Políticas públicas, o afeto e as artes de fazer

Título do Projeto de Pesquisa em Andamento:

GAMB+i - Grupo Autodidata de Metodologias Bem + Inteligentes

Bolsista:
Ricardo Ruiz Freire

Coordenadores:
Prof. Alexandre Freire da Silva
Prof. Guilherme Soares
Prof. Paulo José Lara
Profa. Thaís Britto
Profa.Dra Fabiane Borges

Instituição:
Descentro - nó emergente de ações colaborativas

Período:
01/01/2009 a 01/07/2009    

 

 

Desejo liberto quer dizer que o desejo sai do impasse do fantasma individual privado: não se trata de o adaptar, de o socializar, de o disciplinar, mas de o ligar de tal maneira que o seu processo não seja interrompido num corpo social, e que produza enunciações coletivas.”

Gilles Deleuze

 

 

 

Do objeto: Processos de imersão, o afeto e as artes de fazer.

 

No primeiro capítulo de seu trabalho A invenção do cotidiano, Michel de Certeau, tal como Wittgenstein, se reconhece “preso” na historicidade lingüística comum, combatendo, assim, de um lado, a profissionalização da filosofia, isto é, sua redução ao discurso técnico (positivista) de uma especialidade. De outro lado, combate a avidez metafísica ou a impaciência da ética, sempre inclinadas a subsumir as regras da correção e se expor ao risco do nonsense de seus enunciados e perder a autoridade de seus discursos sobre a linguagem da experiência comum. Combate a presunção que leva a filosofia a fazer “como se” ela desse lugar ao uso ordinário, e supusesse para si mesma um lugar próprio onde pensar o mundo. (CERTEAU, 1990). Discorrendo sobre o discurso do “Cada um” e do “Ninguém” o autor nos salienta que

 

O 'não importa quem' ou 'todo o mundo' é um lugar comum, um topos filosófico. Esta personagem geral (todo o mundo e ninguém) tem como papel dizer uma relação universal das ilusórias e loucas produções escritas com a morte, lei do outro. Ele joga em cena a própria definição da literatura como mundo e do mundo da literatura. Além de não ser mais representado aí, o homem ordinário dá como representação o próprio texto, no e pelo texto (...) Mas quando a escrita elitista utiliza o locutor “vulgar” como travesti de uma metalinguagem sobre si mesma, deixa igualmente transparecer aquilo que se desloca de seu privilégio e a aspira fora de sí: um Outro que não é mais um deus ou uma musa, mas o anônimo. (CERTEAU, 1990).

 

Assim, o discurso analisador e o objeto analisado têm o mesmo estatuto, o de se organizar pelo trabalho de que dão testemunho, determinados por regras que não fundam nem superam. O privilégio filosófico ou científico se perde no ordinário. (CERTEAU, 1990). É a prosa do mundo de que falava Marleau-Ponty.

 

Ao ocupar ao mesmo tempo o papel do filósofo e de seu objeto de análise, ao se tornar ordinário, seu estudo percebe as construções de fenômenos sociais praticadas no cotidiano, no morar, no jogar, no cozinhar, no contar histórias. Nas artes de fazer.

 

Essas maneiras de fazer constituem as mil práticas pelas quais usuários se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas da produção sócio-cultural. Elas colocam questões análogas e contrárias às abordadas no livro de Foucault (Vigiar e punir): análogas, porque se trata de distinguir as operações microbianas que proliferam no seio das estruturas tecnocráticas e alteram seu funcionamento por uma multiplicidade de “táticas” articuladas sobre os detalhes do cotidiano: contrárias, por não se tratar mais de precisar como a violência da ordem se transforma em tecnologia disciplinar, mas de exumar as formas sub-reptícias que são assumidas pela criatividade dispersa, tática e bricoladora dos grupos ou dos indivíduos presos agora nas redes da “vigilância”. Esses modos de proceder e essas astúcuias de consumidores compõe, no limite, a rede de uma antidisciplina que é o tema deste livro. (CERTEAU, 1990)

 

Essas táticas, ações calculadas que são determinadas pela ausência de um próprio, não possui condição de autonomia fora de uma delimitação. A tática não tem por lugar senão o outro. A tática é movimento, dentro do campo de visão do inimigo, e no espaço por ele controlado. Ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as ocasiões e dela depende, sem base para estocar benefícios. A tática é a arte do fraco (CERTEAU, 1990). Neste ponto, a tática – que se difere da estratégia pela segunda apontar para a resistência que o estabelecimento de um lugar oferece ao gasto do tempo enquanto a primeira indica uma hábil utilização do tempo, das ocasiões que apresenta e também dos jogos que introduz nas fundações de um poder – foi o caminho seguido por David Garcia e Geert Lovink ao cunharem o quase-termo Mídia Tática, para designar fluxos reativos rizomáticos de pessoas que utilizavam meios de comunicação – de massa ou interpessoais – como forma de expressarem a insatisfação desses mesmos indivíduos frente ao aparelho de Estado e das máquinas capitalistas (DELEUZE, 1973, GARCIA, 1995).

