A Operação Pirata favorece o diálogo. Uma relação que só é possível quando há uma compreensão inequivoca do que é Linkania [Estraviz; 106]. No link está a mensagem. Na NovaE [www.novae.inf.br], no Marketing Hacker [www.marketinghacker.com.br], no Projeto Metáfora [www.projetometafora.org], no MetaReciclagem [metareciclagem.org] e o Colab [colab.info] foram, são ou estão desevolvidos nesse ambiente da ‘revolução não televisionada’. Com um enfoque próprio que muitas vezes não explica, como também apresenta uma direção diferente de cada Operação Pirata. Esta operação não está ensimesmada na tecnologia. São pessoas que estão participando de uma grande conversação. E muitas delas nem sabem disso. Internet é uma tecnologia assíncrona, onde tudo parece diferente. No entanto, são pessoas se relacionando com outras pessoas. Esse é o mote.

Não existe colaboração sem generosidade

Não existe colaboração sem generosidade. Não existe linkania sem generosidade. Estou aberto para conversar com qualquer pessoa do mundo. A internet me dá essa possibilidade. Colaboração tem a ver com projetos de interesse comum. Um incentivo à busca de informação relevante. Aí é que entra o “escovar mercados”: quem não escova os mercados não vai conseguir compreender que o mundo está mais coletivo. [Estraviz; Dimantas]

Mas esse coletivo não destrói o sujeito. Vivemos um coletivo de individualidades. Ou seja, o network de egotrips [Dimantas; 25, Estraviz; 108]. Pois na Web podemos perceber a força das publicações individuais. Pois a publicação de artigos e idéias, a um baixo custo, e o engajamento de pessoas reunidas através de chats, listas de discussões, home pages e fóruns nos aponta a um diferencial.

Linkar, linkar e linkar. Esta é a máxima deste novo mundo. Linkar por generosidade, pois sabemos que gentileza gera gentileza. Linkar porque temos interesses comuns com pessoas de verdade. Pessoas que pensam, amam, brincam, namoram e têm filhos. Esses filhos continuando linkando suas vidas às outras vidas. Linkar tem objetivos. Recuperar a voz perdida. Buscar nas entrelinhas digitais um lapso de esperança. Uma humanidade mais humana. Linkania é a evolução colaborativa.

Isso parece óbvio. Mas muitas vezes não agimos desta forma. Criamos carapuças para nos esconder. Pequenos atos são importantes para subverter o cotidiano. E são esses pequenos atos de generosidade que alimentam a revolução digital. ‘A vida é muito curta porque nós morremos. Quando estamos sozinhos, refletindo, paramos para pensar naquilo que é realmente importante. Nossas crianças, nossos amigos, amantes e nossas perdas? As coisas mudas. E, mudanças são sempre dolorosas. Pessoas diminuem suas vidas, mudam-se, a velha vizinhança não é mais aquilo que costumava ser. Crianças ficam doentes, melhoram, ficam entediadas, nos enervam. Eles crescem ouvindo notícias do mundo muito mais horrorizantes do que os antigos contos de fadas.’ [Locke; 55]

Vivemos este momento de ebulição. O pensamento ferve. A cabeça esquenta. As idéias destrõem seus limites e se tornam livres para o mundo. Um turbilhão de lava espalha medo nas interfaces culturais.

A Era da Conexão

Vivemos em rede. Rede de amigos, de parentes, família, negócios, engendradas nos relacionamentos 'conversacionais' das pessoas comuns. A rede é o princípio de uma sociedade, que emerge quando a gentileza gera gentileza. Mas estamos vivendo um processo de intersecção. Não entre a cultura de massas e a cultura de rede, mas entre idéias e teorias diferentes.

David Weinberger entende a web como um mundo compartilhado, que estamos construindo juntos. Esse processo de construção seria caracterizado por uma ruptura dos contêineres do tempo e espaço, ou a ‘desconteinerização da metafísica padrão’ [Weinberger, 122]. Neste sentido, a internet pode ser entendida como um novo lugar. Um ambiente diferente. Internet não é apenas uma nova mídia, um canal de comunicação. Existe vida inteligente por trás de cada monitor. E esse novo lugar é propício para as conversações e, como conseqüência, para uma sociedade colaborativa.

