Rabiscos sobre midia tatica
Estão colocadas neste texto, idéias referenciais com as quais trabalharemos nestes próximos doze meses que restam para a finalização desta pesquisa. São a base teórica mais importante e que será constantemente abordada. As demais referências são vastas e não vale (e o tempo não permitiu) discorrer sobre elas. Esta pesquisa requer uma lapidação muito grande do ponto de vista de material de leitura, já que circulam pelas editoras e pela internet muitas e diferentes entradas nos assuntos a que ela se remete.
Escolhemos dialogar com a teoria crítica por entendermos que ainda não estão suficientemente esgotadas as análises que defendem sua superação, e dificilmente estas análises apresentam embasamento tão sólido e bem construído. Porém a velocidade das dinâmicas sociais nos permite inserir elementos capazes de aumentar o conhecimento sobre os diálogos, diferenças, acertos e lacunas deixados pelos teóricos da “Indústria Cultural”.
A idéia deste estudo é re:fletir1 a midia tática nas atuais condições de alguns postulados do moderno capitalismo. Pesquisar as condições da propriedade privada, das relações de produção e da racionalidade implícita no modo de operar e dominar deste sistema. Para isso, consideramos tomar o problema técnico e seus desenvolvimentos em uma determinada indústria como central para a análise a fazer.
Faltam aqui apontamentos que se referem a um estudo sobre a filosofia da técnica, que pretendemos abordar de três diferentes pontos de vista: Heidegger e o início de um questionamento sobre a relação arte-técnica e os fatores positivos ou negativos da relação com o homem; G. Simondon e os processos de individuação como forma de compreender o elo humano-máquina tendo como base as avançadas tecnologias de informação; e teorias sobre a cibernética e cibercultura, a fim de dar um panorama destas teses para perceber o que há de relação com o nosso objeto e quais os problemas que se apresentam desta perspectiva.
Faltam também referências mais explícitas as teorias sobre mídia tática. Isso deve-se a um erro de organização que não me permitiu buscar as fontes de maneira rápida a fim de coloca-las aqui. A maioria das discussões conceituais se dá em listas via internat e textos publicados em sites relativos. A ausência de uma prévia catalogação e organização destas referências não me permite explicitá-las .
Ponho-me a disposição dos membros da banca de qualificação para incrementar, anexar, desenvolver e melhorar o exposto neste texto, a fim de revelar uma posição mais detalhada do momento da pesquisa bem como os aspectos já estudados, e que não foram possíveis de serem postos aqui.
Paulo José O. Moreira Lara
22 de agosto de 2005 - Campinas
“Talvez seja porque estejamos vivendo de maneira nova as relações teoria-prática. Às vezes se concebia a prática como uma aplicação da teoria, como uma conseqüência; as vezes, ao contrário , como devendo inspirar a teoria, como sendo ela própria criadora com relação a uma forma futura de teoria. De qualquer modo, se concebiam suas relações como um processo de totalização, em um sentido ou em outro. (...) As relações teoria e prática são muito mais parciais e fragmentárias. Por um lado uma teoria é sempre local, relativa a um pequeno domínio e pode se aplicar a um outro domínio, mais ou menos afastado. (...) A prática é um conjunto de revezamentos de uma teoria a outra e a teoria um revezamento de uma prática a outra. (...) Quem fala e age? Sempre uma multiplicidade, mesmo que seja na pessoas que fala ou age. nós somos todos pequenos grupos. Não existe mais representação, só existe ação: ação de teoria, ação de prática em relações de revezamento ou em rede.”
(G. Deleuze in ‘microfísica do poder’ de M. Foucault – ed. Graal, 1984)
os meios táticos
A Mídia Tática pode ser definida tanto como um conceito quanto como uma prática. E veremos aqui, como nos aponta Deleuze, algumas dinâmicas que alimentam a atividade recíproca e complementar tanto de uma como de outra. Seu início remete as heranças deixadas pelos movimentos sociais europeus da segunda metade do século XX e sua fundação é devido à luta pela intervenção nas formas de comunicação e exposição do problema da disseminação do vírus HIV durante o governo Reagan. Estão entre seus fundadores, grupos de artistas e teóricos que viam nas novas formar do fazer artístico um reflexo daquilo que poderia vir a ser um movimento de oposição às pesadas formas de dominação sobre a linguagem, comunicação e movimentos sociais. Suas primeiras experiências foram intervenções de arte / tecnologia e mídia em festivais e acontecimentos (happenings) europeus no início da década de 90.
Calcada em conceitos como DIY (do inglês ‘faça você mesmo’), intervencionismo (happenings), copyleft, TAZ (do inglês ´Zona Autônoma temporária) e usos e invenções de cotidiano, ela tomou força com a rápida disseminação de mecanismos tecnológicos que propiciam operações de oposição e questionamento em relação ao status dos meios de informação e artísticos.2
Os meios táticos são formas que integram, através de operações por parte de seus usuários, manipulações individuais e coletivas de características políticas, artísticas e sócio-culturais. O intento prático é a utilização dos recursos, mercadorias, aparatos e técnicas produzidos e distribuídos pela produção em larga escala do capitalismo industrial para fins de oposição e alternativa ao status quo da sociedade controlada por mediatizações. As ações são herdeiras de idéias e posições de grupos políticos e artísticos chamados de “contraculturais”.
táticas e estratégias
A analogia com a máquina militar não é à toa. Como veremos a seguir há uma oposição entre tática e estratégia, esta última visando lógicas operacionais para obtenção de um resultado final, enquanto as primeiras têm a ver com os processos de integração entre sujeito e aparato.Visam ações efêmeras, batalhas e intervenções espaço temporais.Formas como a pirataria e a intervenção estão no campo relacionado com os meios táticos. O campo de batalha se delimita portando, em relação a intenção e aos processos de manipulação dos meios empregados para as ações.
