A reapropriação da Colaboração
A reapropriação da colaboração. A colaboração nos foi roubada. A colaboração está na moda. Qualquer diretor de escola ou gerente de RH de multinacional anda usando o termo algumas vezes por semana. Mas isso que eles entendem por colaboração é relativamente superficial. Não leva os envolvidos ao questionamento total dos próprios pontos de vista. Não é um processo que em essência permita a recriação da dinâmica social entre seus atores. Mesmo entre os círculos ditos alternativos, ainda há todo um apego à "criação", como se uma pessoa minimamente consciente conseguisse realmente acreditar que é geradora exclusiva de suas próprias idéias. Depois de alguns milênios de história, tudo o que existe é recombinação, releitura criativa. Criação vem da experiência, do convívio, da leitura crítica e de muito trabalho pesado. Mas os egos ainda degladiam-se por idéias medíocres. O Artista, o Djênio, o Criador já tiveram suas mortes decretadas. Aquela figura sentada no seu estúdio elocubrando sem contato com o mundo já está fedendo. Mas o problema não é o cadáver, e sim suas viúvas. Aqueles que realmente exercem a criatividade coletiva já entenderam as possibilidades do remix, de pôr a cara a tapa, de deixar questionar suas perspectivas. Quem ainda mantém o passado em uma cúpula de vidro são aqueles que sentem inveja e ciúme da criações alheias, mas não oferecem ao mundo mais que um saco de bosta. A idéia de inovação parece ter ficado presa aos discursos corporativos de dominação sócio-econômica, aos livros do tom peters e outros babacas. Inovar pra não morrer, inovar pra vender melhor, e essas merdas. O sentido a que precisamos retomar é outro, mais direto: transformar perspectivas, logo transformar maneiras de agir. E tudo construído socialmente, como processo de integração e criação social de identidade de coletividades, longe da mesmice auto-referente da criação renascentista que ecoa por aí até hoje. Mas onde se começa? one more thing. in the country of the puxadinhos and camelôs, that has the biggest number of mallicious server attacks, that drives everyone (especially americans) mad about massive misuse of tools like blogger, fotolog and orkut, is my opinion that we _have_ to talk about the connection between this kind of online network behaviour and the mutirões that take place inside any given favela. A nova palavra de ordem dos projetos da auto-proclamada sociedade civil organizada, com o óbvio apoio do departamento de marketing social de grandes empresas, vem na esteira da "Inclusão Digital", uma visão que já começa com uma falácia: a ilusão de que existe um ciclo formal ou correto de utilização da tecnologia, e que é uma simples questão de trazer para dentro os ditos excluídos. Doce ilusão. Metareciclagem começou como quebradeira. Interesse totalmente abstrato em uma série de questões relacionadas com tecnologia. Frustração total, minha de de alguns outros, em tentar emplacar, no mundo corporativo, na academia, em ações independentes, idéias novas sobre comunicação em redes. De repente, projeto metáfora começou a catalisar algumas das idéias de algumas dessas pessoas. E percebemos a necessidade de uma infrafísica pra fazer as coisas acontecerem. Com a parceria com o Agente Cidadão, que nos deu uma estrutura e um propósito, mais a influência do Hernani, que já flertava com uns projetos de inclusão digital do Sebrae e do Sampa.org, e do Estraviz, colaborador bissexto do metáfora e grande defensor do discurso da inclusão, foi quase um consenso de que o que a gente se propunha a fazer se aproximava bastante daquilo tudo e do tal hacktivismo. E, de fato, muito do que aconteceu na sequência foi porque assumimos intimamente o conceito da inclusão digital como base. Tão intimamente que começamos a desconstruí-lo. A idéia de inclusão digital surgiu há alguns anos, dentro da Ação pela Cidadania, colada em outro conceito, o da inclusão social. A onda é complexa, mas minha visão é a seguinte: a idéia de inclusão social parte do pressuposto de que existe um ciclo formal de “cidadania” ou como quer que se chame isso, que propõe que todos devem ter acesso a educação, trabalho assalariado, saúde, convívio social, igualdades de tratamento e oportunidades, e liberdades de comunicação e expressão de fé. Em resumo, uma regra que determina que as pessoas que compõem uma comunidade, cidade e nação devem ter acesso a um mínimo que seja aceitável para o desenvolvimento pessoal e coletivo, sem prejudicar o outro. Mas espera um minuto: transposto para o contexto da comunicação online, síncrona e assíncrona, simultaneamente pessoal e coletiva, virtualizada por essência, a idéia de um ciclo mínimo a que todos devam ter acesso perde um pouco da força. Sim, eu concordo totalmente que o direito de uma pessoa acessar um dispositivo conectado em rede para interação com outras pessoas deve ser universal. Mas visto sobre os olhos frios do direito mínimo, se poderia afirmar que usar um caixa de banco ou uma urna eletrônica já cumprem, de certa forma, esses objetivos. A proposta da Metareciclagem é algo muito mais profundo. Se trata da apropriação de tecnologia e da reapropriação de tecnologia tida como obsoleta, proporcionando e fomentando o uso crítico das ferramentas de comunicação com o objetivo de transformação social. O corte é outro, não o do excluído e do incluído, mas do uso meramente ferramental contra o uso consciente, engajado e criativo. Exatamente por isso, o nosso caminho nunca foi a montagem em série de telecentros, mas a constante reinvenção, pesquisa e desenvolvimento de novos caminhos. Exatamente por isso, nunca nos concentramos na equação montagem de estrutura + capacitação, e sim em mudar nossos próprios hábitos de uso da rede. A internet, como