Um novo bom senso emerge da imensidão dos hubs [Weinberger; 121, Barabási; 01]. Internet não tem nada a ver com computadores. Tem a ver com pessoas. De nada adiantam programas incríveis, tecnologia de bolso ou quaisquer outros aplicativos se as pessoas não estiverem vivendo, convivendo e participando desse lugar feito de cabos, silício e, também, de tecnologia sem fio.

A internet depende da tecnologia para crescer e florescer. Mas não é pelo viés da tecnologia que podemos pensar e explicar a revolução digital. Essas tecnologias são meios que nos levam para o infinito e além. Meios de translação, de comunicação, de interação, no sentido de que nos possibilitam o trânsito, o viver entre idéias, culturas, informação e conhecimento diversos.

Desde o século XIX, grande parte do esforço científico tem sido aplicada no desenvolvimento de meios de translação e comunicação, ou seja, de novas formas de conectar pessoas. Carros, aviões, rádio e televisão, de uma certa forma, encurtam a distância entre os seres humanos. Carros, aviões, rádio e televisão, ao mesmo tempo, se constituem em poderosos instrumentos estratégicos pelos quais circulam idéias e modos de vida. A internet segue nesta mesma linha: serve para conectar pessoas, idéias, modos de vida e produção social. Weinberger denomina esse esforço como a era da conexão, embora outros termos pareçam descrever igualmente estes tempos marcados pela comunicação, informação, conexão.

Mas, com relação aos demais meios de comunicação e informação, a internet é mais abrangente. Ela não apenas aproxima as pessoas. Ela cria um novo lugar de convivência. A internet é um mundo diferente daquele no qual crescemos.

Tempo e espaço não têm o mesmo significado que aprendemos nas experiências comuns ou mesmo com os demais meios de comunicação. O meio físico caminha para a virtualidade. E a virtualidade caminha para a realidade. O paradoxo, assim, se transforma em paradigma [Locke, 58].

Internet não depende apenas de computadores, mas necessita da tecnologia para estabelecer o status quo virtual. Sem meios de acesso ficaremos marginais à sociedade virtual. Democracias interconectadas, para existir, precisam de acesso irrestrito para garantir-se enquanto tais. Neste contexto, a tendência é de que haja convergência de tecnologias, no sentido de operar a passagem entre a tecnologia anterior para a digitalidade da rede. Telefones conversam com a rede, enviando e recebendo informações. Televisões devem fazer o mesmo. Os portáveis, incluindo celulares e PDAs, deverão estar conectados em rede, propiciando aos usuários uma conexão ao mundo virtual, onde possa ser possível aceder às informações e blogar suas análises, retroalimentando a rede.

Atualmente utilizamos uma tecnologia que remonta há mais de 30 anos. Por que propor avanços? Simples: avanços significam barateamento e massificação da tecnologia. Assim, a grande sacada está em dar vazão a essa conectividade. Buscar o potencial para incrementar o inter-relacionamento dos mercados, ou bazares, para usar o termo de Eric Raymond, enquanto mediações entre pessoas, produção, produtos e signos.

Então, é impossível desvincular cibercultura de inteligência coletiva e da catalisação dessas inteligências pela internet. Por trás de cada computador há um ser humano buscando uma nova forma de aprender, produzir, se expressar, ensinar, aproveitar e prosperar. E humanos são também sonhos, sentimentos e contradições, não apenas razão, cérebro e máquina. Já disseram que dentro de nós há multidões. Também já disseram que somos símbolos ou signos. Hoje podemos dizer que somos links. Links que se conectam com outros links. [Barábasi, 01]

Software livre e mídia tática

A adoção do software livre pelo governo federal é real. Uma afronta ao monopólio? Ou a compreensão de que o conhecimento livre pode ser uma saída viável para a sobrevivência do terceiro mundo? A tecnologia livre é um grande atalho para o futuro. Não é necessário esperar pela boa vontade da política imperial. A apropriação e ocupação de espaços acontecem de maneira emergente quando o conhecimento pertence a multidão.

Não tenho a intenção de fazer proselitismo sobre essa guinada pró-software livre, como alguns setores vêm fazendo. Creio que esse processo não deveria ser político-partidário. Muito pelo contrário: software livre, como o próprio nome o define, é livre. Um patrimônio da humanidade que deve ser tratado longe das amarras do poder.