O termo tático é apropriado a partir do historiador francês Michel de Certeau, para designar a oposição que revela a característica do movimento. Certeau coloca questões sobre como criar-se, “deslocando a atenção do consumo supostamente passivo dos produtos recebidos para a criação anônima, nascida da prática do desvio no uso destes produtos”3. Interrogando-se “sobre as operações dos usuários, supostamente entregues à passividade e à disciplina”, Certeau considera que o importante não é a cultura erudita nem a dita popular, mas sim a “proliferação disseminada” de criações anônimas, utilizando “maneiras de fazer” que não se capitalizem, ou seja, que não se submetam à lógica das relações mercadológicas. Para Certeau, enquanto a estratégia é capaz de “produzir, mapear e impor”, as táticas podem “utilizar, manipular e alterar”. A questão para Certeau é a análise de o que e como se manifestam a produção dos que “consomem” ou “usam” os produtos materiais e culturais disseminados entre grupos e indivíduos, o que estes “fabricam” a partir do que recebem:
“A fabricação que se quer detectar é uma produção, uma poética – mas escondida, por que ela se dissemina nas regiões definidas e ocupadas pelos sistemas da ‘produção’ (televisiva, urbanística, comercial) e porque a extensão sempre mais totalitária desses sistemas não deixa aos ‘consumidores’ um lugar onde possam marcar o que fazem com os produtos”4
Certeau nos apresenta uma dicotomia entre tática e estratégia, que servirá como suporte da criação do conceito de mídia tática. A idéia de tática se articula com práticas de focos, resistências, levantes, surpresas, enquanto a noção estratégica é um cálculo operado pela idéia de um todo, homogêneo e modelado totalitariamente que apartam sujeito de objeto.
O conceito de estratégia está próximo do inventário crítico do status da técnica na sociedade feito por Adorno e Horkheimer, durante seus esforços para compreender a Indústria Cultural. As relações com uma exterioridade distinta são características tanto de uma quanto de outra. No primeiro caso isola-se um “sujeito de querer e poder” de um “ambiente”, e no segundo a técnica está externa em relação à lógica do conteúdo de um meio, seu objeto.
A tática se define pela relação que tem com o ambiente, ou seja, “só tem por lugar o outro”. Ela aparece como um movimento no qual o fraco tira partido do forte e das forças impostas e que lhe são estranhas. No caso dos meios táticos, o que os caracteriza é justo o imperativo de seu oposto. São potencialidades designadas por aquilo que não fazem, ou melhor, são apropriações de produtos operadas no sentido de oposição em relação a um fato comum (estratégias).
Porém esta dicotomia pode encontrar resistências se pensarmos na técnica, não como neutralidade, passível de uso e apropriação para finalidades decididas por seus operadores, mas encadeada com um aparato cientifico que a torna ideologia e impõe conseqüências materiais e uma nova forma de dominação, subjetiva, sutil e precisa.
O problema se coloca na verificação do sistema elaborado por de Certeau, quando trata-se de centrar as ações e operações nos meios, ou seja, quando se pretende abrir espaço para as manifestações de liberdade e autonomia dentro do aparato tecnológico criado, vigiado e utilizado pelo capital em suas diversas formas.
A mídia tática só se realiza graças as operações de oposição realizadas dentro do desenvolvimento técnico do sistema capitalista de produção e a partir das forças produtivas da Indústria Cultural, transformadas em mercadorias e cada vez mais integradas e distribuídas para pessoas e grupos.
Por isso cabe analisar algumas teorias sobre o desenvolvimento da técnica na modernidade e verificar quais dilemas a estrutura de Certeau pode encontrar quando se trata de tentar inserir no aparato tecnológico altamente desenvolvido, táticas e tentativas de apropriação em mecanismos que historicamente vêm servindo de suporte ao poder e as estratégias.
indústria da informação
A indústria da informação, não pode ser considerada somente do ponto de vista da transmissão de conteúdo. Erradamente ela vem sendo vista e utilizada como sinônimo de mídia. Deve-se a forte penetração das idéias de Adorno e Horkheimer, uma junção anacrônica entre meios e comunicação de massa. Para estes autores, este elo entre indústria, aparato maquínico e capital fazem com que a chamada “indústria cultural” fosse imutável e opressora pelos seus próprios mecanismos racionais de produção e transmissão. Juntou-se a esfera da produção capitalista e a sub valorização de seus conteúdos num sistema integrado chamado “meios de comunicação de massa”. Porém a indústria da informação não produz somente o que é veiculado em grandes corporações e redes de comunicação, e como qualquer indústria, torna disponíveis mercadorias tanto materiais como culturais. A indústria da informação não é produtora de conteúdo, mas sim um sistema de encadeamento de meios e fins, sendo os meios as formas e mecanismos de produção, armazenamento, reprodução e transmissão de mensagens; os aparelhos e interfaces responsáveis por troca de conteúdos de caráter cultural.
A indústria da informação é responsável também pela fabricação dos meios técnicos que à sustentam. As grandes redes e empresas de comunicação não sobrevivem sem as forças produtivas da indústria da informação. Gravadores, computadores, câmeras fotográficas, mesas de edição, suportes armazenadores de informação (Compact Discs, Discos Rígidos, Mini Discs), câmeras de vídeo, microfones, transmissores e retransmissores são o pilar tecnológico que mantém ativas as indústrias de comunicação, seu poder e influência.
