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Relato Pedagogical Faultlines 2

Quando o pajé desistiu de participar da conferência em amsterdam e propôs que eu tomasse seu lugar numa das apresentações brasileiras (novaes e o ff já haviam confirmado seu interesse e sua ida) pensei cá com os meus botões que de repente era a hora de deixar um tanto de lado o receio com os gringos e investir pessoal e corporativamente (já que éramos-somos ).( ) numa plataforma de colaboração sem fronteiras. Aceitei o convite pensando num possível contato com novas experiências e num intercâmbio entre projetos adaptáveis às realidades envolvidas, tentando deixar de lado o xenofobismo típico daqueles que habitam cidades turísticas e criam visões menos glamurosas do mundo além-mar.

Tentando me despir dos preconceitos entrei no avião rumo àsoropa, mas logo logo entenderia que os meus preconceitos na real eram conceitos mesmo. Logo em portugal fui sabatinado por uma loura aguada que me lembrou até batida policial brasileira. Ela só parou de cutucar quando disse pra ela que não entendia o porquê daquele tratamento, já que estava adentrando os gelados campos europeus para contribuir com a síntese de novas formas educacionais, coisa boa pra todo mundo.

Depois de um tempo no aeroporto de lisboa, e de um papo bacana com a menina que vendia óculos num stand, embarquei para amsterdam. Como meu cunhado krshna já havia me contado muita coisa sobre aquela cidade minha mente já estava em outra, e até as pessoas no avião me pareciam mais simpática, fiquei feliz por estar chegando numa cidade mais amena, onde a condição afro-latina não mataria rapidamente.

Fiquei muito feliz ao encontrar o ff e o novaes lá na centraal station. É muito louco esse lance do aumento da amizade na distância. Reforça mesmo os laços entre as pessoas. Éramos mais amigos, e, como nunca, éramos um time descentro. Enquanto o novaes e o ff me contavam sobre a cidade e sobre o dia anterior eu percebia a assepsia daquelas ruas e das pessoas, e denovo, com os meus botões pensei que talvez a performance prevista não fosse tão condizente com aquelas condições em que estávamos, mas um bom foda-se resolveria isso tranquilamente. Dei um toque no krshna, meu cunhado, que emprestaria o equipamento para montagem da rádio cidadão comum e fiquei mais à vontade ainda, com os amigos e parte da família por lá.

No dia seguinte, logo pela manhã saímos eu e o novaes rumo à casa do krshna para pegar os equipos. Na saída do hotel o novaes me apresentou dois indianos, o Ravi e o outro que era mediador e que eu esqueci o nome...caras bacanas numa primeira impressão. Partimos rumo à overtoom e encontramos o krshna em sua nova casa, oferecida pela polícia de amsterdam a módicos dez euros por mês. Ele estava dividindo a casinha pequenina com o Cleverson, brasileiro punkeroso daqueles com tatuagem na cara, e com o Pablo, português filho de um cara que o krshna trabalhou junto em portugal há uns anos atrás. Pegamos pickup, amp, caixa de som, eu levei uma seleçãozinha de discos - a base era de uns benjor e novos baianos - e partimos para o workshop que acontecia num prédio que, segundo o krshna, era uma ocupa bem louca, a AFRIKA, e o prédio agora mais parecia sede de servidor de banco, cheio daquelas portas de vidro, tudo trancada, salinhas com cadeiras brancas que me lembraram o escritório do ipti.

As apresentações começaram mornas, com o indiano falando sobre um trampo com memória e desenvolvimento de páginas, lance bacana, apresentação de slides, um púlpito pra falar, já comecei a pensar: oxente, mas num é seminário sobre formas alternativas de troca de conhecimento? Começava a ficar menos à vontade, prevendo o conflito entre o meu mecanismo de apresentação e a expectativa dos participantes, ou mesmo comportamentos que eles considerariam aceitáveis. Novamente um rápido foda-se resolveu esta inquietude.