São as comunidades, as pessoas envolvidas nesse processo descentralizado, e não um ou outro partido, uma ou outra empresa. Programadores, pensadores, universitários, professores, gestores sociais, enfim, pessoas que estão conectadas não precisam esperar pelo sinal verde do governo. Ou pela demanda das corporações. Podemos agir por nós mesmos. A opção pelo software livre é importante para as nossas comunidades. Então, vamos falar sobre isso! Até cansar: repetir e repetir. Pela nossa liberdade.

O Brasil (não apenas o governo brasileiro) tem a possibilidade de criar produtos e serviços com uma tecnologia disponível a todos, num ambiente colaborativo, onde as melhores cabeças do mundo estão comprometidas com este movimento e dedicam suas habilidades para disseminar uma nova forma de desenvolvimento de softwares e de trabalhar colaborativamente com o conhecimento. Neste mundo de códigos livres não existe jogo de poder. Existe apenas o livre fluxo do saber.

O software livre já é uma realidade para o usuário ‘default’: pessoas que utilizam um ambiente gráfico, cliente de email, MP3, queimador de CD, planilhas eletrônicas e outros aplicativos de uso cotidiano. Não considero software livre como substituto do software proprietário. São equivalentes e complementares sob o ponto de vista macroeconômico. No entanto, filosoficamente o software livre tem uma relação de ruptura paradigmática na sociedade moderna. É um novo modelo de produção. Colaboração ao invés de investimento de capital. Generosidade ao invés de concorrência.

O software livre, no entanto, não proporciona per si a desapropriação mental. Este é um processo que tem mais a ver com a liberdade de conhecimento, da qual o software livre é, basicamente, um bom exemplo. Mas não sejamos ingênuos. Os latifúndios culturais se arranjam mesmo dentro dos movimentos de software livre. É por isso que prefiro falar em descentralização em vez de democratização.

Na verdade, software livre é uma tendência inexorável. Não é necessário digladiarmos contra o status quo proprietário. O movimento pelo software livre não pode ser contido. Não é um cântico de vitoria prematuro. É lógico que existem forças muito poderosas com interesse em brecar a ascenção do conhecimento livre. Negri define a ação do Império de maneira primorosa. A multidão hiperconectada emerge como um contra-poder. Esse contra poder são as conversações prescritas pelo Manifesto Cluetrain, são as linhas de comando propostas propostas pelos movimentos do software livre. Essa rede só pode ser quebrada pela negação do acesso. Isso não me parece provável. Pois, a Internet, por um lado, possibilita toda a algazarra da multidão, por outro favorece ao Império capitalista. Este é o paradoxo do século 21.

A colaboração é um processo que não nasceu com o computador. Está na boca do povo, ronda os asfaltos poeirentos das periferias. Mas temos que ser justos com a tecnologia. A catalisação da colaboração não é uma caso em desenvolvimento. É uma realidade virtual. O Linux nasceu, cresceu, amadureceu e, agora, atinge o orgasmo tecnológico. Uma era colaborativa está nos preparativos para o orgasmo do conhecimento livre.

A nova criatura é tática. Uma TAZ flutuante

Faz algum tempo que temos sugerido que o capitalismo está sofrendo um processo de ruptura através das conversações da rede. Essa afirmação parece ingênua. E, talvez, um recorte leviano que nos aponta para uma verdade anunciada. Realmente, quando analisamos de fora, desvinculados das idéias recorrentes, parece uma grande utopia. Tento provar o contrário. Rede pressupõe engajamento e imanência.

Portanto, para entender essa ruptura temos que montar um cenário para a contextualização do que significa conversação. Não é tão difícil definir esse movimento. Zonas piratas emergem de uma rede catalisada pela conectividade cibernética. Hakim Bey denomina esse fenômeno como TAZ (Temporary Autonomous Zone). Esse barulho das TAZes identifica e aponta para as mutações provocadas por uma sociedade que começa, sensivelmente, a acrescentar um viés colaborativo aos meios de produção. [Bey, 07]

TAZ significa zona autônoma temporária. São lugares no espaço, no tempo e nas idéias que escapam dos poderes. Ou melhor: invisíveis aos poderes, durante algum tempo e de uma maneira nunca absoluta –-já que não existe "liberdade total". TAZes são espaços nos quais pessoas desenvolvem autogoverno(s) e expandem desejos múltiplos. Festas, comunas, surubas, invasões ou simplesmente comunidades, livre-associações. A TAZ nos faz retomar a idéia de impermanência.