Porém estas forças produtivas são passíveis de usos e operações fora das empresas de comunicação. Tornaram-se mercadorias e objetos de consumo passiveis de apropriação por parte de grupos e indivíduos de diferentes inclinações políticas e culturais. Trata-se do ponto levantado por Certeau, o modo de um tipo de “fabricação” realizado autonomamente, onde o que importa são as “maneiras de empregar os produtos impostos por uma ordem econômica dominante”. Esta teoria “supõe que (...) os usuários ´façam uma bricolagem’ com e na economia, usando inúmeras e infinitesimais metamorfoses da lei, segundo seus interesses próprios e suas próprias regras”5.
O quadro abaixo mostra as conexões do conceito de tática com a aplicação nos meios de produção de informação. Esta pesquisa pretende captar essas relações e estudá-las de um ponto de vista do conhecido dilema que a relação técnica-sociedade nos aponta6.
CARACTERÍSTICAS DA TÁTICA
EQUIVALENTE NOS MEIOS DE INFORMAÇÃO
PANORAMA
SÓCIO-CULTURAL RESULTANTE
MOBILIDADE
FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS
PORTÁTEIS DE TRANSMISSÃO
INVERSÃO DE FLUXOS ESPAÇO / TEMPO
TIRAR PROVEITO DA OCASIÃO
MANIPULAÇÃO
DISSEMINADA
LEVANTE / AUTONOMIA
TEMPORARIA
OPERAÇÃO DO USUÁRIO / CONSUMIDOR
IGUALDADE ENTRE TRANSMISSORES E RECEPTORES
FLUXO MULTIDIRECIONAL
DE MENSAGENS
MUTAÇÃO /METAMORFOSE
REPRODUÇÃO, RECOMBINAÇÃO, MIXAGEM,
PLÁGIO, RESIGNIFICAÇÃO, ´PIRATARIA`,
PRÁTICAS DA SUCATA
APROVEITAMENTO DOS APARELHOS OBSOLETOS, METARECICLAGEM, GATOS (ELETRO-ELETRÔNICOS)
‘CAMELÔS’, REAPROPRIAÇÃO E EXPROPRIAÇÃO DE SISTEMAS ELETRO- ELETRÔNICOS (gambiarras)
A questão é se este equivalente nos meios é viável do ponto de vista do imperativo técnico. Se, a partir da atual condição do desenvolvimento técnico científico ligada as funções de especialização, racionalidade, eficiência e com base econômica vinculada ao capital e seu modo de produção, a busca por uma nova condição social tem como rumo este tipo de apropriação. Caso se verifique a força de oposição nestes usos e operações, o que é colocado em questão em relação as atuais formas de dominação por parte dos mecanismos estratégicos? Qual a influência desta ação tática nos meios no que se refere a continuidade das atuais relações de produção, de propriedade e da racionalidade que se abate em diversos ramos da produção material e de significado?
Problema: A sociedade inclina-se cada vez mais para uma tendência mediatizante e tecnocrática. O avanço tecnológico, embora encontre oposição dentro de sua própria dinâmica de desenvolvimento, empurra a todos, cultura, sociedade, política, para um campo onde as relações de força são dadas a partir de fundamentos técno-estéticos. As táticas de oposição, enquanto vislumbrarem somente o uso, ou a apropriação de técnicas, inventos, mecanismos dominantes, perde o foco de um imperativo anterior, o de que o elo técno-científico foi criado e é desenvolvido não só para utilização, mas também como forma de dominação subjetiva, feito para legitimar uma posição política que responde a questionamentos de oposição com argumentos que encontra-se fixados em seus próprios pressupostos.
A oposição tática pode incorrer no erro de servir de impulso e legitimação para a continuidade do modelo industrial de dominação técnica e cultural. Pois se seus questionamentos não se aterem a problemas como os modos de produção, propriedade privada e uma reinvenção e politização da técno ciência, há o risco de, como supuseram alguns, servir como “cano de escape” para o processo de dominação, e se tornar alimento para a autofagia do capitalismo.
A idéia deste trabalho é refletir o conceito da mídia tática com algumas idéias da teoria crítica e estudar suas perspectivas de mudança a partir dos meios tecnológicos, tendo em vista as dificuldades apontadas por teóricos que viam na racionalização de diversas esferas da vida, uma forma velada de dominação, para o qual contribuem decisivamente o aparato maquínico e as especializações das funções impostas por uma nova conduta frente a um novo capitalismo.
O elo técnico científico, responsável pelo desenvolvimento tecnológico, está em pleno avanço. Apesar de serem indispensáveis para as táticas de resistência, já que estas atuam em e sobre eles, o postulado do esclarecimento é o que determinou sua vitória sobre o mito e a conseqüente transformação da sociedade em um domínio técnico baseado em cálculo, previsibilidade, utilidade e eficiência.
A idéia mais forte e radical sobre essa concepção da modernidade está colocada nos escritos de Adorno, e tem na “Dialética do Esclarecimento” seu marco fundamental. O esclarecimento opera para si, relegando os fins pelos meios de suas técnicas, constituindo uma integração total: uma espécie de autonomização absoluta. A posição dos homens no mundo e sua luta pelo entendimento no lugar da superstição, tomam a técnica como essência e centra seus métodos, operações e instrumentalizações no motor que domina a sociedade e a civilização. Deste ponto de vista, o esclarecimento destrói o encanto dos mitos tornando-se totalitário; resolvendo-se na própria mitologia.
