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Ação Indígena Potiguar

temos guardado um silêncio bastante parecido com a estupidez......”

Eduardo Galeano

para nós nada, para todos tudo”

lema Zapatista

os Munduruku e outros povos da Amazônia reduziam e mumificavam em um ritual as cabeças tanto dos inimigos quanto do guerreiros. As dimensões do pariná ou da cabeça mumificada eram semelhantes às de um macaco comum. Em fins do século XIX, com a perda do significado das guerras, também desapareceu esse ritual.”

A resistência indígena


Justificativa:

A região nordeste do brasil abriga hoje 24% dos povos indígenas brasileiros [1]. No estado do Rio Grande do Norte, estes índios e índias sofreram com mais virulidade a pressão da miscigenação cultural e limpeza étnica, assim como o saqueio de terras, aldeamento e perseguição religiosa e linguística desde os primórdios da colonização brasileira.

O fato do estado não ter oficialmente nos dias de hoje nenhuma aldeia indígena reconhecida, faz despertar o interesse pelo estudo dos levantes indígenas mais importantes no período colonial, como a Guerra dos Bárbaros ou confederação dos Cariris, onde vemos o estado do Rio Grande do Norte como uma região central de uma extensa área indígena rebelde, estratégica geograficamente, que servia de refúgio para muitas das tribos que se rebelavam contra o sistema mercantilista - Cariris, Janduís, etc - tornando-se portanto alvo de grande repressão militar por parte da ordem vigente. Os constantes levantes e alianças entre colonizadores e índios, levou a quase total dizimação dos índios e índias da região.

Após mais de 100 anos de silêncio oficial, nos quais estas populações foram dadas como extintas, desde junho de 2005, diferentes grupos étnicos reinvidicam publicamente sua identidade indígena em território potiguar: Eleotério do Catu de Canguaretama, Mendonça do Amarelão de João Câmara; Caboclos de Açu; Comunidade de Banguê e Trapiá, também em Açu; Comunidade de Sagi, cujos antecessores Potiguara vieram da Baía da Traição na Paraíba.[5] Tática de resistência ou etnocídio, o fato é que as comunidades indígenas, se contabilizarmos os significativos contingentes de índios que moram nas periferias urbanas próximas às aldeias e nas capitais, expulsos em sua grande maioria pelo avanço do latifúndio sobre as terras indígenas,[6] parecem estar hoje em pleno florescer.

Mesmo assim, além do terror oficial do passado (dizer-se ‘‘índio’’ soava como uma sentença de morte), esteriótipos e discriminações como o de povos indígenas já inseridos num contexto urbano, sem terras, e sofrendo processos contínuos de domesticacão cultural, ainda sofrem o descaso dos habitantes circunvizinhos. Somando às forças de destruição estão as implementações globais de políticas de exploração dos recursos naturais. A comunidade do catu por exemplo, encontra-se completamente cercada pela monocultura de cana-de-açucar da antiga Usina Estivas S/A, para produção de etanol, comprometendo completamente seu ecossistema.
 
"É sintomático que no Rio Grande do Norte, as lutas territoriais não seguiram o caminho da reivindicação identitária, pelo contrário, as ‘comunidades’, quando existem – quer dizer quando despertaram o interesse de estudiosos – encontraram grandes dificuldades para conseguir o reconhecimento dos seus territórios tradicionais.(...) Longe de ser a reivindicação de uma identidade coletiva ou refletir uma ação política fundada num interesse em reconhecer os direitos ancestrais sobre um território, parece que a redescoberta pessoal de um passado até então abafado, inicia uma reflexão introspectiva sobre raízes diferenciais que só hoje podem ser afirmadas e declaradas a um agente do Estado brasileiro.“[7]

É neste sentido que no estado, o Movimento dos Sem Terra, ao não focar em identidades, pareça ter sido mais efetivo do que o movimento indígena que reclama igualmente por terras e reconhecimento étnico. No entanto, o movimento dos expropriados parece ir muito mais a fundo, quando também questiona os processos culturais, religiosos e filosóficos da própria existência humana e intergalática, em que diversidades conectadas, livres e autosustentáveis podem observar com generosidade desde os processos mais simples da natureza e dos animais que a habitam, quanto às mais complexas expressões culturais, artísticas e medicinais.

Segundo o pesquisador Paulo Lara "a história mostra que as relações sociais, através de conflitos e choques, na américa latina, dificilmente se encaixam numa auto-afirmação totalizante, mas mais em processos de auto criação e recriação segundo as épocas e níveis de contato ou dominação." O estudo de movimentos indígenas mais organizados como os zapatistas vai no sentido de encontrar referências entre pares de lutas e resistências globais, assim como dos processos engendrados nestas mobilizações.

Porque a comunidade do vale do catu ainda não tem a garantia de seu território?

Objetivos:

Este projeto visa estabelecer uma troca de saberes com os moradores da Comunidade do vale do Catu, localizada no município de Canguaretama-RN, onde habitam cerca de 110 famílias. Através de técnicas livres buscaremos fortalecer a etnicidade e a comunicação em rede entre as comunidades indígenas existentes, assim como contribuir com os aprendizados já em curso - como o da língua Tupi, ensinado para crianças da 3º e 4º séries na escola municipal local João Lino da Silva, com o objetivo principal de fortalecer a luta por reconhecimento e território indígena que já vem sendo travada pela comunidade, criando condições para o aprofundamento destas questões a partir de novos projetos emergentes.