Essa impermanência é uma atitude de uma sociedade conectada. Uma desconstrução para uma aglutinação com uma outra estabilidade. Assim, não dá para entender esse novo momento sob a ótica e convenções do velho paradigma capitalista. A impermanência é um aspecto da esquizofrenia informacional. Negri e Hardt chama de multidão esse monstro ontológico que aflora de baixo para cima para o enfrentamento do poder imperial.

Como em todos os processos inovadores, o modo de produção que emerge é instalado contra as condições das quais ele deve se liberar. O modo de produção da multidão é instalado contra a exploração em nome do trabalho, contra a propriedade en nome da cooperação, e contra a corrupção em nome da liberdade. Auto-valoriza os corpos no trabalho, se reapropria da inteligência produtiva mediante a cooperação, e transforma a existência em liberdade. A história da composição de classe e a história da militância trabalhadora demonstram a matriz destas sempre novas, e ainda assim determinadas, reconfigurações de autovalorização, cooperação e auto-organização política, como um efetivo projeto social.1 [Negri, Hardt, 66]

A esquizofrenia atinge, assim, seu lugar na estrutura política. Não somos indivíduos. O corpo não dividido foi escorraçado por Freud. As multiplicidades de singularidades formam a multidão hiperconectada.

O 'ser' deixa de o centro da existência. O cartesianismo não explica mais o nosso mundo. Está, lentamente, sendo deixado no seu lugar. O pensamento humano está em transformação em tempo real. Não mais pensamos para poder existir. Aliás, como diz Murilo Mendes: “Só não existe o que não pode ser imaginado”.

Pensamos rizomas. Não só nas raízes que se bifurcam, crescem aleatoriamente sem comando e controle. O rizoma nos mostra o comportamento das redes, onde a trama de nós não mais identifica o ser, o corpo, o autor. Somos um produto rizomático. Multidões dentro de todos nós. Dentro e fora, fora e dentro. O corpo não tem limite.
A máquina está incorporada ao nosso destino [Sodré, 81]. Usamos a máquina como distensão do homem. [McLuhan, 63]

É complicado? Bem, esqueça aquilo que o faz se enxergar como ser humano. Estamos nos referindo a uma outra tradição filosófica. Isso implica na maneira de sentirmos a vida. Para que tanto racionalismo? Por que pensar no homem como centro do mundo? E para que tanto esforço? O corpo se distende para um todo. As relações corpo-máquina (e todas as relações que derivam dessas aproximações) nos fazem entender que não mais importa diferenciar as partes. O ser natural, aquele desprovido dos males tecnológicos, jamais existiu. Ou melhor, não existe desde que as funções do homem se distendem na relação com o ambiente. E isso data da idade da pedra lascada. Nossa cultura é híbrida, mestiça e miscigenada. Somos todos filhos das putas.

Brasil é hacker

Em 'The hacker Ethic and the spirit of the information age', Peka Himanen identifica o hacker como: ‘A questão principal, então, passou a ser como seria se o hackers começassem a ser analisados sob uma perspectiva mais abrangente. O que significa o desafio lançado por eles? Sob essa ótica, a palavra hacker é utilizada para descrever uma pessoa com uma determinada obsessão pelo trabalho, relação essa que está ficando cada vez mas aparente na Era da Infomação. Desse ponto de vista, a ética dos hackers é uma nova ética de trabalho que desafia o comportamento em relação ao trabalho, conforme explica Max Weber em seu clássico A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. (...) Contudo, a ética dos hackers é, acima de tudo, um desafio para nossa sociedade e para nossa existência. Além da ética do trabalho, o segundo aspecto é a ética do dinheiro – um aspecto definido por Weber como outro componente da ética protestante. É certo que o compartilhamento das informações mencionado na definição da ética dos hackers não é a forma predominante pela qual se faz dinheiro. Ao contrário, as pessoas ganham dinheiro, na maior parte dos casos, quando detém a informação. [Himanen,43]

Continuando nessa linha de raciocínio, Himanen define o mundo hacker e suas motivações pelo desejo de construir algo para a comunidade. Algo que seja valoroso. A reputação aparece aqui como uma forma de 'remuneração'. Mas ninguém vive de reputação.