O sistema criado pela teoria crítica, por sua vez, como “crítica da filosofia sem abrir mão desta” circunscreve um problema que se torna, da mesma maneira que sua concepção sobre o esclarecimento, uma resolução dentro de sua própria idéia. Para esta perspectiva as resistências tornam-se argumentos da dominação, e não há espaço para conceitos esclarecidos de oposição, pois estes se utilizam de uma lógica discursiva dominadora.
Na base do desencantamento está a ordem prática da filosofia e da ciência. A libertação das potências míticas da natureza ou, nas palavras de Weber, o “desencantamento do mundo”. Tem sua origem na mitologização da ciência positiva e trasfigura-se num conceito e num movimento real da sociedade em direção a um sistema de integração total. Para estes teóricos, todas as esferas convergem para o domínio da moderna razão. Os especialistas são censores que fazem com que “o cerceamento da imaginação teórica prepare o caminho para o desvario político”7, impossibilitando uma oposição em razão da ingerência interna e externa de censores legitimados como representantes do esclarecimento pela obediência à seus mecanismos de controle absoluto.
No que concerne a nossa problemática, esta materialização (recaída) do esclarecimento em métodos, normas e operações, viabiliza a corporificação de cálculos, codificações e quantificações em operações maquínicas, que se inserem em várias esferas da ciência. A catalogação, a normatização e o estreitamento das variáveis possíveis de ação são formas da inserção da racionalidade em técnicas, mecanismos e aparatos de aplicação social. Os meios técnicos da indústria da informação não são mais do que isso.
A analogia mais forte da idéia de “integração total” no que se refere a indústria da informação está na criação da máquina mais completa de armazenamento, produção, reprodução, recepção e transmissão de informação. Em 1948, Shannon8, sustentado por disciplinas como a matemática e a física, cria uma teoria na qual a informação é traduzida em códigos e quantificada, facilitando assim seus processos de comunicação. O desenvolvimento desta teoria, reduz praticamente todas as formas de transmissão de conteúdo sensitivo e comunicacional à uma técnica de manipulação de seqüências de dígitos binários. A corporificação e aplicação desta técnica levaram a possibilidade do seu desenvolvimento a criar máquinas individuais de processamento de informação, da qual a mais conhecida, completa e integrada é o computador.
O computador é o mais claro exemplo de aplicação científica que, iniciado como propósito para guerra, tornou-se, através da indústria, uma das mercadorias mais importantes a serem largamente difundidas por sua importância no aspecto da mediação do usuário com as esferas políticas e sócio-culturais. Hoje em dia cria-se em torno dele as perspectivas de novas formas e linguagens que envolvem arte e política.O computador é uma máquina que obedece a códigos específico e corretos, cabendo perguntar se existe possibilidade de autonomia e criação a partir de um instrumento tão fechado e desconhecido internamente pela grande parte de seus usuários.
Baseando-se na assim chamada Teoria da Informação (TI), Waren Weaver diz que “Poder-se-ia estar inclinado a pensar que os problemas técnicos envolvem apenas os pormenores de construção de um sistema de comunicações, enquanto que os problemas de semântica e eficácia abrangem a maior parte, senão todo o conteúdo filosófico do problema geral da comunicação” e acrescenta “(...) o significado e a eficácia são inevitavelmente restringidos pelos limites teóricos de precisão na transmissão de símbolos. Mais significativo, ainda, é que a análise teórica do problema técnico revela que este se justapõe, mais do que se poderia suspeitar, aos problemas de semântica e de eficácia”9.
Considerando que as máquinas de informação são instrumentos do esclarecimento e que, como diz Hans Magnus Enzensberger, “necessitam de pessoas esclarecidas mesmo quando se trata de sujeitá-las”, vale indagar sobre a qualidade subjetiva que pode e quer-se impor nos e através dos mecanismos e meios. A utilização do mito pela resistência, defendem Adorno e Horkheimer, é sintoma do esclarecimento, e as multiplicidades se resumem a cálculos e padrões nas escalas deste. A volta do esclarecimento no mito converte-se em objetividade e forçam a padronização das práticas, experiências e condutas da vida cotidiana.
Para Hans Magnus Enzensberger, porém, o esclarecimento é um pressuposto do que denomina “indústria da consciência”. Este pressuposto somado ao desenvolvimento material faz com que esta indústria entre em contradição com a maneira pela qual ela vem operando historicamente e permite a ele apontar críticas ao puro “inventário crítico do status quo” redigido pela teoria da Indústria Cultural.
Ele argumenta que, acostumados a encarar a consciência como o último refúgio do sujeito, o homem esclarecido não admite a tombada da consciência e o fato de que não se é senhor dela. Enzensberger recorre ao argumento marxiano contido em “A ideologia Alemã”10 para apontar que desde que o professor, o padre e o mestre perderam o espaço da transmissão tradicional e carismática de conteúdos culturais para um sistema industrial reprodutor de idéias, a consciência deixa de ser algo “óbvio, opaco, invisível”. Só a partir do desenvolvimento industrial dos produtos e meios da indústria da consciência, é que se verifica o campo político de batalha entre homens esclarecidos, mesmo quando esta as “trata de sujeitá-los”.