Comecei a apresentação, pedi pra alguém escolher um disco, ninguém quis. pedi denovo, ninguém quis. Como diz o filme do seo paraíba, deixa que eu escolho o disco então, sonzinho rolando, streaming rolando, comecei a conversa falando de como usamos a rádio cidadão comum em intervenções educacionais no Brasil, desconstrução de mídia, apropriação de espaço público e de tecnologia, daí entrou no bolo estúdio livre, mimoSa, Upgrade!salvador... fluiu bem a apresentação mas o formato era tão careta que eu falava, falava mas num tava bem não. Ninguém perguntava nada, ninguém nem quis escolher um disco, todo mundo queria ficar sentado olhando o macaquinho pular de um lado pro outro... e lá vai ele, vai botar disco! eta, vai cuidar do streaming. lá vai o macaquinho mostrar mais um vídeo! pula!pula! Tava realmente foda, e vi que tudo aquilo que imaginei antes da apresentação era masi ou menos verdade, e que poucas pessoas ali na real queriam realmente trocar idéia, era mais um lance de aparecer mesmo. O que me consolava era o skunk e os ácidos que me esperavam ao final daquela apresentação.

Mesmo meio decepcionado 'ao vivo' levei, com colaboração do novaes, ff e habib o lance até o final, e daí vieram as perguntas. algumas até interessantes, mas o que senti foi que era realmente difícil para os europeus ali perceberem a nossa condição de vida que inferia diretamente no desenvolvimento das metodologias que usamos e que estávamos apresentando. Gostei especialmente de um coroa que perguntou: E onde vcs querem chegar com isso?? Muito boa a pergunta, porque seminários internacionais caretas-multimídia realmente não são lugares a que queremos chegar, mas obviamente essa não foi a resposta pelo bem do intercâmbio waag-sarai-descentro. Na sequencia veio a apresentação de uma indianazinha bonitinha-gente boa que falou de um projeto de design puxado mais pra criatividade e tal, da utilização das ferramentas com maior foco no processo pedagógico e desenvolvimento da criatividade mesmo. Na sequencia, um louro holandês do waag apresentou uns slides sobre a utilização de jogos (nada adaptáveis a outras realidades) em processos educacionais.

Depois da nossa apresentação a Lipika ofereceu um espaço lá onde eram realizadas as refeições pra gente prolongar o workshop de maneira mais informal. Informalíssima já que eram lá que guardavam todo o alcool da conferência. Foi uma tarde ótima, onde enchemos a cara e conversamos bem com pessoas bacanas, um italiano ativista de rádio, a jerjena - uma menina que morava lá bem gente fina, mais uma menina bacana, e um coroa que também chegou a trabalhar com rádio, por coincidencia a radio Patapoe, rádio livre que o próprio krshna participava, junto com masi gente que cheguei a conhecer como o Pablo polaco, outras meninas da polônia e eslovênia.

A tarde foi ótima, logo depois da nossa apresentação o coroa do "Onde vcs querem chegar com isso?" começou a apresentar uma plataforma que vinha desenvolvendo, meio second life + google earth, um bagulho onde as pessoas poderiam te achar em qualquer lugar do mundo, um lance que ele começou a apresentar dizendo que era comercial mesmo. Depois de uma deliciosa meiota de um hoff autêntico chegamos a conclusão, eu e o krshna (novaes, ff e o habib tavam na outra apresentação, da menina que um dia se envolveu com o novaes) de que a melhor coisa era roubar umas cervejas e sair dali antes que resolvessemos subir nas mesas, já que o próprio coroa incentivava nossas intervenções.

Na saída foi ótimo conversar com a rupali gupte, comentei com ela que seu trabalho era bem parecido com a mostra de design popular que uma ong baiana chamada cipó fez certa feita. Mas já era tempo de partir pra casa e descobrir outra amsterdam, mais cidadão comum mesmo, que o show tinha acabado, business não rolou nenhum. Entendi o pajé mas não fiquei tão triste quanto imaginava não, porque achei bacana participar junto com o ff e o novaes pra mostrar que nos entendemos e trabalhamos juntos nas diferenças, coisa mais difícil praquele povo lá.

Depois escrevo sobre os outros dias, que foram bem massa tb. 


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