Os hackers surgiram no ambiente universitário. Com as contas balanceadas é fácil, muito fácil, romper com as estruturas impostas pelo capitalismo. Stallman podia priorizar o desenvolvimento de um driver para a impressora. E quebrar com os modelos da indústria de software [Stallman, 83]. No Brasil ele morreria de fome.

As originalidades das conversações que acontecem no baixo hemisfério devem ser analisadas de outro viés. Ser hacker é uma forma de sobrevivência. Essa análise se descola da cibercultura e entra nas relações que acontecem na sociedade brasileira. A colaboração é uma estratégia de sobrevivência nas periferias. Não vou me alongar nas perversidades das classes dominantes; vou focar na forma que os brasileiros descobrem o atalho para o futuro.

É lógico que o debate na sociedade virtual está osmoticamente invadindo a sociedade estabelecida. Alguns princípios do ser humano estão sendo transformados. O novo bom senso aceita a revolução digital como propulsora de uma nova ordem. Aceita a anarquia como uma forma viável de balanço entre os poderes. Aceita que o conhecimento deve ser livre, e o direito de as pessoas comuns de dividir esse conhecimento. Assim, empresas e o governo se tornam muito mais frágeis frente a essa realidade. Construíram um verdadeiro muro de Berlim, que divide a sociedade em castas dos opressores e oprimidos, dos poderosos e fracos, dos produtores e consumidores, do bem e do mal. Não acredito numa sociedade tão maniqueísta. Assim, a multidão hiperconectada vem promover a ruptura da ética protestante, que ajudou a evolução da sociedade industrial. Pois, na era do conhecimento, esses valores devem ser sobrepujados por uma outra ética. A proposta da sociedade da informação é a ética Hacker, que está sendo adotada pelo movimento do software livre.

Para entender esta ruptura dos paradigmas temos que pensar e participar. Um novo sistema está nascendo. Esqueça o velho comando e controle. Está surgindo uma consciência inequívoca de que a construção de baixo para cima tem muito para oferecer para o desenvolvimento do processo coletivo. Uma sociedade que sobrevive e se recria na sua própria diversidade [JOHNSON, 46].

E, assim, tudo muda. Crianças aprendem a colaborar, a desenvolver projetos online e a espelhar os sonhos no ambiente web. [Brown,104] O mundo virtual não é diferente do nosso bom e querido mundo real. A internet está ensinando os usuários a se inter-relacionarem neste espaço virtual. Não existe segredo, apenas boa vontade e obstinação.

Criar para a sociedade. Fazer acontecer independentemente do retorno financeiro a curto prazo. É esta a grande novidade. A metodologia de trabalho é simples e virtual. Qualquer pessoa com um computador conectado na rede e com um pouco de conhecimento tem a possibilidade de participar voluntariamente de alguns projetos importantes. Assim, o novo mundo está pronto para o usuário (sic) final. E sem dúvida é a melhor opção.

Agenciamento Coletivo

Gisele Beiguelman sugere que a interface não é apenas uma membrana que separa o espaço do ciberespaço. A interface é uma espuma que agrega a relação num espaço informacional [Beiguelman, 103]. Lev Manovich faz essa distinção da interface sob uma ótica cultural. Manovich também não considera a interface uma membrana. Algo entre uma coisa e a outra. Interface é explicada no âmbito da cultura. Assim, para explicar esse momento de fervura temos que tentar fazer uma pausa para derivar e extrapolar a curva de mutações que estamos presenciando. Manovich utiliza o termo interface cultural para descrever as maneiras que os usuários interagem com o computador; e segue: ‘Como a distribuição de todas as formas de cultura se tornam baseadas nos computadores, nós estamos aumentando a relação com os dados predominantes da interface cultural – textos, fotografias, filmes, músicas, ambientes virtuais. Em resumo, não estamos mais nos relacionando com os computadores mas com a cultura codificada em forma digital.’ [Manovich, 61]