Diferentemente de McLuham, Enzensberger se propõe a analisar os meios como totalidade (sistema integrado) e não do ponto de vista de novas invenções ou inovações tecnológicas inseridas em tal sistema industrial. A indústria da consciência é essencialmente uma indústria de mediação, derivação secundária e terciária, infiltração e multiplicação daquilo que ela não pode produzir: a cultura. Esta é ignorada pela indústria e à ela se reserva um lugar isolado, posto de lado. Esta crítica atinge diretamente aos ideólogos da “indústria cultural” que para Hans Magnus “torna esse fenômeno (a cultura) inofensivo e obscurece as conseqüências políticas e sociais resultantes da intermediação e transformação industrial da consciência”11. Com isso, pode-se pensar em um fenômeno industrial que carrega uma contradição em seu modo de operar. A partir destes pressupostos, abre-se um campo de conflito entre a cultura (matéria prima da indústria) e o modo de produção que domina a esfera de reprodução social da “consciência”.
Um erro em que incorrem os teóricos da Indústria Cultural, é o de que, uma forma de produção deste caráter, seria similar, em todos seus aspectos, a forma de qualquer indústria de bens materiais. A indústria da consciência difere-se das demais justamente, pelo fato de sua mercadoria e produtos não terem a mesma função social das mercadorias em geral. Em texto de 1962, Enzensberger argumenta: “Nos seus ramos mais evoluídos, ela nem trabalha mais com mercadorias; livros e jornais, quadros e fitas gravadas são apenas seus substratos materiais, que se volatizam sempre mais com a crescente maturidade técnica, desempenhando papel econômico destacado somente em seus ramos mais antiquados, como as editoras”12. Cabe neste ponto um diálogo com Enzensberger no sentido de argumentar sobre aqueles “substratos materiais”. Os suportes materiais, a época em que Enzensberger redigiu seu texto eram mais tímidos e sua importância menos considerada. Esta questão nos aponta para uma discussão sobre a função do suporte. O livro é diferente de um Compact Disc, por exemplo. O conteúdo do livro são átomos de matéria impressos sobre a folha. A matéria prima do CD é a informação. Ela permite ao operador que grave, regrave, armazene, transmita e modifique o conteúdo sem prejuízo do suporte. O que não pode acontecer com o livro. No caso do computador torna-se ainda mais delicada esta classificação. É uma força produtiva, pois insere-se trabalho sobre ele que pode vir a gerar produto. É um grande suporte armazenador de diversas linguagens e funciona como meio de comunicação e informação, podendo ser utilizado como auxílio a quase todas as profissões correntes.
A teoria de Enzensberger, em suma, apela para o poder mobilizador e às potencialidades destas forças produtivas. Para ele toda a investida nos meios é uma forma de manipulação, daí a criticar as posições da esquerda que encontram na tese da manipulação o atraso e a não compreensão do significado do sistema dos meios eletrônicas na sociedade.
Suas propostas para a apropriação dos meios são resumidamente:
::Igualdade entre emissor e receptor,
::Programação de conteúdo feita através de uma descentralização de cargos e funções, ::Interação total dos participantes do processo político envolvido pelos meios fazendo do sujeito um fator de produção e reprodução política
::Produção coletiva
::Auto organização
O diálogo com Hans Magnus nos abre portanto uma outra possibilidade diferente da apresentada por de Certeau. Enquanto Certeau foca na cultura do consumo e no uso ou operação do sujeito, Hans Magnus foca sua base na potencialidade política, defendendo a apropriação e a manipulação como forma de atuação dentro das relações de poder e do modo de produção.
Dentro da perspectiva da teoria crítica o elo mais interessante a se fazer com vistas a uma contribuição de ambos os lados da contradição, parecem ser com os escritos de Marcuse.
Sendo o ser um fator e parte integral do progresso técnico, interessa avaliar o modo de produção como “totalidade dos instrumentos” na sua forma de moldar as relações sociais. Significa dizer que pode-se encarar o aparato tecnológico como um organizador, perpetuador ou modificador daquelas relações. Um fato para o qual Marcuse aponta é o de que o aparato remodela constantemente aqueles a quem serve. O poder tecnológico tem a capacidade de influir na racionalidade dos que atinge. Isto é base para sua concepção de que, mesmo em uma sociedade unidimensional, onde a crítica perde seu poder devastador por se encontrar subjugada pelo aparato técnico, abrem-se perspectivas para novas formas de visões e atuações adaptadas de oposição.
Calcado nas teorias de Weber, Marcuse aponta a inserção do indivíduo no aparato montado – tanto para o seu bem estar quanto para a aquisição do lucro capitalista – como forma de dominação inserida no seu modo de vida. Se, lidar cotidianamente com os preceitos, regras e normas advindos da racionalidade já mostra a inserção do homem em uma nova dominação, o desenvolvimento técnico e científico converte-se em ideologia e indica formas de dominações materiais. O campo do agir racional com respeito a fins se mostra dominante, e o desenvolvimento das forças produtivas como continuidade e perpetuação das relações de subordinação do sujeito ao aparato. “Hoje a dominação se perpetua e se estende não apenas através da tecnologia, mas enquanto tecnologia, e esta garante a formidável legitimação do poder político em expansão que absorve todas as esferas da cultura.”13
A legitimação do poder e da dominação, portanto se dão no âmbito da esfera crescente do agir racional com respeito a fins. A razão técnica se mostra a forma mais eficaz, através de seus métodos e conceitos, de fazer com que “a dominação da natureza permaneceu vinculada a dominação do homem”14. A racionalidade tecnológica se infiltra no reino do pensamento e dá as várias atividades intelectuais um denominador comum. Elas também se tornam uma espécie de técnica, uma questão de treino em vez de individualidade, pedindo um especialista ao invés de uma personalidade humana completa.