Metodologia:

- Reconhecimento dos parceiros para o projeto dentro da comunidade do catu;
- Imersão nas narrativas e material gráfico produzido por comunidades indígenas mexicanas e brasileiras, através do estudo de fanzines zapatistas e outros materiais relacionados;
- Procurar produzir um conteúdo local que materialize as lutas e resistências históricas e em curso;
- Introdução ao uso de tecnologias livres para a produção multimídia;
- Estimular a tradução dos materiais produzidos para a língua Tupi;
- Ter a permacultura como referência para projetos de produção de alimentos, reuso de águas, tratamento de resíduos e construções ecológicas.
- Difusão dos conteúdos produzidos através de ferramentas de alta e baixa tecnologia;

Cronograma:

- Julho/Outubro 2009

Fontes:

[1] Dados da Fundação Nacional de Saúde http://www.funasa.gov.br/Web%20Funasa/vigisus/Pdfs/Folder_Dados.pdf∞

[2] "Introdução a história do RN" Denise Mattos Monteiro, 2002, Cooperativa Cultural Universitária, segunda edição.

[3] A etnicidade encoberta: ‘Índios’ e ‘Negros’ no Rio Grande do Norte – J. Cavignac http://www.antropologia.com.br/arti/colab/abanne2003/a10-jcavignac.pdf∞

[4] Indígenas do Rio Grande do Norte: uma longa história de resistência – J. Guerra http://www.mineiropt.com.br/arquivosestudo/arq46bc7274d2043.pdf∞

[5] Matéria jornalística “No RN, três grupos reivindicam publicamente identidade indígena” http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=17206∞

[6] História, povos indígenas e educação: (re)conheçendo e discutindo a diversidade cultural – E. Silva http://www.ufpe.br/npecap/documentos/artigo%20edson.doc∞ Alguns destes dados são do IBGE/2005, orgãos oficiosos.

[7] A etnicidade encoberta: ‘Índios’ e ‘Negros’ no Rio Grande do Norte – J. Cavignac http://www.antropologia.com.br/arti/colab/abanne2003/a10-jcavignac.pdf∞

comentários pajé versão I

oi tati, oi todo@s,

li a proposta, achei interessante. colocaria os seguintes pontos a
serem reforçados / trabalhados:

1 -conceitualmente:
lapidar conceitos relativos aos processos de transformacao da
expressoa indigena. existem varias formas com que historicamente esse
processo foi nomeado, aculturação, transculturação, hybridismo,
miscigenação, assimilação.
digo isso pois certos problemas de "identidade" podem ser vistos de
prismas diferentes, desde "táticas de resistencia" no processo de
inserção a outros meios que não os tradicionais, até sobrevivencia e
resistência se considerarmos os conflitos politicos que envolvem
terra, recursos naturais e bens simbólicos.

particularmente, eu acho muito complicado se falar em identidade hoje
em dia, já que a história mostra que as relações sociais, através de
conflitos e choques, na américa latina, dificilmente se encaixam numa
auto-afirmação totalizante, mas mais em processos de auto criação e
recriação segundo as épocas e níveis de contato ou dominação.

2 - wikipedia nao pode servir de referencia

3 - acho que as coisas dos sensos, se uilizadas na proposta tem que
ser melhor trabalhadas. tipo, se a proposta for fazer uma crítica a
maneira como se calcula, explica, classifica e rotula as expressoes
culturais, acho bem interessante. mas o senso nao pode aparecer como
dado ou prova de que determinado fato socio cultural aconteceu sem uma
analise dos processos burocraticos de estado que procuram estabelecer
uma "organização" classificatória, sei lá.....


4 "Por outro lado, e contradizendo tudo o que já foi dito sobre a
emergência étnica, o extraordinário ‘despertar indígena’ que
encontramos em terras potiguares parece ser o resultado de um processo
individual de tomada de consciência. Longe de ser a reivindicação de
uma identidade coletiva ou refletir uma ação política fundada num
interesse em reconhecer os direitos ancestrais sobre um território,
parece que a redescoberta pessoal de um passado até então abafado,
inicia uma reflexão introspectiva sobre raízes diferenciais que só
hoje podem ser afirmadas e declaradas a um agente do Estado
brasileiro.“[7]

essa pra mim é a chave da pesquisa. Acho que deveria desdobrar isso,
desenvolver pra chegar numa pergunta a ser respondida. acho
interessante, pessoalmente, a questao da identidade x interpretação
histórica. Não sei se existe um "processo individual de tomada de
consciência" a consciência 'tomada' ´é sempre em relação à um ambiente
ou a um grupo de contato. a formação da consciencia (social e não
transcendente) é necessariamente um processo coletivo e ligado a um
ambiente constituido.

a última coisa, mais objetiva e prática, é a necessidade de uma
hipótese. vc esboça uma metodologia, mas acho que seria legal ficar
claro algumas possibilidade dessa "ação interventora" e como a
pesquisa pode fazer girar tal idéia.

obs final, os métodos antropológicos não são de "não intervenção".
Existem vários, alguns que clamam por somente "observação" outros por
"participação" etc... mas de qq jeito, ele sempre interferem, objetiva
e subjetivamente, seja no próprio objeto de pesquisa, seja via
mediação da análise antropológica, seja pela recepção do leitor do
trabalho.

grandes beijos e parabéns pela idéia;

pajé

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