Essa afirmação tem tudo a ver com a idéia do agenciamento coletivo da enunciação.2 Deleuze e Guattari dizem: Até mesmo a tecnologia erra ao considerar as ferramentas nelas mesmas: estas só existem em relação às misturas que tornam possíveis ou que as tornam possíveis. O estribo engendra uma nova simbiose homem-cavalo, que engendra, ao mesmo tempo, novas armas e novos instrumentos. As ferramentas não são separáveis das simbioses e amálgamas que definem um agenciamento maquínico Natureza-Sociedade. Pressupõem uma máquina social que as selecione e as tome em seu phylum: uma sociedade se define por seus amálgamas. E, da mesma forma, em seu aspecto coletivo ou semiótico, o agenciamento não remete a uma produtividade de linguagem, mas a regimes de signos, a uma máquina de expressão cujas variáveis determinam o uso dos elementos da língua. Esses elementos, assim como as ferramentas, não valem por eles mesmos. Há o primado de um agenciamento maquínico dos corpos sobre as ferramentas e sobre os bens, primado de um agenciamento coletivo da enunciação sobre a língua e sobre as palavras. E a articulação dos dois aspectos do agenciamento se faz pelos movimentos de desterritorialização que quantificam suas formas. É por isso que um campo social se define menos por seus conflitos e suas contradições do que pelas linhas de fuga que o atravessam. Um agenciamento não comporta nem infra-estrutura e superestrutura, nem estrutura profunda e estrutura superficial, mas nivela todas as suas dimensões em um mesmo plano de consistência em que atuam as pressuposições recíprocas e as inserções mútuas.3 [Deleuze; Guattari; 20].

Dessa maneira, creio que a internet, ou melhor, o espaço informacional derivado não pode ser ensimesmado na tecnologia. A tecnologia aponta para o incremento do estado de relações entre as pessoas. A rede só existe por causa das relações. E não o contrário. David Weinbeger diz: Bem, aqui temos dois mundos. No mundo real as pessoas são separadas pela distância. Por causa da vastidão da terra diferentes culturas se desenvolveram. Pessoas vivem em países separados, divididos por fronteiras e, as vezes, por muros com soldados e armas. Na Web as pessoas caminham juntas - se conectam - pois estão interessadas nas mesmas coisas. Eles se preocupam com as mesmas coisas. O mundo real é sobre como as distâncias apartam as pessoas. A Web é sobre como o compartilhamento dos interesses juntam as pessoas. Agora, se a conexão e a preocupação nos fazem humanos, então, a Web - construída pelos hyperlinks e energizadas pelo interesse e a paixão das pessoas - é um lugar onde podemos ser melhores pessoas. E é para isso que serve a Web. [Weinberger, 95]

Linkando essa construção de um ‘mundo mental’ num dado espaço informacional percebemos a web como um espaço de agenciamento coletivo. Toni Negri e Michel Hardt, numa idéia que vai de encontro à sociedade do controle (afinal esse é o agenciamento do capitalismo), dizem: Nós devemos compreender a sociedade do controle, no contraste, como se essa sociedade (que se desenvolve na periferia da modernidade e se abre para o pós-moderno) onde os mecanismos do comando se tornam sempre mais ' democráticos’, e mais imanentes no campo social, distribuído através dos cérebros e os corpos dos cidadãos.4 [Negri & Hardt, 66]

A imanência aparece como uma força engajada. Em Marketing Hacker – a revolução dos mercados apresentamos a necessidade de ‘escovar mercados’ como um pressuposto hacker para ocupação e apropriação dos espaços informacionais dedicados. Entenda esses espaços como os locais onde as pessoas se reúnem no ciberespaço. São os micromercados, as comunidades virtuais, blogs, listas de debates, softwares sociais e outras formas de ação. O Manifesto Cluetrain apresenta a tese que ‘os mercados são conversações’; Uma poderosa conversação global começou. Através da Internet, pessoas estão descobrindo e inventando novas maneiras de compartilhar rapidamente conhecimento relevante. Como um resultado direto, mercados estão ficando mais espertos —e mais espertos que a maioria das empresas5. E mais espertos que a velha forma de compartilhamentos, de se fazer política e de agenciamentos. Imanência e agenciamento coletivo têm total aderência com a sociedade em rede.