Marcuse não se limita a fazer o diagnóstico desta sociedade, mas apresenta a proposta de uma mudança no rumo do progresso que afetaria os postulados da ciência e altera a continuidade de uma sociedade dominada pela legitimação do aparato técnico.
Sua crítica à sociedade onipresente e unidimensional o faz perguntar pelo valor da arte como forma e importância de oposição. Analisa a decadência das linguagens tradicionais como já absorvidas pelo poderio de uma sociedade e observa nos novos (décadas de 50 e 60) movimentos sócio culturais uma reação àquela sociedade advinda daquele resultado da entrada da tecnologia sobre a vida.
Marcuse vê nas linguagens artísticas da década de 60, uma das últimas formas de oposição, já que a liguagem tradicional há muito foi absorvida pela sociedade onipresente. “A arte pode cumprir sua função revolucionária interna somente se ela própria não se torna parte de qualquer establishment, inclusive o revolucionário”15 Há uma crença de que a partir da construção de novas bases para o progresso, uma técnica inteiramente nova e a arte como modeladora de uma nova sociedade, abre-se possibilidade para que a era da barbárie “não deva continuar para sempre”. Só a partir da arte como ilusão se constrói uma nova realidade. Marcuse aponta elementos como a “sensualidade”, “instintos vitais” e “transcendência” como necessários para a transformação da “sociedade em uma obra de arte”. (...) a arte como tecnologia e como técnica também viria a implicar a emergência de uma nova racionalidade na construção de uma sociedade livre, isto é, a emergência de novos modos e novas metas do próprio progresso técnico”16
A questão é que em uma sociedade em que as relações políticas, culturais, sociais e econômicas estão sendo feitas cada vez mais através de mediações, e mesmo que estas mediações não signifiquem representações, mas sim uma relação com mecanismos técnicos de produção, recepção e transmissão de informações, a importância do manejo e da manipulação técnica de instrumentos e linguagens torna-se um poder acima de todos os outros. A interface, como mecanismo técnico “operador de passagem” passa a ser o elo entre o sujeito e o objeto. Qual é a importância dos mecanismos do agir racional com respeito a fins, quando se trata de inserir conteúdo estético ou de estranhamento, nestes meios de relações sociais?
marx e weber
Karl Marx e Max Weber serão as bases estruturais que recorreremos a fim de compreender da onde partem todas as percepções dos fenômenos técnicos acima descritas. Ambos concentram conteúdo passiveis de diálogo e complementares, sendo imprescindível uma pesquisa sobre suas concepções a fim de entender sobre o avanço das maquinarias de produção, e tecnologia bem como suas conseqüências sociais e alternativas apontadas.
Os procedimentos técnicos e organizacionais da grande indústria estão intrinsecamente ligados ao desenvolvimento dos processos de racionalização do qual o moderno ocidente é refém. Tanto o aparato tecnológico como a lógica de funcionamento burocrática, contribuem decisivamente para processos de padronização, especialização e controle. Neste ponto confluem as teoria de Marx e Weber que diagnosticaram neste modo de produção a aniquilação das particularidades, individualidades, da ideologia, moral e religião e a subordinação da ciência ao capital bem como a retirada da naturalidade da divisão do trabalho. O esclarecimento, como modo de pensar e fuga das trevas e do desconhecimento, toma aspectos materiais nos modos de produção industriais e converte-se em ideologia, com conseqüências para a política, cultura e artes.
Em contraposição ao conceito de consciência como “cidadela que pudesse resistir ao cerco do cotidiano”, Marx já argumentava que são as condições materiais e de reprodução da humanidade que determinam o estágio de consciência encontrado em cada época. Sob o capital todos os sistemas de engrenagem social, ocupam funções específicas, e a tecnologia, entendida como força produtiva desenvolvida para a exploração do trabalho e racionalizadora dos processos de produção e aguçadora da divisão do trabalho e implementadora de determinado modo de produção tem que ser enxergada do ponto de vista de sua realização como capital. As forças produtivas para Marx não podem ser consideradas autônomas e isoladas frente as relações de produção capitalistas. Os argumentos contra a neutralidade da técnica no capitalismo advêm de conceitos como o de subsunção e derivação. A técnica, para Marx é vista de forma fragmentária e sua análise é inconcebível se tomada somente em si. O fenômeno tecnológico, ligado ao desenvolvimento das forças produtivas, proporciona além do seu acúmulo, relações de produção de um novo tipo.
As máquinas, para Marx, não são mais do que uma força produtiva, porém diferem completamente da “ferramenta” ou instrumento de trabalho do trabalhador individual. A máquina, vinculada ao processo de produção capitalista, assume um manto técnico e científico a fim de manter a subsunção17 do trabalho ao capital, ou seja, técnica e ciência, em função do capital, materializam-se em exploração para extração de mais valia. O ponto em comum com Weber e outros analistas é a radical transformação da produção e utilização destas máquinas quando da separação da produção doméstica, individual ou em pequenas unidades na concepção de máquinas como forças produtivas industriais de propriedade do empresário e utilizadas de maneira a extrair, a partir do trabalho nelas colocado, ali o lucro, aqui a mais valia. Na produção capitalista clássica, Marx e Engels enxergam a utilização da maquinaria como um controle autocrático cujo ponto central é a autonomização dos instrumentos de trabalho. Isso tem como efeito o aumento do consumo de mercadorias, a baixa no custo da produção, a criação de maior demanda por produtos industrializados e a desvalorização da força de trabalho18.