é hoje, não me satisfaz. Fazer a internet do amanhã é que me mantém ganhando pouco dinheiro mas certo de que alguma coisa está acontecendo. No dia em que estabilizarmos, serei o primeiro a pular fora. rosas sugeriu que me baseasse nisso: Tecnologia Social Felipe Fonseca, 03/2004 Os cadernos de informática e demais viciados em novidades costumam encontrar a cada meio ano a grande revolução que vai mudar os rumos da humanidade. A bola da vez parecem ser as chamadas social networks (redes sociais), como Orkut, Friendster, ICQ Universe, Flickr e afins. São ambientes que mapeiam a rede de relacionamentos de seus usuários e permitem a organização de grupos com interesses compartilhados, debates e alguns outros meios de interação. Nenhuma dessas características é grande novidade para quem já se utiliza da internet para interagir com outras pessoas e conhece as listas de discussão, weblogs, comentários e publicações coletivas. Talvez a inovação do chamado software social esteja na interface integrada de todos esses recursos. Particularmente, eu considero o software social mais um passo na evolução do que pode ser chamado de maneira abrangente como tecnologia social, um conceito que vai muito além de dispositivos conectados a redes telemáticas. Ouvi falar pela primeira vez em tecnologia social da boca de Bráulio Brito, amigo e professor de semiótica mineiro. É possível que o uso que eu faço da expressão seja diverso do aceito nos círculos acadêmicos, mas isso não me incomoda muito. O fato é que tenho observado alguns padrões emergentes, em diferentes áreas do conhecimento, o que acaba anulando um pouco o meu fetiche por informática quando um novo sistema surge. Sou um usuário assíduo da comunicação telemática. Brinco com a internet desde 1996; estive envolvido com dezenas de projetos relacionados a tecnologia da informação; recebo quase três mil emails mensais, sem contar com spam e surtos viróticos. Não obstante, sinto até raiva quando vejo iniciativas interessantes serem empacotadas e transformadas em produtos conceituais proto-revolucionários, com significado e resultados limitados, tomados sem que se observe todo o contexto. Como eu a vejo, a tecnologia social abrange desde um caderno até um telefone celular conectado à Internet. Sim, computadores podem ser um meio para a tecnologia social, mas essencialmente ela trata mais de uma maneira de usar as ferramentas de comunicação, e isso envolve colaboração, construção e validação coletivas de conhecimento, quebra de hierarquias, descentralização e o caráter emergente das tomadas de decisão. Nos últimos dois anos, tenho realizado uma série de experiências relacionadas a ações em rede, e junto com parceiros como Hernani Dimantas, Dalton Martins e Daniel Pádua, desenvolvido maneiras de abordar a produção colaborativa – não na internet, mas através da internet e outros meios. Essa vivência trouxe uma perspectiva que alinha diferentes exemplos de tecnologia social: * Mídia alternativa: de weblogs e publicações coletivas às rádios comunitárias, jornais de pequenas entidades informais, ou aos fanzines que acompanham as cenas culturais independentes. * Comunicação em rede: da internet e suas fantásticas ferramentas de mobilização coletiva até a velocidade com que os camelôs descobrem que a fiscalização está na rua. * Colaboração: do software livre ao, como apontou André Passamani, mutirão para a construção do puxadinho - mais água no feijão, pagode e generosidade. Em suma, as redes sociais são, sim, interessantes. Vale a pena participar. Eu tenho retomado o contato com pessoas que não via há muito tempo, tenho encontrado opiniões interessantes sobre assuntos que me dizem respeito e venho também tendo a oportunidade de conhecer novas pessoas baseado nas afinidades que se tem a oportunidade de expor em tais sistemas. Mas que não se esqueça que este é só mais um passo de um processo que já vem acontecendo há algum tempo, inserido em um contexto de descentralização e da retomada do aspecto “social” da comunicação depois de um século inteiro de mídia de massa. Hipertexto: - Orkut: http://www.orkut.com - Friendster: http://www.friendster.com - ICQ Universe: http://universe.icq.com - Flickr: http://www.flickr.com - Hernani Dimantas: http://www.marketinghacker.com.br - André Passamani: http://colab.info - Daniel Pádua: http://www.dpadua.org ---- colaboração ou cooperação? cooperar me parece mais superficial e ainda lembra, não sei por quê, do cagüeta que "coopera" com os home. colaborar, trabalhar junto, cabe em um certo sentido, talvez objetivo demais. conspirar, que me manda pra co-inspirar, tem mais esse quê de círculo de idéias, de inspiração mútua, que leva pra colaboração, mas é outra idéia que foi desviada do que poderia significar. se é que tem mesmo essa etimologia (posso estar equivocado, como quase sempre). falta uma maneira de explicar todo esse processo de construção coletiva de inovação*, de criatividade realmente coletiva. não o que se tem chamado por aí de colaboração, a justaposição de idéias (ah, o gênio renascentista e suas maravilhosas idéias!) de várias pessoas, mas do laborioso - e gerador de conflitos - debate profundo, orientado para ações transformadoras. ou para a transformação de ações (ver o asterisco abaixo). de maneira mais sucinta: um conceito que explique esse jeito todo nosso de fazer as coisas, que, por mais que se tomem referências gringas, acaba por influenciar e gerar identidade ao que é feito em terras tupiniquins. cabe aqui também (tendencioso como só eu) a metodologia gerada nas discussões do que foi o projetometafora: xemelê, wikê, fazê. conversar, estruturar, agir. brainstorm, tosa, efetivação. enquanto isso, uso colaboração mesmo.
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