Negri e Hardt apontam para a multidão (como imanente, como um conceito de classe e como um conceito de poder): ‘Contra todos os avatares da transcendência do poder soberano (e nomeadamente o do "povo soberano"), o conceito de multidão é o de uma imanência: um monstro revolucionário das singularidades não representáveis; parte da idéia de que qualquer corpo já é uma multidão, e, por conseguinte, a expressão e a cooperação. É igualmente um conceito de classe, sujeito de produção e objeto de exploração, esta definida como exploração da cooperação das singularidades, um dispositivo materialista da multidão poderá apenas partir de uma tomada prioritária do corpo e a luta contra a sua exploração’. [Negri & Hardt, 114]

Neste sentido, a internet traz novidades, como já dissemos. Permite perceber essas singularidades e entender que essa multidão monstruosa potencializa o debate.

Em World of Ends, David Weinberger e Doc Searls colocam: Quando olhamos para um poste, vemos redes como fios. E vemos estes fios como parte de sistemas: o sistema telefônico, o sistema de energia elétrica, o sistema de TV a cabo. Mas a Internet é diferente. Não é fiação. Não é um sistema. E não é uma fonte de programação. A Internet é um modo que permite a todas coisas que se chamam redes coexistir e trabalhar em conjunto. É uma Inter-net (inter-rede), literalmente. O que faz a "Net" ser "Inter" é o fato que ela é apenas um protocolo - o protocolo Internet (IP - "Internet Protocol"), para ser mais preciso. Um protocolo é um acordo sobre como fazer coisas funcionarem em conjunto. Este protocolo não especifica o que as pessoas podem fazer com a rede, o que podem construir na sua periferia, o que podem dizer, ou quem pode dizer. O protocolo simplesmente diz: se você quer trocar bits com outros, é assim que se faz. Se você quer conectar um computador - ou um celular ou uma geladeira - à internet, você tem que aceitar o acordo que é a Internet.6 [Weinberger & Searls, 115]

Esse protocolo não apenas instala o controle (...) Protocolo é fundamentalmente a tecnologia de inclusão, e a abertura é a chave para essa inclusão [Galloway, 37]. A cultura hacker percebe a imaturidade desses protocolos e propõe uma nova ética e bom senso que vem não romper os paradigmas que ainda não existem, mas sim forjar um novo modelo. Esses argumentos e idéias me levam a pensar na internet como um espaço de agenciamento, mas que torna possíveis saltos acentuados tanto da mutação ética como da ação direta na microfísica do poder.

Nessa espuma informacional emerge novas formas de interação. Listas de discussão, blogs, flogs, Orkuts, mensagens instantâneas, ou qualquer outra ferramenta que conecte grupos. Esses grupos formam focos de movimentos sociais. Quanto mais engajado for o projeto mais intensa será a ação coletiva. Esse fuzuê informacional torna possível a catalisação do agenciamento coletivo.

O efeito é rizomático. A informação cola no agenciamento. E vice versa. Numa multidão hiperconectada o conhecimento livre tende a se expandir. No entanto, a prática do conhecimento livre traz a reboque uma série de novos paradigmas que dialogam em tempo real com os enunciados que até agora deram sustentabilidade filosófica à humanidade. Estamos presenciando mudanças drásticas nos debates sobre propriedade intelectual, liberdade de expressão, nas políticas de comunicação. Estamos apenas no início desta revolução não televisionada.

Operação Pirata

Um projeto colaborativo se faz com um esforço coletivo. Uma operação voluntária e engajada. Não é possível estabelecer vínculos entre essa ação caótica com os métodos de administração tradicional. Toda vez que tentamos administrar, caímos na armadilha do velho mundo. Uma administração voltada para o negócio. E não para os projetos.

Em Utopias Piratas, Peter Lamborn Wilson diz: Os piratas em estado puro se aproximam muito do comunismo. Peritos que os vêem como protocapitalistas estão cometendo um grande engano. Os piratas não se encaixam na definição marxista de ‘banditismo social’ (isto é. Revolucionário primitivo) porque não têm contexto social. [Wilson, 98]

Uma sociedade pirata, então, não era uma sociedade igual às outras. Algo diferente acontecia entre mouros, renegados e hereges. É interessante observar que se tratava de uma sociedade que fazia oposição ao status quo vigente à época.