Aliada a divisão do trabalho, a maquinaria (concentração de instrumentos de trabalho) provoca unilateralidade e dependência a um processo imposto ao homem e que o fragmenta. A última metamorfose do instrumento de trabalho no processo de produção de capital seria um sistema automático de máquinas, no qual o trabalhador seria um "acessório consciente".
“A máquina (vinculada ao processo de produção do capital) já não tem nada em comum com o instrumento do trabalhador individual. Distingue-se por completo da ferramenta que transmite a atividade do trabalhador ao objeto (...) a atividade pertence mais a máquina, ficando o operário a vigiar a ação transmitida pela máquina às matérias primas”19
A indústria, tal como conhecia Marx, existiu "apenas na e pela divisão do trabalho"20 e o desenvolvimento técnico e burocrático aguça estas condições na medida em que determinados produtos (não só as pesadas maquinarias industriais) e instituições (não só o Estado e suas atribuições) requerem conhecimentos especializados. O desenvolvimento das forças produtivas e das instituições sociais, provoca portanto uma maximização da ética e práticas vinculadas as especializações, regras, limitações e conhecimentos funcionais. O trabalho médio como divisor comum dos fatores de produtividade, perde importância para o trabalhador capacitado, que apesar de não ser significativo em finais do século XIX, aparece atualmente como figura central e perpetua a condição de separação entre produto e produtor direto além de subordinar cada vez mais funções ao aparato tecnológico e institucional do capitalismo.
A grande Indústria, como analisada por Marx em a "Ideologia alemã" trás uma nova fase da propriedade privada. Nesta fase somam-se, forças elementares para fins industriais, a maquinaria desenvolvida para a indústria e uma extensa divisão do trabalho. Este modelo perpetua-se como regra em grande parte das indústrias de hoje, porém há significativas mudanças em curso devido ao desenvolvimento tecnológico (principalmente no que se refere a mecânica, eletrônica e a informática) no campo da produção material e que terá tremenda influência no campo intelectual, espiritual e de significado cultural. Como inerente a este desenvolvimento, Marx aponta algumas tendências e razões que possibilitaram a perpetuação deste determinado sistema de produção e circulação de mercadorias e capital. A grande indústria universaliza a concorrência, fazendo com que os velhos direitos se modificassem a fim de preservar a "defesa na liberdade de comércio". Os meios de comunicação e o mercado mundial moderno são rapidamente desenvolvidos, trazendo com eles uma rápida circulação e submetendo o comércio ao tempo e ritmo da grande indústria. Cria a concentração de capitais aliado a transformação em capital industrial (e mais recentemente em capital financeiro). A premissa destas modificações na esfera da produção e intercâmbio é o sistema automático gerado pela maquinaria em desenvolvimento. Porém, este modo cria forças produtivas "para as quais a propriedade privada se tornou um grilhão" e daí a contradição que se estabelece dentro da produção capitalista avançada baseada na grande indústria.
“Ninguém sabe ainda a quem caberá no futuro viver nessa prisão, ou se, no fim desse tremendo desenvolvimento, não surgirão profetas inteiramente novos, ou um vigoroso renascimento de velhos pensamentos e idéias, ou ainda se nenhuma dessas duas – a eventualidade de uma petrificação mecanizada caracterizada por essa convulsiva espécie de autojustificação. Nesse caso, os ‘os últimos homens’ desse desenvolvimento cultural poderiam ser designados como ‘especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingido um nível de civilização nunca antes alcançado’”
(Weber, Max – A ética protestante e o espírito do capitalismo)
Característica do ocidente, a racionalidade, para Weber, está expressa em diversas esferas da criação na vida ocidental. Desde a astronomia, matemática e geometria, passando pela historiografia, arquitetura e teorias políticas até a arte e a literatura, a racionalidade é um fenômeno típico de uma maneira de pensar e aplicar do que chamou de civilização-ocidental-judaico-cristã. Diretamente ligada a funções profissionais e técnicas, a racionalidade cresceu e se desenvolveu dentro das organizações e instituições do moderno ocidente de forma a criar e reproduzir especialistas atrelados a conceitos como eficiência, rentabilidade, planejamento, eficácia, balanço e otimização.
No período em que instala permanentemente a noção de exploração industrial, e no qual se tem o início da fábrica moderna, Weber considera os aperfeiçoamentos técnicos contribuintes fundamentais do processo de racionalização da produção. O que significa dizer que o movimento da técnica à racionalidade tem um direcionamento da mecânica para o método, ou seja, os instrumentos utilizados como máquinas contribuem para o modelo de produção racional, envolvendo uma modificação nos parâmetros de pensamento, conduta, modos de organização e planejamento e eficiência.21
O conceito de fábrica para Weber está ligado a um desenvolvimento do que ele denomina de “aparelhos”. Este desenvolvimento levou à criação das primeiras formas de produção fabril, notadamente a máquina a vapor, o tear mecânico e o processo geral de “mecanização do trabalho” 22 Os aparelhos, por sua vez são “instrumentos de trabalho que podiam ser utilizados como máquina”. Para ele,esta forma estaria a serviço do home, enquanto que na máquina moderna, o homem que está a serviço dela.
Weber exemplifica uma situação na qual a idéia do tear mecânico por Cartwright em 1785, fez com que a produção de fios e tecidos fosse feita com rapidez utilizando-se de métodos modernos, racionais e científicos. Segundo Weber foi “um dos primeiros inventores que associaram a técnica à ciência e trataram o problema do ponto de vista teórico”.23
O objeto técnico, portanto, se mostra fundamental para uma compreensão do elo entre conduta racional e prática econômica capitalística, que corporificará sua ética – resultado de infinitas variáveis, como afirma Weber – em mecanismos de dominação materiais e imateriais, tanto no âmbito das condutas sociais quanto na sua produção e consumo.