 

No Brasil, esses mesmos movimentos de indivíduos começaram a ganhar força em um cenário nacional a partir do início do novo milênio. Primeiramente como grupos anônimos de pessoas que circulavam entre o pensamento produzido na academia e as experiências empíricas no campo das artes e produção midiática. (FONSECA, 2008, VELOSO, 2008). Fluxos de resistência nômades incitavam uma vez mais o aparelho de Estado. Compreendendo a sociedade civil como parte do Estado ampliado (SILVA, 2008), as forças nomádicas tiveram suas potencialidades focadas e incorporadas rapidamente ao aparelho de Estado, para, como efeito dominó, gerarem mais células nomádicas, para servirem ao Estado, para gerarem novas células nomádicas... (DELEUZE, 1980). A retroalimentação de potencialidades. Táticas e estratégias em circulação.

 

Imersão Deleuziana: um acontecimento, com uma áurea reluzente de ativismo, uma disposição individual ou coletiva que constroem situações de resistência ao aparelho de Estado. Entendemos a imersão como uma percepção sensória dos ambientes construídos ou já existentes. Zona Autônoma Temporária (BEY, 2002). Uma disponibilidade, em engolfamento, um mergulho e se não tiver prudência, um afogamento (BORGES, 2008).

 

Uma imersão coletiva é circunstância rítmica com atuação incisiva sobre os corpos dispostos a vivenciarem a experiência; (...) Cada singularidade tem seu próprio ritmo-base e quando desafiada a imergir coletivamente numa determinada situação, necessariamente vai sofrer modulações de seus dados e interferência dos ritmos existenciais alheios alternando entre sua própria base rítmica e a disritmia . (...) Se Simondon se refere ̈transdução ̈ para dizer da co-constituição produzida entre sujeitos e objetos, poderíamos dizer que: tratamos de novas práticas de “transdução” de redes sociais diferenciadas entre si em contextos imersivos coletivos, a fim de testar linguagens e deflagrar processos de co-constituição. (BORGES, 2008)

 

Uma imersão é a experiência do afeto. Afeto espinoziano, que rompe com a dicotomia racionalista de Descartes opositora do corpo e da alma, para o paralelismo, onde não há uma relação de casualidade entre mente e corpo, havendo, antes, uma relação de concomitância entre os dois, sendo, respectivamente, séries paralelas de Modos de Pensamento e Modos de Extensão, ambas expressões equivalentes à essência da Substância. Tais como as formas geométricas e as fórmulas algébricas, que não se opõe, não influenciam uma à outra mesmo com diferente representação para o mesmo objeto, da mesma forma esses Modos, equivalentes e paralelos, não se comunicam, pois utilizam diferentes linguagens para exprimirem a mesma essência. Para Espinosa, ainda, a essência do homem não é constituída pela sua consciência intelectual, ou pela sua razão, mas pelo seu desejo – o que faz estabelecer conexões entre os corpos, que promovem os afetos, que constitui os indivíduos. E são estas noções de afeto que nos levam ao conhecimento não apenas do outro, mas de nós mesmos (GOMES, 2008). Ambientes imersivos e afetivos de células nomádicas em oposição ao aparelho de Estado. Davi e Golias. Imersões em que o eu, como a física contemporânea, não pode mais ser dividido em unidade independente. Processo de subjetivação a partir da consciência da existência do Outro, da alteridade (GOMES, 2008). Afeto como agente de irradiação de células nômades. Sobre a construção dessas novas células de nomadismo em oposição ao aparelho de Estado a partir do pensamento e da práxis existentes em ambientes imersivos afetivos recai o interesse de nossa pesquisa. Como bons e maus encontros, segundo o pensamento espinoziano, se dão em imersões eu-outro e interferem na própria estrutura do aparelho de Estado?

 

É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões que se dispõe, sempre n – 1. (...) Subtrai-se o único da multiplicidade, a ser constituída. (DELEUZE e GUATTARI, 1997, p. 14, v.1)

 

Dos objetivos:

São objetivos dessa pesquisa, refletir:

  1. sobre como afeto e as artes de fazer se dão em ambientes imersivos e;

  2. como esses sistemas imersivos afetivos podem ser utilizados como metodologia de implementação de programas e políticas públicas que necessitam alcançar um tão híbrido conjunto de indivíduos sob um mesmo Estado-nação.