As condições ideais incluíam proximidade com rotas marinhas conhecidas, nativos (e nativas) amistosos, isolamento e grande distância de toda autoridade e realidade de potência européia, um agradável clima tropical e talvez um posto comercial ou taverna onde pudessem gastar o butim. Estavam preparados para aceitar liderança temporária em situação de combate, mas en terra preferiam a liberdade absoluta mesmo se ao preço da violência. Na busca pelo butim, estavam dispostos a viver ou morrer pela democracia radical como princípio organizador. Mas no desfrute do butim , insistiam na anarquia.[Wilson, 98]

As ações piratas apresentavam um alto grau de autonomia. Mesmo a liderança dentro de navios era algo questionável. A espada colaborativa subvertia a hierarquia.

Desta forma, penso num navio como uma célula motivada para alcançar um objetivo. No caso pirata era a pilhagem de outros navios. Homens se reuniam para esse fim. Levavam comida e estratégias (muitas bandeiras diferentes para ludibriar os oponentes) para o mar. Mas o mais importante era a capacidade de tomada de decisão autônoma e a informação. O navio pirata era independente. Contava apenas com suas próprias armas.

Estamos começando a viver numa sociedade em rede. E o terror, os partidos políticos e a pirataria sempre se valeram melhor da rede do que a sociedade concebida sob a glória da cultura de massa. E estamos começando a perceber que para viver em rede temos que enxergar seus meandros.

Numa sociedade em redes os projetos são multifacetados. Podemos construir por muitos vieses diferentes. Eu aprendi faz muito tempo não amar demais aquilo que faço. Amo os objetivos, mas sei que nesta vida tudo é efêmero. E com essa idéia posso conviver melhor com a morte. E assim, com a característica TAZ.

Tudo tem seu fim. A comunicação tradicional, aquela onde tudo está centralizado numa estrutura, não combina com os pressupostos de uma organização em rede. Penso pirata. Em células que são ativadas pelos projetos. Com um grau de liderança altamente descentralizado. Pois, tudo depende da organização e da autonomia do grupo tomar as decisões. Um grupo autônomo vai entender com mais segurança a necessidade e forma de gestão de dentro para fora. A anarquia só é bem sucedida quando é um objetivo a ser vivido. Mas células precisam de outras células para se desenvolverem. Os piratas só puderam existir pois haviam muitos e muitos navios. Cada qual com sua própria autonomia. Mas o grupo dava substância ao projeto comum.

Assim, projetos como o MetaReciclagem só podem se desenvolver se pensarmos pirata. Células orientadas a projetos. Autonomia de gestão. Muita informação fluindo entre as partes. E, principalmente, a convicção de que cada célula representa o todo. E assim termos a certeza da construção de um projeto comum. Cada membro do grupo necessita contribuir como base para os outros. Esqueçam coordenadorias, esqueçam chefes, esqueçam...

Richard Barbrook diz que no fim do século 20, o anarco- comunismo não está mais confinado entre em os intelecuais de vanguarda. O que antes fôra revolucionário agora é banal. Ele diz que as pessoas participam dessa hi-tech gift economy, ou seja, uma economia onde os bens estão disponíveis tão abundantemente que são fluem livremente. Uma economia que, de certa forma, rege a prática do conhecimento livre. Para muitas pessoas a ‘gift economy’ é simplesmente o melhor método de colaboração no espaço cibernético. Nessa economia mista da Rede, o anarco comunismo se tornou uma realidade do cotidiano. [Barbrook,101]

Colaboração é a palavra do século 21. Linus Torvalds causou um alvoroço enorme ao liberar o código numa lista de debates. ‘Release early and release often’ passou a redesenhar um modelo de produção. Colaboração como capital social. Colaboração para fazer qualquer coisa que o desejo provoque. Colaboração como condição de sobrevivência.

Entra a Internet. E por incrível que possa parecer essa ferramenta fez um estrago nas idiossincrasias dos poderosos. A Internet é maquínica. Pois recria um poder nômade no âmago. Um poder que se recria a cada instante. Catalisados pelos nós das redes. Uma reviravolta acontece nos dogmas ocidentais. Onde se lia transcendência, agora se enxerga e se vive a imanência.

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