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:: ANEXO 1 ::
“Every reasonably aware person of our time is aware of the obvious fact that art can no longer be justified as a superior activity, or even as a compensatory activity to which one might honorably devote oneself. The reason for this deterioration is clearly the emergence of productive forces that necessitate other production relations and a new practice of life.”
Les Lèvres Nues #8 (May 1956).
Traduzido por Ken Knabb in www.bopsecrets.org
PRINCÍPIOS CAROS ÀS IDÉIAS NOS MEIOS TÁTICOS E QUE DIALOGARÃO COM AS TEORIAS SOCIOLÓGICAS COM AS QUAIS LIDAREMOS.
“detournement” – Palavra francesa cara aos situacionistas significa literalmente desvio, distorção, desapropriação, uma coisa reorientada em relação a sua proposta original. Idéia que “consiste em tomar as coisas dos inimigos para montar uma outra coisa, que ajude a combater o inimigo”. Torna-se um fato potente se relacionado às possibilidades tecnológicas dos mecanismos de informação, que permitem, a reprodução, reapropriação e reutilização de determinado material original. A quantificação e codificação da informação em sinais digitais aguçam esta tendência na medida em que as relações de pessoas com as obras passam a ser “interativas”, sendo possível alterações, modificações e usurpações de material “original”. A comunicação via rede faz com que as propriedades imateriais passem a ser objetos de uso por parte dos receptores.
“Subversão é um jogo possível pelo fato das coisas poderem ser desvalorizadas, cada elemento da cultura passada pode ser reinventado ou fragmentado”24.
Diálogos: W. Benjamin sobre as possibilidades das obras na época de sua reprodução técnica, em que defende que a “fruição tátil” é necessária para uma maneira de percepção que altera o hábito dos receptores e abala a autoridade do original. As técnicas de reprodução modificam as recepções e se impõem como uma nova forma de arte; “a emancipação da obra de arte da existência parasitária que lhe era imposta por sua função ritual” – A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica
diy - do inglês “do it yourself” – princípio oposto ao de representatividade e mediação alienada que nos remete à ação direta do usuário nos e através dos meios individualizados e para ele disponibilizados. Pressupõe uma autonomia do produtor em relação à técnica do meio de produção além de uma alteração nas tradicionais relações entre produtores e receptores, já que as “operações dos usuários” não reproduzem as estratégias industriais da lógica capitalista, mas sim usam, manipulam e alteram o conteúdo de sua ordem (as mercadorias e as relações de produção).
Diálogos: Os usos da cultura e a discussão sobre cultura alta e baixa revelada principalmente pela escola Inglesa de Birmingham
Weber e burocracia na modernidade. As possibilidades tecnológicas entram em conflito com o diagnóstico de instituições herméticas e hierarquizadas. O fazer e o produzir encontram outras formas de se relacionarem com as formas tradicionais de Estado e Iniciativa Privada baseados em critérios normativos ou de competência.
RE:Combinação - “Hoje se pode argumentar que o plágio é aceitável, até mesmo inevitável dada a natureza da existência pós-moderna com sua tecno-infra-estrutura. Numa cultura recombinante, o plágio é produtivo (...) é uma questão de reunir várias técnicas recortadas a fim de responder à onipresença dos transmissores que nos alimentam com seus discursos obsoletos (...) é uma questão de desacorrentar os códigos (sic).”25 Devido ao desenvolvimento da máquina de informação, o conceito de recombinação encontrou um marco fundamental. O prefixo RE aparece como alternativa de criação e apropriação numa sociedade que chegou ao limite de exploração e produção material. A sociedade pós-industrial parece incapaz de criar algo novo, e o avanço do progresso técnico ameaça e impossibilita a criatividade. A abundância de recursos, idéias e mercadorias usados e abandonados passa a fazer parte de um conceito de reapropriação de bens (materiais e espirituais) a fim de criar uma nova obra.
“Copyleft”- Em oposição ao Copyright, questiona a forma de controle sobre as produções intelectuais, trazendo à tona o dilema da propriedade artística (nos novos meios de informação). A aplicação mais notável deste conceito acontece nos computadores, que através da abertura de seus códigos-fonte, cria “Software Livres”26 para serem executados para qualquer propósito, sendo possível sua modificação, cópia, aperfeiçoamento e distribuição por qualquer um que maneje a linguagem técnica informática. As ações pelos computadores são centrais, não só pela possibilidade de junção com outros meios de comunicação (como textos, rádios, imagens), mas como um símbolo da opção (ou forma) anárquica que o movimento acredita que as redes de comunicação podem ter a partir da internet. A ausência da propriedade intelectual aparece como tática: “enunciado de dissimulação” ou “estratagema de camuflagem”. Os meios técnicos possibilitariam desta forma a “sabotagem da máquina comunicativa do poder” e uma tática tipo “cavalo de tróia”27, de utilização subversiva do campo do inimigo.
TAZ (Zona Autônoma Temporária) - Em contraposição às perspectivas revolucionárias de esquerda, a TAZ propõe zonas autônomas de usufruto imediato, ou seja, “momentos e espaços nos quais a liberdade não é apenas possível, mas existente”. Como uma crítica à característica de permanência das revoluções, prega a “prática de um nomadismo revolucionário” de influência anarquista como forma de propagar o “espírito experimentado no momento do levante”28.
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