 

Da justificativa:

Nos últimos anos, o Brasil assumiu um papel de destaque no contexto internacional do software livre. O governo federal apresentou um posicionamento público de defesa da adoção de software livre em diversos projetos. (FREIRE, 2006). Iniciativas de desenvolvimento de programas de computação mesclavam-se com hordas de ativistas em mídia fortalecendo movimentos de democratização da comunicação. A repercussão no exterior foi tal ao ponto de a revista Wired retratar o país como uma "Nação Open source" (WIRED, 11/12/2004). Em eco ao pensamento de Gilbert Simondon, Richard Barbrook, Gilles Deleuze e Félix Guattari, Donna Hanaway, Marshall McLuhan, Laymert Garcia dos Santos, Manuel Castells entre outros, novas metodologias para troca de conhecimentos, sejam eles práticos ou teóricos, devem ser experimentadas. Essas metodologias, com base nos autores a serem estudados, buscariam transportar a pessoa à apropriar-se do objeto técnico (e teórico) na cultura como forma de manter a viabilidade das sociedades humanas (DELACROIX, 2008). Num ambiente de esquizofrenia geral (DELEUZE, 1973), o homem se fez sujeito, criou objetos, ameaçou a vida, comprometeu-se. Pensar o eu-outro como o eu. Aqui, a pesquisa se mistura com a prática, se torna objeto (CERTEAU, 1990), na reflexão das diferentes possibilidades para implementação de programas e políticas públicas que propõe uma horizontalização social através da incorporação da tecnologia em diferentes cenários da tão rizomática e ressonante cultura brasileira. Cabe também interrogar-nos sobre a dimensão de tensionamento e de “luta de posições”, sobre as dificuldades potenciais de desenvolver-se cenários rizomáticos e a “arte de fazer” histórica das políticas sociais no Brasil. Acreditamos que a forma que se desenvolvem pressupõe um cenário, complexo, de disputa de sentidos. Refletiremos também sobre o que tornou possível tal horizontalização, de onde vem, como é aceita e se é aceita, e como se propaga.

 

A Metodologia:

Além da bibliografia sugerida, tomaremos como estudo a implementação de dois programas governamentais de inclusão digital entre 2004 e 2007: Cultura Digital, do Ministério da Cultura, e GESAC – Governo Eletrônico Serviço de Atendimento ao Cidadão, do Ministério das Comunicações. Nesse estudo incluiremos entrevistas não diretivas com envolvidas e envolvidos nesses dois programas - ambos utilizaram metodologias baseadas em processos imersivos - bem como outros e sujeitos que tomaram parte nesses processos. As entrevistas serão gravadas em áudio e posteriormente transcritas. Serão também analisados relatórios e relatos de oficinas e encontros.

 

Do cronograma:

Ano 2009

Ação

Jan

Fev

Mar

Abr

Mai

Jun

Leitura Bibliográfica

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Entrevistas

 

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x

 

 

Análise de entrevistas e relatórios

 

 

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Dissertação

 

 

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Bibliografia

BARBROOK, Richard. Futuros Imaginarios – das máquinas pensantes à aldeia global. São Paulo: Peirópolis, No Prelo.

BEY, Hakin. TAZ: Zona Autônoma Temporária. São Paulo: Conrad, 2002.

BRUNET, Karla (org.). Apropriaçoes tecnológicas – emergência de textos, idéias e imagens do submidialogia #3. Salvador: EDUFBA, 2008

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano, volumes 1 e 2. Petrópolis: Vozes, 1990.

DELEUZE, Gilles. A ilha deserta. São Paulo: Iluminuras, 2008.

_________ . A lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998.

_________: GUATTARI, Félix . Mil Platôs, volumes 1, 2, 3, 4 e 5. São Paulo: 34, 1997.

ESPINOSA, Barauch de. Tratado Teológico Político. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

_________ . Ética. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

FREIRE, Alexandre: FONSECA, Felipe: FOINA, Ariel. O Impacto da Sociedade Civil (des)Organizada: Cultura Digital, os Articuladores e Software Livre no Projeto dos Pontos de Cultura do MinC. http://www.cultura.gov.br/site/2006/02/22/o-impacto-da-sociedade-civil-desorganizada-cultura-digital-os-articuladores-e-software-livre-no-projeto-dos-pontos-de-cultura-do-minc

GARCIA, David, Fine Young Cannibals, of Brazilian Tactical Media publicado em openflows.org, 10/09/04. http://openflows.org/article.pl?sid=04/09/1a0/167212&mode=thread&tid=23

______: LOVINK, Geert. The ABC of Tactical Media. http://amsterdam.nettime.org/Lists-Archives/nettime-l-9705/msg00096.html

GOMES, Morgana Barbosa. Intersubjetividade Corporal: Aspectos filosóficos da intercoporiedade e a construçao de uma etica afetiva nas experiencias do Corpus Ritualis. Dissertação de Bacharelado. Vitória da Conquista: UESB, 2008.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1968.

ROSAS, Ricardo. The Revenge of Low-tech: Autolabs, Telecentros and Tactical Media in São Paulo. Sarai Reader 2004. New Delhi: Sarai, 2004.

WIRED, We Pledge Allegiance to the Penguin. Wired Magazine, Issue 12.11, Novembro, 2004.

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